{"id":15568,"date":"2018-02-22T13:07:12","date_gmt":"2018-02-22T16:07:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15568"},"modified":"2018-02-22T13:11:36","modified_gmt":"2018-02-22T16:11:36","slug":"brasil-fora-de-si-a-venezuela-em-nos-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/brasil-fora-de-si-a-venezuela-em-nos-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"BRASIL FORA DE SI; A VENEZUELA EM N\u00d3S&#8230; (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Na passagem do s\u00e9culo passado para o atual, h\u00e1 mais de 18 anos, eu morava em Nova York, gra\u00e7as a uma generosa bolsa de estudos na Universidade de Columbia. As condi\u00e7\u00f5es de trabalho nos Estados Unidos eram magn\u00edficas devido ao surto progressista do governo Clinton e as oportunidades se multiplicavam para imigrantes, at\u00e9 mesmo ilegais que se ocupavam de pequenos trabalhos.<!--more--> Em contraste, no Brasil, as coisas iam mal, e, do fim da d\u00e9cada de 1990 em diante, assistia-se a um fen\u00f4meno que em si explicava a nossa chamada \u201cd\u00e9cada perdida\u201d, ou seja, os anos de 1980, principalmente a fase governada por Jos\u00e9 Sarney. Eram anos duros para a economia e parcela de brasileiros se retirava do pa\u00eds em busca de melhores lugares ao sol do capitalismo que se internacionalizava. Os Estados Unidos se afiguravam como uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio salvador, e levas de brasileiros aflu\u00edam, principalmente para a Costa Leste, em particular para o Sul da Fl\u00f3rida, New York e Boston. \u00c9 muito dif\u00edcil explicar a complexidade de um fen\u00f4meno que, afinal, implicava cerca de cinco milh\u00f5es de pessoas, brasileiros, que deixavam o pa\u00eds num \u00eaxodo nunca suficientemente justificado, e, c\u00e1 entre n\u00f3s, convenientemente evitado.<\/p>\n<p>A come\u00e7ar pelos n\u00fameros, as imprecis\u00f5es assustam. Em termos oficiais, como imigrantes legais, o nosso Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores registrava cifras ris\u00edveis &#8211; pouco mais de 3 milh\u00f5es, no mundo todo. N\u00e3o que sejam dados incorretos, mas ao considerar os preceitos legais deixavam \u00e0s franjas os ditos \u201cilegais\u201d, \u201cclandestinos\u201d, \u201cindocumentados\u201d ou \u201cem tr\u00e2nsito\u201d. Coloque-se nessa mesma parcela o montante de estudantes e estagi\u00e1rios (que v\u00e3o sob uma condi\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, e acabam fincando para sempre) e tem-se um resultado bem mais dilatado &#8211; \u00e0 \u00e9poca cerca de 5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Migrantes-nos-USA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15569\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Migrantes-nos-USA.jpg\" alt=\"Migrantes nos USA\" width=\"340\" height=\"235\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Migrantes-nos-USA.jpg 340w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Migrantes-nos-USA-300x207.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>\u00c9 marcante a imigra\u00e7\u00e3o brasileira nos Estados Unidos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O dram\u00e1tico dessa contabilidade atualizada \u00e9 que aos governos nunca interessou divulgar que hoje temos mais de sete milh\u00f5es de brasileiros fora do Brasil. N\u00e3o precisa ser dem\u00f3grafo para avaliar os benef\u00edcios que fazem com que os governos escondam os pat\u00e9ticos n\u00fameros. Em primeiro lugar, vale a lembran\u00e7a de que s\u00e3o jovens, em plena capacidade de for\u00e7a e que, se no Brasil, complicariam o j\u00e1 quase insuport\u00e1vel, por concorrido, mercado de trabalho. Acresce-se a isso um fato quase nunca revelado: os brasileiros fora do Brasil contribuem com envios de dinheiro, fato que interessa enormemente \u00e0 economia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por si s\u00f3 essa situa\u00e7\u00e3o mereceria notoriedade, pois explica a manipula\u00e7\u00e3o de dados. Mas h\u00e1 outra raz\u00e3o que vale destaque: a falta de cultura imigrat\u00f3ria, pois os brasileiros que emigram n\u00e3o gostam de se ver no espelho problem\u00e1tico. Somos resistentes ao rompimento de la\u00e7os culturais e isso \u00e9 quase mitol\u00f3gico. Talvez o apego familiar esclare\u00e7a a perman\u00eancia dos v\u00ednculos parentais e fa\u00e7a com que se anule a no\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia fora, deixando-se de ser brasileiro.<\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica das \u00faltimas d\u00e9cadas, at\u00e9 2014 (falsa ou n\u00e3o), permitiu um al\u00edvio no fluxo para o exterior. Desde os recentes acontecimentos, principalmente depois do impedimento da Presidente Dilma, reacendeu-se a teima imigrat\u00f3ria. H\u00e1 novidades not\u00e1veis e elas se dilatam em duas tend\u00eancias not\u00e1veis: em uma ponta, nota-se que n\u00e3o se trata mais de grupos majoritariamente pobres, indefesos. Em outro extremo, nota-se que a classe m\u00e9dia que comp\u00f5e tal fluxo prefere a Costa Oeste. Isso \u00e9 revelador de um novo est\u00e1gio na evolu\u00e7\u00e3o imigrat\u00f3ria brasileira. Se antes fal\u00e1vamos de miser\u00e1veis, agora nos referimos a grupos escolarizados e que deslocam o foco imigrat\u00f3rio para as regi\u00f5es mais progressistas do pa\u00eds norte-americano, exatamente para a regi\u00e3o da Calif\u00f3rnia onde est\u00e3o oportunidades de empregos ligados \u00e0s ci\u00eancias aplicadas e \u00e0s tecnologias. N\u00e3o que deixem de ir tamb\u00e9m pessoas menos favorecidas economicamente, mas o grosso da popula\u00e7\u00e3o \u201cneo-imigrante\u201d \u00e9 branca, escolarizada, falando ingl\u00eas e possuindo algum capital para adapta\u00e7\u00f5es iniciais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Busca-de-emprego.