{"id":15076,"date":"2017-09-13T16:59:58","date_gmt":"2017-09-13T19:59:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15076"},"modified":"2017-09-13T16:59:58","modified_gmt":"2017-09-13T19:59:58","slug":"um-cachorro-e-uma-familia-desfeita-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/um-cachorro-e-uma-familia-desfeita-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"UM CACHORRO E UMA FAM\u00cdLIA DESFEITA (Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para meus netos: Manuela, Gabriel e Anna Elisa<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Era um casal exemplar. Na altura dos 50 anos, com vivazes filhos adolescentes, sempre sorrindo e dispostos, corriam na praia, sa\u00edam para passeios no final de semana e tinham um cachorro simp\u00e1tico chamado Marley. Todos no pr\u00e9dio gostavam deles e a admira\u00e7\u00e3o e apre\u00e7o eram expressos nas escolhas, por exemplo, para o comando de um ou outro nas reuni\u00f5es de condom\u00ednio, ou nas decis\u00f5es comunit\u00e1rias. Nunca se ouviu uma queixa deles, ou sequer um coment\u00e1rio negativo sobre o comportamento do c\u00e3o que, na verdade, era o complemento perfeito para o clich\u00ea da \u201cfam\u00edlia margarina\u201d. Pois bem, um belo dia a not\u00edcia caiu como uma bomba que, sem piedade, atingiu o equil\u00edbrio dos moradores vizinhos: decidiram se separar.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/dois-filhos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15077\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/dois-filhos-450x300.jpg\" alt=\"dois filhos\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/dois-filhos-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/dois-filhos-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/dois-filhos.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Fam\u00edlia feliz que circulava em vota do cachorro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Como rastilho de p\u00f3lvora, a not\u00edcia se espalhou causando espanto e at\u00e9 indigna\u00e7\u00e3o, pois, afinal, como aqueles quase anjos, modelos exemplares, iam se deixar? Juntei minha indigna\u00e7\u00e3o \u00e0 dos demais moradores e precisei tomar f\u00f4lego para n\u00e3o acrescentar esse evento \u00e0 soma de desgra\u00e7as que se nos abatem como cidad\u00e3os brasileiros: crise pol\u00edtica; financeira; moral; deprava\u00e7\u00e3o \u00e9tica, esc\u00e2ndalos institucionais, homofobia, feminic\u00eddio&#8230;<\/p>\n<p>Houve um segundo momento na intimidade coletiva dos vizinhos: como vai ser agora? Algu\u00e9m, um deles, continuar\u00e1 no pr\u00e9dio? E os filhos, com quem ficar\u00e3o? Como se tratasse do primeiro casal da Terra a se separar, os coment\u00e1rios ganharam colora\u00e7\u00f5es que abalaram a tranquila apar\u00eancia comunit\u00e1ria. Algu\u00e9m despertou uma suspeita que envolvia uma moradora nova, mo\u00e7a bonita e rec\u00e9m-formada em veterin\u00e1ria. Pronto, estava dada a largada para uma historinha que progredira velozmente. O \u201csenhor\u201d se apaixonou pela vizinha. Mas logo pela moradora do mesmo pr\u00e9dio, questionou um morador do andar de baixo. A senhora do andar de cima foi criativa e lembrou-se que um dia Marley passou mal e ele, o pai, foi at\u00e9 o apartamento dela em busca de socorro para o c\u00e3o. Esse fato prov\u00e1vel, logo virou a chave para um drama que ganhava tons de caso novelesco.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/casal.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15078\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/casal-450x281.jpg\" alt=\"casal\" width=\"450\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/casal-450x281.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/casal-300x188.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/casal-768x480.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/casal.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Um dia, n\u00e3o se sabe como, os casal se desentendeu e para o desquite; e o c\u00e3o?