{"id":15768,"date":"2018-04-18T10:52:36","date_gmt":"2018-04-18T13:52:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15768"},"modified":"2018-04-18T10:52:36","modified_gmt":"2018-04-18T13:52:36","slug":"somos-todos-sacis-somos-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/somos-todos-sacis-somos-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Somos todos sacis&#8230; Somos?&#8230; (Mestre JC  Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Saci serve para tudo, em particular por mostrar que de negro ele se torna mulato, de violento ou ruim, vira bonzinho, de feio ou apavorante, se transforma principalmente em bonequinho feito para crian\u00e7as. Como se viv\u00eassemos em uma democracia racial&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Muitos acompanham o esfor\u00e7o de grupos que valorizam a originalidade do chamado folclore nacional. Os mais entusiasmados preferem at\u00e9 dizer \u201cmitologia bras\u00edlica\u201d, evocando diretamente Monteiro Lobato no arguto empenho de caracterizar algumas tradi\u00e7\u00f5es como fundamento do nosso nacionalismo. Desde a publica\u00e7\u00e3o do primeiro livro do escritor taubateano \u201cSacy\u2013perer\u00ea: resultado de um Inqu\u00e9rito\u201d (anterior a \u201cUrup\u00eas\u201d que saiu no mesmo ano, em 1918), ficou estabelecido o uso de comemora\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas como refer\u00eancia identit\u00e1ria. Essa pr\u00e1tica, ali\u00e1s, foi comum a v\u00e1rios estados nacionais no s\u00e9culo XIX, e teve seu auge no Nazismo, momento em que Hitler exponenciou as lendas como base da autenticidade cultural germ\u00e2nica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/001.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15769\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/001.jpg\" alt=\"001\" width=\"300\" height=\"388\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/001.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/001-232x300.jpg 232w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 conveniente lembrar que diversos pa\u00edses, \u00e0 \u00e9poca, escolheram seus tipos padr\u00f5es e em locais como o M\u00e9xico o <em>sombrero<\/em> foi eleito como marca, assim como na Espanha a dan\u00e7arina de flamenco e o touro, e em Portugal o bigode e a Torre de Bel\u00e9m. Por l\u00f3gico, os ritmos musicais tamb\u00e9m acompanharam a tend\u00eancia e assim como o samba, a rumba, a c\u00fambia, o tango, o fado, se apresentaram como atestados ic\u00f4nicos de \u201cna\u00e7\u00f5es\u201d. Ao mesmo tempo, os s\u00edmbolos nacionais como bandeiras, bras\u00f5es, cores combinadas e hinos passaram a ser cultivados como prova de amor \u00e0 p\u00e1tria. At\u00e9 hoje tal tradi\u00e7\u00e3o vigora, e as ra\u00edzes autorit\u00e1rias insistem nas mesmas pr\u00e1ticas ditas \u201cpatri\u00f3ticas\u201d. \u00c9 f\u00e1cil perceber posicionamentos pol\u00edticos autorit\u00e1rios apoiados no uso dos s\u00edmbolos nacionais com exalta\u00e7\u00e3o \u00e0 bandeira, ao hino, \u00e0s cores verde e amarelo.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, o funcionamento destas tradi\u00e7\u00f5es inventadas teve uma sequ\u00eancia hist\u00f3rica original. De largada, o Saci virou moeda de troca de tradi\u00e7\u00f5es reaquecidas no projeto modernista brasileiro, em particular da d\u00e9cada de 1910 e seguinte. Autores como Lobato, Mario e Oswald de Andrade, entre outros, trataram de caracterizar o que seria nacional\/brasileiro, ainda que segundo orienta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas diferentes. E nesse arco se deu o constructo da identifica\u00e7\u00e3o de \u201ccoisas nossas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15770\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-11-376x450.jpg\" alt=\"Saci 11\" width=\"376\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-11-376x450.jpg 376w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-11-251x300.jpg 251w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-11-768x920.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-11.jpg 1002w\" sizes=\"auto, (max-width: 376px) 100vw, 376px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O Saci, no in\u00edcio, n\u00e3o tinha a ver com o que se transformou<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com o passar do tempo, o Saci advindo de lendas difusas, abstratas, foi se reorientando at\u00e9 se transformar em uma esp\u00e9cie de atestado do que somos: bonzinhos, gentis, meio malandros, d\u00f3ceis. Esse sutil ponto greg\u00e1rio teve, contudo, longa estrada, pavimentada por situa\u00e7\u00f5es que levaram a uma orienta\u00e7\u00e3o cultural capaz de dar sentido e forma a figuras que passaram a nos representar. E foi por ocasi\u00e3o do \u201cInqu\u00e9rito sobre o Saci\u201d (1917\/18) que tais condi\u00e7\u00f5es se materializaram. Lobato, ao reunir narrativas contadas por leitores do Jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, assinalou um ponto de inflex\u00e3o entre a oralidade e a escrita, apresando nesta as varia\u00e7\u00f5es do \u201cdiabrete\u201d. Publicado o \u201cInqu\u00e9rito\u201d, em 1921 outro livro, dessa feita para crian\u00e7as, \u201cO Saci\u201d, no qual estavam caracterizadas as imagens figuradas do Saci com algumas marcas que permaneceram: uma perna s\u00f3, negro, com um pito na boca e gorro vermelho.