{"id":15820,"date":"2018-05-08T18:26:47","date_gmt":"2018-05-08T21:26:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15820"},"modified":"2018-05-08T18:26:47","modified_gmt":"2018-05-08T21:26:47","slug":"o-piadismo-politico-e-as-licoes-do-quarup-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-piadismo-politico-e-as-licoes-do-quarup-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O PIADISMO POL\u00cdTICO E AS LI\u00c7\u00d5ES DO QUARUP (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para Paulo Pereira<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Em meio a tanto trabalho intelectual e condu\u00e7\u00e3o de projetos acad\u00eamicos, frente a viagem profissional, para variar um pouco optei por escolha de romances. Juntei com cuidado alguns volumes que achei de leitura conveniente, coloquei-os na mala e atravessei o hemisf\u00e9rio. Foi bom chegar e tirar da bagagem livros de Machado de Assis, Cony, Clarice e Callado. Pronto, nas horas vagas, teria combust\u00edvel para uma boa batalha de revis\u00e3o cr\u00edtica, liter\u00e1ria e prazer de releituras fecundas. Com a certeza de que ningu\u00e9m passa impune por uma sele\u00e7\u00e3o dessas, ao cabo da leitura de \u201cQuincas Borba\u201d, de Machado de Assis, escrevi uma cr\u00f4nica \u201cAo vencedor as batatas\u201d. Minha proposta era simples: transpor o mote da vit\u00f3ria dos mais fortes, para a cr\u00edtica discursiva sobre a derrota do recurso de Lula em janeiro \u00faltimo. S\u00f3 isso. N\u00e3o pretendia defender ningu\u00e9m. De forma alguma, at\u00e9 porque as estat\u00edsticas eleitorais s\u00e3o eloquentes. Minha perplexidade corria por conta de outros autores, alguns te\u00f3ricos, em particular de Noam Chomsky.<\/p>\n<p>Pois bem, o texto foi publicado e, por um coment\u00e1rio em especial, percebi que n\u00e3o me fiz entender adequadamente. Isso me preocupou, posto ter optado por tamb\u00e9m me referir, na mesma linha da abordagem anterior, pelo filtro de outro autor, tendo como pretexto o \u201cQuarup\u201d. Pensei, e mesmo temendo repetir disson\u00e2ncia, resolvi ir em frente a exemplo da valentia de Ant\u00f4nio Callado \u2013 que foi preso duas vezes, perseguido, exilado e torturado pela ditadura. A homenagem \u00e0quele exemplo, exigia que eu fosse em frente. Assumindo ser mais claro, dei continuidade a proposta inicial. Optei por seguir o mesmo esquema: falar um pouco do conte\u00fado e destilar ideias de fundo \u00e9tico ou moral.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Antonio-Callado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15821\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Antonio-Callado-450x294.jpg\" alt=\"Antonio Callado\" width=\"450\" height=\"294\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Antonio-Callado-450x294.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Antonio-Callado-300x196.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Antonio-Callado.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ant\u00f4nio Callado, se vivo fosse faria 101 anos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Ainda que muitos n\u00e3o o considerem entre os melhores livros de Callado, \u201cQuarup\u201d figura como um dos meus favoritos. A hist\u00f3ria, publicada em 1967, se passa entre 1950, segue at\u00e9 o golpe militar de 1964 e seus primeiros desdobramentos. O personagem central \u00e9 um atormentado padre que, por fim, deixa a batina para entrar na luta armada. A tens\u00e3o extraordin\u00e1ria gerada pelas aventuras de Nando mostra a complexidade das personalidades divididas entre projetos salvacionistas, a frustra\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica e o desregramento ou desmontagem da cren\u00e7a pol\u00edtica. Na saga que se desenrola r\u00e1pida e perfilada por acontecimentos hist\u00f3ricos \u2013 a cria\u00e7\u00e3o do Parque Nacional do Xing\u00fa, o atentado a Carlos Lacerda, o Golpe de 1964 \u2013, ainda no mosteiro, o novi\u00e7o se apaixona por Francisca, mo\u00e7a linda, rica e noiva de Levindo. Atormentado por fantasias, para fugir dos pecados, opta por viver entre os \u00edndios do Xingu, n\u00e3o sem antes ter um caso ardente com uma jovem inglesa, Winifred. Ainda