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Tudo corria solto e cheio de alternativas at\u00e9 que algu\u00e9m lan\u00e7ou uma pergunta realmente inquietante: e o Marley, com quem ficar\u00e1? Nossa!&#8230; O tema virou quest\u00e3o social, moral e c\u00edvica e mesmo de direito dos animais. Ficava claro que os filhos ficariam com a m\u00e3e, de acordo com a tradi\u00e7\u00e3o brasileira. E quanto a isso n\u00e3o restava d\u00favidas pois, al\u00e9m de tudo, ela havia se convertido em esp\u00e9cie de v\u00edtima de uma cilada amorosa. Corroborava com a imagem de atrai\u00e7oada a discri\u00e7\u00e3o que manteve, inclusive quando subia ou descia no elevador com os demais cond\u00f4minos, que antes a viam sempre sorridente. N\u00e3o preciso dizer que a tal veterin\u00e1ria, a \u201coutra\u201d, foi desprezada por (quase) todos e que sobre ela pesou uma sensa\u00e7\u00e3o ruim, algo que a aproximava de uma Messalina reinventada em Copacabana. Ele, o senhor, viu encolhidos os cumprimentos antes dadivosos e tamb\u00e9m se fechou chegando a esbarrar no mal visto. Restou aos filhos a piedade dos olhares gerais. Mas o que aconteceria com Marley?<\/p>\n<p>Foi assim que a popula\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio come\u00e7ou a considerar o papel do cachorro na separa\u00e7\u00e3o do casal: coitado do c\u00e3ozinho que, mesmo sendo de porte m\u00e9dio para grande, mereceu a refer\u00eancia no diminutivo. Uns achavam que Marley deveria ficar, junto da mulher e dos filhos. Os argumentos eram taxativos, pois ele era da fam\u00edlia e quem estava deixando tudo era o pai. Uma minoria, contudo, com \u00eanfase, insistia que deveria ir com o pai porque ele deixaria com a mulher os filhos e os demais bens, e, certamente, a presen\u00e7a do c\u00e3o o ajudaria na nova vida. As contendas se acirraram e, sinceramente, acredito que o c\u00e3ozinho (veja que j\u00e1 me posicionei) parecia sintetizar a afli\u00e7\u00e3o generalizada. Quando aparecia em p\u00fablico, notadamente nas \u00e1reas comuns do pr\u00e9dio, Marley nos olhava com enternecida ang\u00fastia e, com a l\u00edngua para fora da boca, pedia justi\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 um detalhe que, talvez, possa enriquecer a compreens\u00e3o do contexto que ambientou o caso: o esc\u00e2ndalo dos irm\u00e3os Batista, os tais delatores da Lava-jato. Pois bem, nem isso superou o ibope dos coment\u00e1rios do pr\u00e9dio. O destino de Marley era muito mais importante. Sem compara\u00e7\u00e3o. Como todo processo de desligamento marital, o relatado nesta cr\u00f4nica, obedeceu ao ritual da sa\u00edda o marido. Soube-se que ele levou suas malas numa madrugada, sem se despedir dos amigos. Meses depois, tamb\u00e9m sem noticiar nada a ningu\u00e9m a tal veterin\u00e1ria tamb\u00e9m se mudou. Por l\u00f3gico, n\u00e3o faltaram ila\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Como se esperava, a m\u00e3e ficou com os filhos no apartamento, e Marley tamb\u00e9m. Foi com muita apreens\u00e3o que toda a comunidade acompanhou a rotina de pais de fim de semana. Religiosamente, a cada sexta-feira \u00e0 noite o pai buscava os filhos&#8230; S\u00f3 os filhos, Marley n\u00e3o ia junto. Pobre Marley. Concordo com o veredito comunit\u00e1rio: o c\u00e3ozinho tomou partido e resolveu escolher a m\u00e3e. Quer exemplo mais humanizado? Como sempre acontece com amigos que se separam, temos que optar com quem vamos prosseguir com a amizade. No nosso caso, Marley facilitou a escolha.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201c<strong><em>Os c\u00e3es s\u00e3o o nosso elo com o Para\u00edso. Eles n\u00e3o conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um c\u00e3o ao p\u00e9 de uma colina numa linda tarde, \u00e9 voltar ao \u00c9den onde ficar sem fazer nada n\u00e3o era t\u00e9dio, era paz<\/em>.<\/strong>&#8221; Milan Kundera<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para meus netos: Manuela, Gabriel e Anna Elisa \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Era um casal exemplar. 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