{"id":15688,"date":"2018-03-27T09:14:45","date_gmt":"2018-03-27T12:14:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15688"},"modified":"2018-03-27T09:14:45","modified_gmt":"2018-03-27T12:14:45","slug":"e-se-fosse-uma-filha-sua-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/e-se-fosse-uma-filha-sua-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"E se fosse uma filha sua? (Daniel Aar\u00e3o Reis)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u00c9 essencial que se organizem manifesta\u00e7\u00f5es para deixar claro que n\u00e3o deixar\u00e3o que se mate Marielle pelo esquecimento<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Mataram um estudante, e se fosse um filho seu? Com raiva na voz e sangue nos olhos, grupos de estudantes entravam em \u00f4nibus, restaurantes, teatros e cinemas, denunciando o assassinato de Edson Lu\u00eds Lima Souto no Centro do Rio de Janeiro por soldados da Pol\u00edcia Militar. E se fosse um filho seu?, indagavam, na esperan\u00e7a de suscitar compaix\u00e3o e solidariedade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Edson-Luis-velado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15689\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Edson-Luis-velado.jpg\" alt=\"Edson Luis velado\" width=\"268\" height=\"188\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O corpo de Edson Lu\u00eds sendo velado na Assembleia Legislativa do Rio em 28 de mar\u00e7o de 1968<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Edson Lu\u00eds era um dos milhares de jovens, a maioria formada de secundaristas, quase todos pobres, pardos ou negros, provindos de outros estados, que faziam refei\u00e7\u00f5es no restaurante do Calabou\u00e7o, localizado pr\u00f3ximo ao Aeroporto Santos Dumont. Constru\u00eddo no quadro da pol\u00edtica assistencialista de Get\u00falio Vargas, oferecia pre\u00e7os subsidiados e um conjunto de servi\u00e7os a estudantes carentes. Contudo, para atender \u00e0s necessidades do tr\u00e2nsito de ve\u00edculos, a ditadura determinara a demoli\u00e7\u00e3o do restaurante. Houve resist\u00eancia. Os estudantes quebraram m\u00e1quinas e escavadeiras enviadas para o trabalho de destrui\u00e7\u00e3o. Denunciaram a injusti\u00e7a e a crueldade daquela decis\u00e3o. Era uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, pois eles n\u00e3o tinham recursos para pagar os pre\u00e7os de restaurantes normais, por mais modestos que fossem.<\/p>\n<p>O movimento ganhou apoio de estudantes universit\u00e1rios e de intelectuais. O governo recuou e fez um acordo: um outro restaurante seria constru\u00eddo, no Centro da cidade, pr\u00f3ximo aos locais de trabalho e de estudo. De fato, em tempo recorde, construiu-se um novo pr\u00e9dio, mas sem as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de higiene e de espa\u00e7o para abrigar tanta gente. Um desrespeito. Sequer havia um piso de cimento, obrigando as pessoas a comer em meio a nuvens de poeira. Recome\u00e7aram as passeatas. Esquentavam os \u00e2nimos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Edson-Luis-presente.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15690\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Edson-Luis-presente.jpg\" alt=\"Edson Luis presente\" width=\"216\" height=\"234\" \/><\/a><\/p>\n<p>Amanh\u00e3, o Rio relembrar\u00e1 uma data hist\u00f3rica: h\u00e1 exatos 50 anos, em 28 de mar\u00e7o de 1968, os estudantes do Calabou\u00e7o se preparavam para mais uma manifesta\u00e7\u00e3o pelo cumprimento do acordo firmado. Previam chegar \u00e0 Assembleia Legislativa, na Cinel\u00e2ndia, onde hoje funciona a C\u00e2mara de Vereadores. A Pol\u00edcia Militar compareceu com a habitual trucul\u00eancia. No embate, mataram Edson Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Com o cad\u00e1ver nos bra\u00e7os, os estudantes rumaram para a Assembleia, onde depositaram o corpo. Foi realizada ali mesmo a aut\u00f3psia, o pr\u00e9dio cercado por uma multid\u00e3o que acorria de todos os cantos, comovida, solid\u00e1ria, indignada.<\/p>\n<p>No dia seguinte, imensa passeata levou o jovem assassinado ao Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. A cidade parou. A pol\u00edcia recolheu-se aos quart\u00e9is. Pela primeira vez desde a instaura\u00e7\u00e3o da ditadura, em 1964, o povo do Rio tomou as ruas e as pra\u00e7as, e p\u00f4de manifestar-se pacificamente. Entretanto, os respons\u00e1veis pelo crime nunca foram identificados, ficaram impunes.<\/p>\n<p>Quase 50 anos depois, um novo assassinato pol\u00edtico est\u00e1 abalando a cidade e o pa\u00eds. Desta vez, mataram a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Pedro Gomes.<\/p>\n<p>Cinquenta anos separam os assassinatos de Edson Lu\u00eds Lima Souto e Marielle Franco. O que os distingue, o que os aproxima?