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15771\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Saci-2.jpg\" alt=\"Saci 2\" width=\"196\" height=\"257\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>De diab\u00f3lico, foi adocicado pelo pr\u00f3prio Monteiro Lobato<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi Monteiro Lobato o primeiro a adocicar o Saci que, de diab\u00f3lico, foi logo tratado como malandrinho e, de mau, perverso, sinistro virou arteiro, traquinas, enfim, brasileiro como todos n\u00f3s. Mas desde o in\u00edcio e promovido pelo pr\u00f3prio criador da figura do Saci moderno, as transforma\u00e7\u00f5es continuaram at\u00e9 que ele acabasse por ser um dos recursos pedag\u00f3gicos, l\u00fadicos, mais usados em escolas para crian\u00e7as. Fica claro, pois, que a maneira pol\u00edtica de apropria\u00e7\u00e3o do Saci foi das estrat\u00e9gias mais eficientes de nossa cultura, e o uso do ente simp\u00e1tico virou quest\u00e3o pedag\u00f3gica, postas \u00e0 mesa da manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da sociedade que, afinal, deveria ser guardi\u00e3 das transforma\u00e7\u00f5es. Juntamente com a simplifica\u00e7\u00e3o para crian\u00e7as, no universo adulto, o Saci continuou sua trajet\u00f3ria, chegando mesmo a ser adotado como mascote de time de futebol (Gr\u00eamio). Conv\u00e9m, ali\u00e1s, lembrar que tal estrat\u00e9gia ganhou foros de debate p\u00fablico nacional quando Mouzar Benedito, em 2014, o prop\u00f4s como s\u00edmbolo da Copa do Mundo e Juca Kfouri o refutou. Isso sem falar de refer\u00eancia a escolas de samba, nome do foguete interplanet\u00e1rio brasileiro, marcas de furadeiras, e de alimentos e bebidas, denomina\u00e7\u00e3o de estabelecimentos comerciais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/04-Ziraldo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15772\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/04-Ziraldo-450x429.jpg\" alt=\"04 Ziraldo\" width=\"450\" height=\"429\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/04-Ziraldo-450x429.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/04-Ziraldo-300x286.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/04-Ziraldo.jpg 489w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Vers\u00e3o moderna do Saci, segundo o cartunista Ziraldo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outro \u00e2ngulo interessante colado nessa reflex\u00e3o. Ao mesmo tempo em que Lobato colocava na cena nacional tais situa\u00e7\u00f5es, alguns dos ensaios fundamentais da brasilidade ganhavam respeitabilidade acad\u00eamica. Duas propostas, ou mitos, vigeram prefer\u00eancias: a democracia racial (Gilberto Freyre) e o homem cordial (S\u00e9rgio Buarque de Holanda). Desdobramento natural desses pressupostos, o tal do jeitinho brasileiro de ser (Roberto DaMatta) ganhava corpo explicativo de nossas alternativas comportamentais. Nesse sentido, \u00e9 cab\u00edvel a pergunta: mas como o Saci figurou nessa hist\u00f3ria? E a resposta caminha pela identifica\u00e7\u00e3o com os atributos que, hipoteticamente, nos distinguem: uma sociedade sem luta de classes, com aceita\u00e7\u00e3o racial transit\u00e1vel, bem como cruzamentos de g\u00eanero e religi\u00e3o. E vejamos que o Saci serve para tudo, em particular por mostrar que de negro ele se torna mulato, de violento ou ruim, vira bonzinho, de feio ou apavorante, se transforma principalmente em bonequinho feito para crian\u00e7as. Como se viv\u00eassemos em uma democracia racial, cordialmente ter\u00edamos fatores para negocia\u00e7\u00f5es que, afinal, nos exibem como sem lutas, guerras, conflitos. Pensando nas metamorfoses do perneta, cabe perguntar: Saci nos representa? Somos todos Sacis?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Saci serve para tudo, em particular por mostrar que de negro ele se torna mulato, de violento ou ruim, vira bonzinho, de feio ou apavorante, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15773,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15768","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15768"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15774,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15768\/revisions\/15774"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}