{"id":15124,"date":"2017-09-28T09:30:26","date_gmt":"2017-09-28T12:30:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15124"},"modified":"2017-09-28T09:34:15","modified_gmt":"2017-09-28T12:34:15","slug":"um-povo-esquecido-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/um-povo-esquecido-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"Um povo esquecido (Daniel Aar\u00e3o Reis*)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Na S\u00edria, finalmente, para combater o Estado Isl\u00e2mico, s\u00e3o as guerrilheiras e os guerrilheiros kurdos os melhores combatentes<\/em><\/strong><!--more--><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u201cN\u00e3o queremos que o mundo ou\u00e7a falar de nossas armas, mas de nossas ideias\u201d, disse Sozda, comandante kurda das unidades militares femininas de prote\u00e7\u00e3o do povo (YPJ) no norte da S\u00edria. Ali, no contexto de uma implac\u00e1vel luta armada contra o Estado isl\u00e2mico\/EI, surgiu a Rojava, uma entidade pol\u00edtica comprometida com a luta dos kurdos pela liberdade.<\/p>\n<p>No meio do inferno da guerra, a manifesta\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a na vida.<\/p>\n<p>A Rojava nasceu por iniciativa do Partido de Uni\u00e3o Democr\u00e1tica\/PYD. Em novembro de 2013, proclamou sua autonomia, baseada na proposta do \u201cconfederalismo democr\u00e1tico\u201d, que defende como princ\u00edpios a democracia, o feminismo, a ecologia e o socialismo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rojava.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15125\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rojava-450x253.jpg\" alt=\"rojava\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rojava-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rojava-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rojava.jpg 460w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Por uma S\u00edria sem Bashar Al-Assad e o fundamentalismo do Estado Isl\u00e2mico (EI)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Experi\u00eancias pr\u00e1ticas de uma alternativa de vida e de poder observando estes princ\u00edpios realizam-se em alguns distritos libertados da ditadura de Bashar Al-Assad e da opress\u00e3o do fundamentalismo isl\u00e2mico do EI.<\/p>\n<p>De modo aut\u00f4nomo, organizam-se unidades de defesa e cooperativas informadas por princ\u00edpios igualit\u00e1rios e ecol\u00f3gicos. Na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, conselhos populares organizam a vida social e pol\u00edtica, mas podem ter suas decis\u00f5es revogadas pelas organiza\u00e7\u00f5es de mulheres sempre que se refiram a mat\u00e9rias de seu interesse. Al\u00e9m disso, cada conselho tem dois presidentes, mas um deles \u00e9 eleito apenas pelas mulheres.\u00a0\u00a0 Os homens que cometem viol\u00eancias sexistas n\u00e3o podem fazer parte da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, tendo sido proscritas as discrimina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, os casamentos for\u00e7ados, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, a poligamia e o casamento de crian\u00e7as. Assim, \u00e9 o grau de liberdade das mulheres que define o regime democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Um antigo revolucion\u00e1rio disse, certa vez, que uma na\u00e7\u00e3o que oprime uma outra n\u00e3o pode ser livre. Em Rojava, mulheres e homens asseveram que uma sociedade que oprime as mulheres n\u00e3o pode ser livre. Uma bandeira erguida num dos seus distritos tem como inscri\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00f3s derrotaremos o Estado Isl\u00e2mico, garantindo a liberdade das mulheres\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Guerrilheiras.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15127\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Guerrilheiras.jpg\" alt=\"Guerrilheiras\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>As luta da mulheres kurdas \u00e9 pouco conhecida no Ocidente<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Os kurdos habitam uma vasta extens\u00e3o de terra, do norte da S\u00edria ao noroeste do Ir\u00e3, passando pelo sul e sudeste da Turquia e pelo norte do Iraque. S\u00e3o mu\u00e7ulmanos sunitas, mas cultivam a toler\u00e2ncia religiosa e convivem com pequenas popula\u00e7\u00f5es de judeus e crist\u00e3os, entre outros credos religiosos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber com exatid\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o kurda, mas estima-se que existam n\u00e3o menos de 30 milh\u00f5es de pessoas que se identificam como tal, um povo cujas origens remontam \u00e0 noite dos tempos.