{"id":15527,"date":"2018-02-06T18:09:35","date_gmt":"2018-02-06T21:09:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15527"},"modified":"2018-02-06T18:19:57","modified_gmt":"2018-02-06T21:19:57","slug":"quando-as-utopias-envelhecem-mestre-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/quando-as-utopias-envelhecem-mestre-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Quando as utopias envelhecem (Mestre JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>A recente viagem \u00e0 Universidade de Stanford, Calif\u00f3rnia, EUA, destampou um ba\u00fa cheio de mem\u00f3rias de Mestre Sebe sobre momentos \u201cmais felizes de minha vida\u201d enquanto, por outro lado, descobriu que \u201cver a utopia virar distopia d\u00f3i muito\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Que a vida \u00e9 uma caixa de surpresas todos sabem e muito bem. O que causa perplexidade, \u00e0s vezes, \u00e9 a intensidade e o teor dos eventos que se atropelam fazendo-nos expectadores incr\u00e9dulos de acontecimentos de nossas pr\u00f3prias vidas. O bom desta quest\u00e3o \u00e9 que fatos positivos podem se dar, e ent\u00e3o navegamos em momentos plenos e consequentes. Comigo aconteceu algo incr\u00edvel que, de forma quase ir\u00f4nica, ecoa agora coroando uma vida dedicada ao ensino. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980, recebi um convite que mudou minha vida e consequentemente a de toda fam\u00edlia. Em favor de melhor desempenho profissional, precisei fazer uma op\u00e7\u00e3o arriscada: residia comodamente no interior, em Taubat\u00e9, onde atuava como professor universit\u00e1rio, diretor de escola do ent\u00e3o segundo grau. Na contram\u00e3o, caberia acatar a necessidade de me transferir, com mulher e filhos, para S\u00e3o Paulo, onde era professor assistente na USP. N\u00e3o me era mais poss\u00edvel manter os dois postos e ficar dividido entre um lugar e outro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Stanford-reduzida.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15529\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Stanford-reduzida-450x300.jpg\" alt=\"Stanford reduzida\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Stanford-reduzida-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Stanford-reduzida-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Stanford-reduzida-768x511.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Stanford-reduzida.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Universidade de Stanford, na Calif\u00f3rnia, EUA<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com sofrimento, optei pelo mais dif\u00edcil e me mudei para a capital. Logo que me instalei, nova provoca\u00e7\u00e3o se me apresentou: um convite para ser Professor Visitante em Stanford, na Calif\u00f3rnia, por um ano. Recusar tal oferta era algo impens\u00e1vel, mas havia uma amarra dram\u00e1tica: meu pai estava em processo de di\u00e1lise e me queria sempre por perto. A press\u00e3o para responder ao convite era enorme e exigia, unicamente de mim, uma posi\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e resoluta. Entre o futuro familiar e profissional e assist\u00eancia ao pai me senti partido. De um lado pesava a atra\u00e7\u00e3o para passar um tempo numa das melhores universidades do mundo, fato praticamente impens\u00e1vel na minha trajet\u00f3ria. A possibilidade de permanecer junto do pai era relevante, mas tinha irm\u00e3os e demais auxiliares que poderiam suprir minha aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Na prem\u00eancia de respostas, pesou o significado da viagem para os filhos e o incentivo de mentores que avaliavam o sentido social do est\u00e1gio. Optei por ir, e com embargos informei ao meu pai. O imponder\u00e1vel aconteceu: viajei e em seguida meu pai morreu. Creio que \u00e9 f\u00e1cil imaginar o que senti. Na mesma medida acho que d\u00e1 para calcular o ganho geral, o avesso da dor. Estar em Stanford, conviver com uma comunidade acad\u00eamica daquela grandeza foi fundamental para a grande virada ocorrida na experi\u00eancia de todos meus familiares pr\u00f3ximos e mesmo de meus alunos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/stanford_logo2-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15531\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/stanford_logo2-1-450x318.jpg\" alt=\"stanford_logo2\" width=\"450\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/stanford_logo2-1-450x318.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/stanford_logo2-1-300x212.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/stanford_logo2-1-768x542.