{"id":15851,"date":"2018-05-18T15:39:45","date_gmt":"2018-05-18T18:39:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15851"},"modified":"2018-05-18T15:39:45","modified_gmt":"2018-05-18T18:39:45","slug":"a-construcao-do-saci-brasileiro-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-construcao-do-saci-brasileiro-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o do saci brasileiro (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>De onde teria vindo a lenda do Saci? Das tr\u00eas alternativas mais usuais \u2013 ind\u00edgena, africana ou europeia \u2013 tive que prezar todas. Pensei de sa\u00edda que, ante a impossibilidade de precis\u00e3o, me era obrigat\u00f3rio apoiar, comodamente, no conceito de \u201cmetamorfose\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pensando na gravidade da leitura cr\u00edtica sobre tal posicionamento, restou apelar para o cen\u00e1rio antropof\u00e1gico que caracteriza a moderna percep\u00e7\u00e3o da cultura brasileira como um todo. Sim, \u00e9 ineg\u00e1vel que a imprecis\u00e3o da origem de figuras como o Saci leva \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de um modelo hegem\u00f4nico que se materializa na conceitua\u00e7\u00e3o do que \u00e9 nacional. Nesse contexto, reina a estrat\u00e9gia das negocia\u00e7\u00f5es, ou da incorpora\u00e7\u00e3o e da revers\u00e3o de tudo que vem \u201cde fora\u201d em nacional, brasileiro. Em certa medida, isto explicaria o Lobato contradit\u00f3rio, senhor de afirmativas \u2013 no caso do folclore\/tradi\u00e7\u00f5es \u2013 e nega\u00e7\u00f5es \u2013 segundo a percep\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica modernista. Mas, como nem s\u00f3 de Lobato se nutrem os argumentos sobre o Saci, me vi na conting\u00eancia de complementos informativos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-cachimbo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15852\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-cachimbo-450x209.jpg\" alt=\"Saci cachimbo\" width=\"450\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-cachimbo-450x209.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-cachimbo-300x140.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-cachimbo.jpg 767w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O insepar\u00e1vel cachimbo foi vetado pelo politicamente correto<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A fim de dar contorno anal\u00edtico para a constru\u00e7\u00e3o do Saci como personagem nacional, parti do pressuposto de que hoje ele \u00e9 figura palat\u00e1vel, aceito, principalmente fabricado para crian\u00e7as, ainda que c\u00e1 e l\u00e1 se valha dele como refer\u00eancia \u201cexaltativa\u201d de certa brasileiridade nacionalista. Fala-se, ali\u00e1s, de uma dupla infantiliza\u00e7\u00e3o: do Saci adulto, negro raivoso, senhor das matas, tornado menino arteiro, e dele como personagem destinado \u00e0s crian\u00e7as. As duas faces dessa moeda negociam um longo processo de apresamento e constru\u00e7\u00e3o do personagem, estabelecido segundo a imagem e semelhan\u00e7a da cultura que atesta o perfil brasileiro negociador.<\/p>\n<p>Outro elemento consider\u00e1vel nesta an\u00e1lise \u00e9 o fato desse personagem caminhar progressivamente como tema pedag\u00f3gico, l\u00fadico, e, nesse processo, validado como estrat\u00e9gia ideol\u00f3gica, se confirmaria o princ\u00edpio da antropofagia, pois a imagem que hoje temos do Saci \u00e9 de uma figura transformada. Sem d\u00favida, o padr\u00e3o dado pela Rede Globo de Televis\u00e3o nas v\u00e1rias vers\u00f5es do programa \u201cS\u00edtio do pica pau amarelo\u201d mostra um garoto, negrinho\/mulato simp\u00e1tico, de uma s\u00f3 perna, capuz e cal\u00e7a vermelhos. O Saci de nossos dias, n\u00e3o \u00e9 mais o maldoso ente que atormentava a todos, mas um cativante malandrinho que faz suas travessuras engra\u00e7adas. De maneira sorrateira, em favor do \u201cpoliticamente correto\u201d, foram aliviados o olhar amea\u00e7ador e retirado o \u201cconden\u00e1vel\u201d pito\/cachimbo, n\u00e3o mais solta fuma\u00e7a pelos olhos. Mas, no longo processo \u201cmetamorfoseador\u201d, isso \u00e9 s\u00f3 mais um detalhe.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/saci-do-sitio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15854\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/saci-do-sitio.jpg\" alt=\"saci do sitio\" width=\"256\" height=\"197\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Saci do S\u00edtio do Pica-pau Amarelo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Talvez os mais convincentes argumentos demonstrativos do processo de infantiliza\u00e7\u00e3o do Saci e de seu endere\u00e7o para uma cultura infantilizante sejam as leituras procedidas tanto por Maur\u00edcio de Souza como por Ziraldo. Por l\u00f3gico, tudo ocorreu em conson\u00e2ncia com as s\u00e9ries patrocinadas pela televis\u00e3o nos epis\u00f3dios do \u201cS\u00edtio\u201d. A importante sequ\u00eancia de hist\u00f3rias feitas para crian\u00e7as, no Brasil, se inaugurou em 1952, na TV Tupi. O programa ficou no ar por 11 anos se constituindo enorme sucesso. Em 1964, na abertura da ditadura militar, o programa infantil, que contextualizava o Saci, ganhou vers\u00e3o da TV Cultura de S\u00e3o Paulo e, em 1967, na TV Bandeirantes. Ainda que com intervalos, de 1977 a 1986, a Rede Globo de Televis\u00e3o produziu o \u201cS\u00edtio\u201d, com destaque para a presen\u00e7a do Saci. Estava ent\u00e3o caracterizado o novo Saci, nascido para entreter, n\u00e3o mais para criar problemas. E a figura do negrinho domesticado estava fixada.