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15570\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Busca-de-emprego-450x300.jpg\" alt=\"Busca de emprego\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Busca-de-emprego-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Busca-de-emprego-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Busca-de-emprego.jpg 728w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Venezuelanos buscam empregos no estado de Roraima<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tais constata\u00e7\u00f5es chamam a aten\u00e7\u00e3o pelo avesso da consci\u00eancia p\u00fablica dos fen\u00f4menos imigrat\u00f3rios brasileiros atuais. V\u00ea-se quase diariamente alertas \u2013 at\u00e9 de justos teores humanit\u00e1rios \u2013 relativos aos venezuelanos que afluem ao Brasil. Problema s\u00e9rio esse e que remete \u00e0 fome, doen\u00e7as, falta de dignidade m\u00ednima. Tudo muito grave e carente de solu\u00e7\u00f5es elementares. O que causa esp\u00e9cie, no entanto, \u00e9 a desconsidera\u00e7\u00e3o do nosso problema como crescente grupo que sai do pa\u00eds, tamb\u00e9m em busca de oportunidades. \u00c9 l\u00f3gico que n\u00e3o se aceita processos comparativos, at\u00e9 porque as diferen\u00e7as s\u00e3o obvias, principalmente de classe social. Isso, contudo, n\u00e3o silencia quest\u00f5es importantes. Por que vemos e salientamos o Brasil como polo receptor de exilados, deportados ou expatriados e n\u00e3o aplicamos os mesmos pressupostos para os nossos que saem? Na mesma linha, pergunta-se se a sutileza cultural e conveni\u00eancia discursiva n\u00e3o resulta em alarde de uma onda, e silenciamento de outra? Na apar\u00eancia, a discrep\u00e2ncia entre fome e busca de emprego qualificado \u00e9 significante. E \u00e9 mesmo, mas isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o suficiente para se explicar o n\u00e3o alarde dos que saem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Nikolas-Cruz-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15572\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Nikolas-Cruz-1-450x246.jpg\" alt=\"Nikolas Cruz\" width=\"450\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Nikolas-Cruz-1-450x246.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Nikolas-Cruz-1-300x164.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Nikolas-Cruz-1-768x421.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Nikolas-Cruz-1.jpg 860w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Estudante Nikolas Cruz matou 17 colegas em col\u00e9gio da Fl\u00f3rida, EUA<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A recente trag\u00e9dia do atirador em escola da Florida quando um jovem matou 17 pessoas, reportagem no Fant\u00e1stico registrou que cerca de 20 estudantes brasileiros que ali estudam apresentaram seus pontos de vista. Dizia a mesma sequ\u00eancia que existiriam mais 50 alunos brasileiros. Todo o grupo era composto por jovens brancos, saud\u00e1veis, bem vestidos. No mesmo programa, a reportagem mostrava em outro quadro os venezuelanos marginalizados na fronteira norte do pa\u00eds. O surpreendente \u00e9 que uns s\u00e3o tratados como imigrantes e os demais&#8230; Os demais, n\u00f3s mesmos, somos apenas vistos como parte de um sistema injusto que classifica os outros como imigrantes. O pior, por\u00e9m, \u00e9 que se vale da situa\u00e7\u00e3o complexa da Venezuela para mostrar um peda\u00e7o de uma problem\u00e1tica muito mais complexa. A\u00ed sim cabe considerar os venezuelanos que fogem da mis\u00e9ria como v\u00edtimas de um sistema horripilante, mas os brasileiros que saem&#8230; Que s\u00e3o? Pensemos. Pensar faz bem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na passagem do s\u00e9culo passado para o atual, h\u00e1 mais de 18 anos, eu morava em Nova York, gra\u00e7as a uma generosa bolsa de estudos &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15573,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15568","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15568","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15568"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15568\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15575,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15568\/revisions\/15575"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15573"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15568"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15568"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15568"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}