religioso, viveu tamb\u00e9m um turbilh\u00e3o no mundo de drogas, \u00e1lcool e sexo clandestino. Nando, apesar de tudo, prosseguia em sua miss\u00e3o e, por fim, j\u00e1 liberto do sacerd\u00f3cio torna-se guerrilheiro. Sua obsess\u00e3o por Francisca continuou e teve lances pr\u00f3ximos de uma trag\u00e9dia. Toda trama, por\u00e9m, seria explicada segundo a cad\u00eancia da crescente repress\u00e3o do governo ditatorial. Grande parte da hist\u00f3ria tem a floresta como espa\u00e7o simb\u00f3lico de um Brasil metaforizado pela barb\u00e1rie pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A par do movimentado enredo, a aten\u00e7\u00e3o cuidadosa dada por Callado a um festival dos ind\u00edgenas do Xingu, o Quarup, \u00e9 comovente. Entre tantos detalhes do complexo cerimonial, alguns s\u00e3o dignos da melhor antropologia, e, com destaque, tem-se a descri\u00e7\u00e3o do \u201chuka-huka\u201d, uma luta muito r\u00e1pida que ocorre no meio da celebra\u00e7\u00e3o dirigida aos mortos \u2013 este, ali\u00e1s, \u00e9 o mais importante evento dos ind\u00edgenas do Xingu. O enternecedor na luta \u00e9 que o vitorioso n\u00e3o pode humilhar o advers\u00e1rio. O respeito pela dignidade alheia, pela sua integridade f\u00edsica, \u00e9 a regra sagrada. Tal postura, diga-se, eleva o ganhador \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de defer\u00eancia e \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito da vit\u00f3ria frente a comunidade. \u00c9 exatamente sob a atmosfera dessa narrativa que penso nas li\u00e7\u00f5es oferecidas por Callado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Quarup-luta.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15822\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Quarup-luta-450x295.jpg\" alt=\"Quarup luta\" width=\"450\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Quarup-luta-450x295.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Quarup-luta-300x197.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Quarup-luta-768x504.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Quarup-luta.jpg 1100w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Flagrante de uma luta no Festival do Quarup<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Confesso que ando esbarrando na depress\u00e3o sociol\u00f3gica. Quando vejo em listas das redes sociais as piadas deferidas contra os perdedores, fico inquieto e indeciso entre a surpresa e o desengano. Levo em conta nesses casos a proced\u00eancia de quem posta as tais mensagens e assim sofro ainda mais. E ent\u00e3o me perco em mim mesmo, pois n\u00e3o \u00e9 raro, identificar que as mesmas pessoas mandam \u201cbons dias\u201d, falam de anjos, emitem notas em campanhas beneficentes. Tenho que admitir que h\u00e1 um toque de humor na inten\u00e7\u00e3o das pessoas, mas quando vejo os desdobramentos, em particular os coment\u00e1rios refor\u00e7ando s\u00e1tiras dispens\u00e1veis, admito que, definitivamente, n\u00e3o entendo mais o mundo.<\/p>\n<p>Ainda bem que Callado escreveu \u201cQuarup\u201d. Ainda bem que mesmo tendo que admitir a for\u00e7a da distopia eu possa pensar que em algum lugar da selva brasileira existe um ritual de luta e de respeito. Ah!&#8230; Que bom seria se pud\u00e9ssemos reinventar o Brasil e aprender com os \u00edndios que mais importante que vencer, \u00e9 n\u00e3o se vingar, e se engrandecer com a vit\u00f3ria sobre o outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Paulo Pereira \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Em meio a tanto trabalho intelectual e condu\u00e7\u00e3o de projetos acad\u00eamicos, frente a viagem profissional, para variar &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15823,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15820","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15820","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15820"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15820\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15824,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15820\/revisions\/15824"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15823"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}