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-presente-recortada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-15691\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-presente-recortada-450x299.jpg\" alt=\"Plen\u00e1rio da C\u00e2mara dos Deputados durante sess\u00e3o n\u00e3o deliberativa solene em homenagem \u00e0 vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e seu motorista, Anderson Gomes, assassinados no Rio de Janeiro. Segurando girass\u00f3is, parlamentares do PSOL, PT, PSB e militantes dos direitos humanos marcharam desde a taquigrafia at\u00e9 o plen\u00e1rio da C\u00e2mara, onde acompanharam a sess\u00e3o solene no plen\u00e1rio. Uma grande faixa preta com os dizeres &quot;Marielle, presente! Anderson, presente! Transformar luto em luta!&quot; foi estendida em frente a mesa de trabalhos. Faixa: &quot;Marielle presente, hoje e sempre&quot;. Foto: Geraldo Magela\/Ag\u00eancia Senado\" width=\"450\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-presente-recortada-450x299.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-presente-recortada-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-presente-recortada.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ambos eram pobres, pardos, ocupavam um lugar onde \u00e9 menor a esperan\u00e7a de vida e mais prov\u00e1vel a morte violenta. Edson era muito jovem, quase um menino. Seu futuro, um mist\u00e9rio. As lutas que ele n\u00e3o lutou, Marielle, tamb\u00e9m ainda jovem, mas mulher feita, as travou com determina\u00e7\u00e3o e coragem. Ultrapassou barreiras que raros conseguem pular, e ia alto, linda, em pleno voo, um belo voo de liberdade e de vida, quando a abateram. Um futuro brilhante a aguardava, e isto nos torna tanto mais tristes, amargurados e indignados.<\/p>\n<p>Viveram, por\u00e9m, conjunturas diferentes. Em 1968, a ditadura parecia balan\u00e7ar. Logo depois, no entanto, endureceu-se ainda mais, atrav\u00e9s do maldito Ato Institucional n\u00ba 5. Em 2018, \u00e9 a democracia que balan\u00e7a. J\u00e1 se disse, e com raz\u00e3o, que o tiro que matou Marielle alvejou o regime democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Os estudantes do Rio preparam uma manifesta\u00e7\u00e3o para amanh\u00e3, quando pretendem reverenciar a mem\u00f3ria de Edson e Marielle. Acertaram na mosca. N\u00e3o esquecer \u00e9 um primeiro passo.<\/p>\n<p>Contudo, uma outra preocupante aproxima\u00e7\u00e3o que se desenha \u00e9 a de que os mandantes e os autores diretos do crime permane\u00e7am desconhecidos \u2014 e impunes.<\/p>\n<p>Para evitar que isto aconte\u00e7a, duas medidas s\u00e3o indispens\u00e1veis. A primeira delas, ventilada por um manifesto internacional assinado por intelectuais e artistas, \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de uma Grande Comiss\u00e3o, da sociedade civil, \u00e9tnica, social e politicamente plural, para acompanhar e monitorar as investiga\u00e7\u00f5es agora em curso. O crime cometido \u00e9 s\u00e9rio demais para ficar apenas nas m\u00e3os da pol\u00edcia e do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-recortada-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15692\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-recortada-1-450x410.jpg\" alt=\"Marielle recortada\" width=\"450\" height=\"410\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-recortada-1-450x410.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-recortada-1-300x273.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Marielle-recortada-1.jpg 554w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Num outro n\u00edvel, \u00e9 necess\u00e1rio que a sociedade n\u00e3o se desmobilize. \u00c9 essencial que se organizem, todas as semanas, manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para deixar claro que as gentes est\u00e3o despertas, vivas e que n\u00e3o deixar\u00e3o que se mate Marielle pelo esquecimento, como se fez com Edson.<\/p>\n<p>Marielle era filha apenas de seus pais, mas&#8230; e se fosse uma filha sua?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Daniel Aar\u00e3o Reis \u00e9 professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>daniel.aaraoreis@gmail.com<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 essencial que se organizem manifesta\u00e7\u00f5es para deixar claro que n\u00e3o deixar\u00e3o que se mate Marielle pelo esquecimento \u00a0Mataram um estudante, e se fosse um &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15692,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15688","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15688"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15688\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15693,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15688\/revisions\/15693"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15692"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}