{"id":15798,"date":"2018-04-28T08:14:44","date_gmt":"2018-04-28T11:14:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15798"},"modified":"2018-04-28T08:16:41","modified_gmt":"2018-04-28T11:16:41","slug":"obrigado-dr-king-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/obrigado-dr-king-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"Obrigado, Dr King (Daniel Aar\u00e3o Reis*)"},"content":{"rendered":"<p>O agradecimento, singelo como um sentimento aut\u00eantico, apareceu em cartazes na passeata silenciosa que serpenteou pelas ruas de Washington, capital dos Estados Unidos, em homenagem a Martin Luther King, assassinado em 4 de abril de 1968, em Memphis, Tennessee. Reuni\u00f5es, semin\u00e1rios e assembleias homenagearam o grande tribuno dos movimentos negros dos anos 1960.<\/p>\n<p>Quando foi morto, aos 39 anos, King j\u00e1 era um veterano. Tornou-se figura p\u00fablica aos 26 anos, quando se envolveu, em 1956, nos movimentos de solidariedade a Rosa Parks em Montgomery, no Alabama. Ela enfrentara a legisla\u00e7\u00e3o discriminat\u00f3ria, recusando-se a levantar de um lugar reservado aos brancos no \u00f4nibus onde se encontrava. Encarcerada, a injusti\u00e7a suscitou esc\u00e2ndalo nacional. Os negros passaram a boicotar os transportes p\u00fablicos.\u00a0 E ganharam uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica: a Suprema Corte dos EUA declarou ilegal a discrimina\u00e7\u00e3o racial nos meios de transporte. King conheceu, ent\u00e3o, os custos \u2013 altos \u2013 de sua op\u00e7\u00e3o: foi insultado, preso e teve sua casa atacada.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Martin-preso.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15799\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Martin-preso.jpg\" alt=\"Martin preso\" width=\"277\" height=\"182\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Martin Luther King foi perseguido pela pol\u00edcia branca<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As amea\u00e7as policiais, todavia, n\u00e3o o intimidaram. Nos anos seguintes, n\u00e3o haveria den\u00fancia ou luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial nos Estados Unidos que n\u00e3o encontrasse nele conselho, apoio, est\u00edmulo, lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>Em 1960, por suas promessas, John Kennedy recebeu maci\u00e7a vota\u00e7\u00e3o das comunidades negras. Contudo, uma vez empossado, n\u00e3o as cumpriu. Os sucessivos enfrentamentos em torno da quest\u00e3o racial, em numerosas cidades do pa\u00eds, n\u00e3o o sensibilizavam. Entretanto, a brutal repress\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es antirracistas em Birmingham, tamb\u00e9m no Alabama, em janeiro de 1963, filmadas e televisionadas, radicalizaram o movimento. \u00a0Na sequ\u00eancia, v\u00e1rias lideran\u00e7as negras resolveram organizar um com\u00edcio em Washington, capaz de alcan\u00e7ar repercuss\u00e3o nacional, globalizando o conjunto das lutas locais pela aprova\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o garantindo aos negros uma \u201csegunda emancipa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Articularam-se cinco organiza\u00e7\u00f5es: a Liga Nacional Urbana; a Associa\u00e7\u00e3o Nacional pela Emancipa\u00e7\u00e3o dos Negros; o Comit\u00ea de Coordena\u00e7\u00e3o dos Estudantes N\u00e3o-Violentos; o Congresso pela Igualdade das Ra\u00e7as e a Confer\u00eancia dos L\u00edderes Crist\u00e3os do Sul. Todos estariam em Washington em 28 de agosto de 1963.<\/p>\n<p>A ideia eletrizou a na\u00e7\u00e3o. \u00a0De todas as partes, reservavam-se avi\u00f5es, trens e \u00f4nibus. <em>We shall overcome<\/em> (Haveremos de superar), cantava Joan Baez, no que se tornou um hino do antirracismo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Joan-Baez-1968.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15800\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Joan-Baez-1968-450x295.jpg\" alt=\"Joan Baez 1968\" width=\"450\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Joan-Baez-1968-450x295.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Joan-Baez-1968-300x196.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Joan-Baez-1968.jpg 733w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Joan Baez foi uma das que se apresentaram voluntariamente em 1963<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No dia aprazado, reuniu-se a maior concentra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de todos os tempos no pa\u00eds. Encerrando-a, King pronunciou palavras que n\u00e3o foram mais esquecidas: \u201ceu tenho um sonho: que meus filhos n\u00e3o sejam avaliados pela cor da pele, mas pelo seu car\u00e1ter\u201d.<\/p>\n<p>Os movimentos negros registraram novas conquistas, evidenciadas na aprova\u00e7\u00e3o das Leis de Direitos Civis e de Direitos Pol\u00edticos, em 1964 e 1965. \u00c9 fato que a quest\u00e3o racial permaneceu viva \u2013 e permanece at\u00e9 os dias de hoje \u2013 como uma ferida n\u00e3o cicatrizada. Negros continuam sendo assassinados pelas pol\u00edcias de v\u00e1rios estados norte-americanos. E persistem desigualdades raciais revoltantes. N\u00e3o gratuitamente, surgiu, em 2013, o grito indignado<em>: black lives matter<\/em> (as vidas dos negros t\u00eam import\u00e2ncia).