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/stanford_logo2-1.jpg 841w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Logomarca da Universidade de Stanford<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Al\u00e9m das quest\u00f5es particulares, cabe dizer que em termos contextuais pass\u00e1vamos pela Abertura Pol\u00edtica. A supera\u00e7\u00e3o da ditadura, colocava nas ruas multid\u00f5es e na vibra\u00e7\u00e3o generalizada achei maneira de participar estando longe. Fui um dos organizadores da Comiss\u00e3o das \u201cDiretas J\u00e1\u201d na Costa Oeste dos Estados Unidos. Assim, com v\u00e1rios colegas, planejamos marchas, fornecemos material para jornais norte-americanos, fizemos v\u00e1rias apresenta\u00e7\u00f5es em universidades. Cabe dizer que minha mulher ainda era viva, os filhos pequenos e os sonhos iam se engrandecendo com esperan\u00e7as de amanh\u00e3s libert\u00e1rias. A picardia do destino, contudo, n\u00e3o parou por a\u00ed. Cresceu. L\u00e1 pela metade de minha participa\u00e7\u00e3o em Stanford, fui convidado para ficar, definitivamente, como professor est\u00e1vel, do Departamento de Hist\u00f3ria. Isto n\u00e3o \u00e9 pouco coisa, creiam. Novamente se me apresentava um desafio de efeitos consequentes e, como sempre, era urgente a resposta: sim ou n\u00e3o. Confesso que foram dias atormentados, noites e noites sem dormir, mas depois de muito ponderar, com certo medo do erro, recusei o convite.<\/p>\n<p>Trinta e quatro anos se passaram e neste meio tempo voltei a Stanford algumas vezes, mas sempre por poucos dias, como convidado para eventos r\u00e1pidos. Recentemente, motivado pela articula\u00e7\u00e3o de amigos, se me apresentou a chance de nova visita, desta feita por um m\u00eas. Aceitei com alegria. Uma cascata de lembran\u00e7as, contudo, se fez queda em minha mem\u00f3ria, e exigiu de mim acertos \u00edntimos. Primeiro, fui invadido por recorda\u00e7\u00f5es que elegeram o ano de 1984 como dos mais felizes de minha vida. Lembrei-me de detalhes impressionantes, \u00e2ngulos da casa em que moramos, festas da escola dos filhos, compras em supermercados, passeios maravilhosos em uma velha perua Datsun&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Diretas-ja.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15532\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Diretas-ja-450x353.jpeg\" alt=\"Diretas ja\" width=\"450\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Diretas-ja-450x353.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Diretas-ja-300x235.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Diretas-ja.jpeg 561w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A Pra\u00e7a da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo, ficou pequena para a manifesta\u00e7\u00e3o Direta J\u00e1, em 1984<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Aos poucos, por\u00e9m outras levas de pondera\u00e7\u00f5es se impuseram e me obrigam a explica\u00e7\u00f5es: fiz escolhas corretas? Enquanto entabulava respostas precisei reconhecer que o fator preponderante para o meu retorno daquele sonho foi a utopia de novo tempo, de UM Brasil recomposto. Eu tinha que participar daquilo. Apostava tudo no processo pol\u00edtico nacional. A utopia de que nosso pa\u00eds daria certo era uma for\u00e7a inquebrant\u00e1vel que em mim suplantava tudo. Foi ela que me moveu ao retorno definitivo para a USP. Trabalhei muito para o pa\u00eds desse certo. Ingressei em partido pol\u00edtico, dei parte de meu sal\u00e1rio para financiar campanhas, fui a passeatas, escrevi sobre temas, enfim, fiz tudo que podia. Tudo. Aos poucos, desavisado, fui percebendo que minhas contribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram l\u00e1 t\u00e3o relevantes, e sequer notei que meu partido ficava a cada dia mais parecido com os demais.<\/p>\n<p>Ver a utopia virar distopia d\u00f3i muito. Demais. Ainda acredito em certas propostas que, contudo, carecem de caras capazes e for\u00e7as capazes de realiza\u00e7\u00f5es. E estou de volta a Stanford. Confesso que olhar para essas mais de tr\u00eas d\u00e9cadas \u00e9 como ler comovido o livro da vida e se permitir chorar. Chorar sobretudo por um sonho que desbotou. Tomara que, num futuro pr\u00f3ximo, eu consiga dizer que valeu a pena e que faria tudo outra vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A recente viagem \u00e0 Universidade de Stanford, Calif\u00f3rnia, EUA, destampou um ba\u00fa cheio de mem\u00f3rias de Mestre Sebe sobre momentos \u201cmais felizes de minha vida\u201d &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15528,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15527","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15527","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15527"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15527\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15533,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15527\/revisions\/15533"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15528"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}