<\/p>\n<p>Mas, e o outro Saci? Dando asas ao voo hist\u00f3rico afeito aos registros documentais, me permiti pensar no Saci como variante tropicalizado do diabo, antes formulado segundo os rigores europeus. N\u00e3o h\u00e1 como deixar de aproxim\u00e1-lo, em sua origem, dos entes sat\u00e2nicos, pois desde as cores usadas em suas representa\u00e7\u00f5es como nas maldades inerentes ao seu papel, h\u00e1 sugest\u00f5es de transfer\u00eancias. Contrastando com a vers\u00e3o daquele demo, pude pensar na g\u00eanese da \u201cadocica\u00e7\u00e3o\u201d do Saci que, entre n\u00f3s, n\u00e3o manteve odores insuport\u00e1veis, perdeu o rabo e trocou o espeto pelo cachimbo e ao longo do tempo perdeu tamb\u00e9m o buraco das m\u00e3os por onde passavam brasas. As negocia\u00e7\u00f5es, diga-se, seriam desdobradas progressivamente, at\u00e9 o completo controle do personagem, entre n\u00f3s.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Aiba.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15855\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Aiba-450x331.jpg\" alt=\"Saci Aiba\" width=\"450\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Aiba-450x331.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Aiba-300x221.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Aiba.jpg 530w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Saci como j\u00e1 foi imaginado em outros tempos&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Talvez, essa pr\u00e1tica de tradu\u00e7\u00e3o das severidades metropolitanas, na col\u00f4nia, explique tamb\u00e9m outra hip\u00f3tese interessante de aproxima\u00e7\u00e3o entre as entidades mal\u00e9ficas europeias e a possibilidade da origem paraguaia do Saci. H\u00e1 informa\u00e7\u00f5es que prezam, desde os primeiros tempos de contato, a identifica\u00e7\u00e3o do nosso Saci com Yasy Yater\u00e9, algu\u00e9m que teria, no m\u00ednimo, atitudes pr\u00f3ximas, principalmente o zelo das matas e as tapea\u00e7\u00f5es com pessoas de fora. Nesse caso, desde o s\u00e9culo XVIII, dada a dispers\u00e3o dos Guarani rumo a diferentes espa\u00e7os brasileiros, seria poss\u00edvel a difus\u00e3o pelo Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Ziraldo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15856\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Ziraldo.jpg\" alt=\"Saci Ziraldo\" width=\"214\" height=\"235\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8230; Saci do Ziraldo e o&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E h\u00e1 vers\u00f5es que contemplam detalhes regionais da adapta\u00e7\u00e3o do Saci. No Nordeste brasileiro, por exemplo, acredita-se que suas manifesta\u00e7\u00f5es decorrem da raiva de um moleque que perdeu a perna num jogo de capoeira. No Norte, \u00e9 comum aproxim\u00e1-lo da ave Matintaperera, ave de pio estridente que, em 1973, foi incorporada na can\u00e7\u00e3o \u201c\u00e1guas de mar\u00e7o\u201d. Diga-se, ali\u00e1s, que o \u00e1lbum intitulado Matita Per\u00ea remete a uma tradi\u00e7\u00e3o que diz de um p\u00e1ssaro noturno que vira gente durante o dia, assombrando os transeuntes perdidos na floresta. Uma refer\u00eancia indispens\u00e1vel remete \u00e0 busca da origem da palavra Saci que, pode ter sido originada no termo tupi Sa + si, o que n\u00e3o deixa de sugerir liga\u00e7\u00f5es com o matintape&#8217;re.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Mauricio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15857\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Saci-Mauricio.jpg\" alt=\"Saci Mauricio\" width=\"285\" height=\"177\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Saci sem o cachimbo, do Maur\u00edcio de Souza<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O entendimento da transfigura\u00e7\u00e3o do Saci \u00e9 condi\u00e7\u00e3o afirmativa da adocica\u00e7\u00e3o ocorrida no personagem. E isso n\u00e3o acontece apenas na fic\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m na \u201cvida real\u201d h\u00e1 transposi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m das v\u00e1rias denomina\u00e7\u00f5es assumidas Brasil afora: Saci-Cerer\u00ea, Saci-Trique, Sa\u00e7ur\u00e1, Mati-taper\u00ea, Matiaper\u00ea, Matimperer\u00ea, Matintaperera, Capetinha da M\u00e3o Furada.<\/p>\n<p>O que importa mesmo no momento \u00e9 verificar que a medita\u00e7\u00e3o sobre o Saci, de folcl\u00f3rico, de coisa do povo, escapou tamb\u00e9m do campo liter\u00e1rio ou sociol\u00f3gico. O longo e complexo processo de adocica\u00e7\u00e3o remete \u00e0 transposi\u00e7\u00e3o da oralidade folcl\u00f3rica para a cultura de massa. E \u00e9 a\u00ed que atua a televis\u00e3o, o r\u00e1dio, o disco. A chamada cultura de massa tem feito muito em favor da determina\u00e7\u00e3o de um novo perfil do povo brasileiro. E a\u00ed atuam v\u00e1rios instrumentos combinados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De onde teria vindo a lenda do Saci? 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