<\/p>\n<p>Nada, no entanto, obscurece os legados das lutas empreendidas nos anos 1960.<\/p>\n<p>Em lugar de destaque, a autonomia de um movimento social em rela\u00e7\u00e3o ao Estado e aos partidos pol\u00edticos. Destacou-se, como talentoso organizador, Bayard Rustin, portador de um triplo pecado: era negro, objetor de consci\u00eancia (recusara-se a ir para a II Guerra Mundial) e homossexual assumido.<\/p>\n<div id=\"attachment_15801\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Bayard-Rustin.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-15801\" class=\"size-large wp-image-15801\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Bayard-Rustin-450x263.jpg\" alt=\"2nd February 1964: Civil Rights activist Bayard Rustin, spokesman for the Citywide Committee for Integration, talks on the phone at the organization's headquarters at Silcam Presbyterian Church, Brooklyn, New York. (Photo by Patrick A. Burns\/New York Times Co.\/Getty Images)\" width=\"450\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Bayard-Rustin-450x263.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Bayard-Rustin-300x175.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Bayard-Rustin.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-15801\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Ativista Bayard Rustin em fevereiro de 1964 enfrentou o preconceito<\/strong><\/em>\u00a0s<em><strong>endo negro e gay assumido<\/strong><\/em><\/p><\/div>\n<p>Na integra\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de ativistas, distinguiu-se Philip Randolph, na luta desde meados dos anos 1930, incentivando os mais jovens surgidos em recentes embates.<\/p>\n<p>O movimento era, sem d\u00favida, ancorado em aspectos identit\u00e1rios, por\u00e9m, n\u00e3o se limitava a eles. Integrava quest\u00f5es sociais (por insist\u00eancia de Randolph, a manifesta\u00e7\u00e3o de Washington teria dois motes \u2013 <em>jobs and freedom<\/em> (empregos e liberdade). E quando foi assassinado, em Menphis, King prestava solidariedade a uma greve dos lixeiros locais, contra as terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de trabalho. \u00a0Al\u00e9m disso, desde 1966, ele passara a fazer contundentes discursos contra a guerra do Vietn\u00e3, contrariando os que estimavam a tem\u00e1tica perigosa e sens\u00edvel.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Martin-comicio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15802\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Martin-comicio.jpg\" alt=\"Martin comicio\" width=\"277\" height=\"182\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Martin Luther King dirigiu manifesta\u00e7\u00f5es que mobilizaram centenas de milhares de pessoas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi not\u00e1vel, por outro lado, a capacidade de ampliar alian\u00e7as pol\u00edticas e sociais \u2013 entre negros de distintas ideologias, e entre negros e brancos, mobilizando a opini\u00e3o p\u00fablica e atraindo artistas e lideran\u00e7as pol\u00edticas e religiosas.<\/p>\n<p>Todas estas caracter\u00edsticas articulavam-se em torno de uma concep\u00e7\u00e3o de conquistas progressivas de direitos. As mudan\u00e7as seriam resultado da persuas\u00e3o das consci\u00eancias, no quadro de uma democracia a ser aperfei\u00e7oada.<\/p>\n<p>Por tudo isto, e por terem dedicado suas vidas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o destes caminhos, cabe-nos, hoje, dizer: obrigado, Bayard Rustin; \u00a0obrigado, Philip Randolph, obrigado, \u00a0Dr. King.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>*Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Email: daniel.aaraoreis@gmail.com<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Abaixo, link para entrevista concedida por mim abordando temas pol\u00eamicos:\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/578368-a-democracia-brasileira-esta-balancando-o-crime-organizado-e-uma-das-principais-ameacas-entrevista-especial-com-daniel-aarao-reis\">http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/578368-a-democracia-brasileira-esta-balancando-o-crime-organizado-e-uma-das-principais-ameacas-entrevista-especial-com-daniel-aarao-reis<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O agradecimento, singelo como um sentimento aut\u00eantico, apareceu em cartazes na passeata silenciosa que serpenteou pelas ruas de Washington, capital dos Estados Unidos, em homenagem &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15803,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15798","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15798","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15798"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15798\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15810,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15798\/revisions\/15810"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15803"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}