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, os kurdos lutam para ter o direito a um Estado Nacional. Depois da Primeira Grande Guerra, em 1920, cogitou-se conferir a autonomia ao povo kurdo. Prevaleceram, contudo, os interesses das pot\u00eancias europeias. Em nome do chamado \u201crealismo pol\u00edtico\u201d, aliaram-se\u00a0 aos\u00a0 Estados que foram se formando na regi\u00e3o \u2013 Turquia, Ir\u00e3, Iraque e S\u00edria &#8211; e negaram os leg\u00edtimos direitos dos kurdos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um Estado nacional pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, multiplicaram-se campanhas de repress\u00e3o e, \u00e0s vezes, de exterm\u00ednio dos kurdos. Na S\u00edria, eles nunca tiveram reconhecida identidade espec\u00edfica.\u00a0 Na Turquia as viol\u00eancias datam dos anos 1920, \u00a0intercaladas por per\u00edodos de \u201cpaz armada\u201d.\u00a0 No Ir\u00e3, logo depois da II Guerra Mundial, a tentativa de estabelecer uma rep\u00fablica aut\u00f4noma foi massacrada. No Iraque, o governo de Saddam Husseim bombardeou com armas qu\u00edmicas a cidade kurda de Halabja em mar\u00e7o de 1988.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/guerrilheira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15126\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/guerrilheira-450x243.jpg\" alt=\"guerrilheira\" width=\"450\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/guerrilheira-450x243.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/guerrilheira-300x162.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/guerrilheira-768x415.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/guerrilheira.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A beleza das guerrilheiras na frente de batalha<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Nas brechas dos conflitos internacionais e das lutas democr\u00e1ticas que se alastram pela regi\u00e3o, os kurdos tentam afirmar a pr\u00f3pria identidade. A favor da invas\u00e3o do Iraque, em 2003, conquistaram um grau de autonomia in\u00e9dito, mas, segundo suas lideran\u00e7as, permanecem como \u201ccidad\u00e3os de segunda classe\u201d no pa\u00eds. Na Turquia, aproveitando-se de recente liberaliza\u00e7\u00e3o, disputaram elei\u00e7\u00f5es com resultados animadores. Cedo, por\u00e9m, depois do golpe de Recyp Erdogan, em julho de 2016, voltaram a ser caracterizados como \u201cmovimento terrorista\u201d. Na S\u00edria, finalmente, para combater o Estado Isl\u00e2mico, s\u00e3o as guerrilheiras e os guerrilheiros kurdos os melhores combatentes. Foi nesta luta, ali\u00e1s, que apareceu a Rojava.<\/p>\n<p>As lutas dos kurdos pela independ\u00eancia enfrentam obst\u00e1culos que parecem intranspon\u00edveis. Os Estados da regi\u00e3o dissimulam ou negam a exist\u00eancia deste povo esquecido. Quanto \u00e0s grandes pot\u00eancias, como disse Patrice Franceschi, usam e abusam dos kurdos para alcan\u00e7ar os pr\u00f3prios objetivos, mas n\u00e3o hesitam em abandon\u00e1-los \u00e0 pr\u00f3pria sorte, quando isso lhes parece conveniente. Por outro lado, h\u00e1 muitas divis\u00f5es entre eles. Enquanto uns parecem conformados em ser apenas s\u00f3cios menores de interesses estrangeiros, os partid\u00e1rios da Rojava almejam fazer da independ\u00eancia pol\u00edtica um passo para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade alternativa.<\/p>\n<p>Os mais c\u00e9ticos dir\u00e3o que \u00e9 improv\u00e1vel que isto possa acontecer. Entretanto, como gosta de recordar Edgard Morin, \u201cesquecemos frequentemente que o improv\u00e1vel acontece\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>*Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Email: daniel.aaraoreis@gmail.com <\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na S\u00edria, finalmente, para combater o Estado Isl\u00e2mico, s\u00e3o as guerrilheiras e os guerrilheiros kurdos os melhores combatentes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15128,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15124","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15124"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15124\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15130,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15124\/revisions\/15130"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}