{"id":15061,"date":"2017-09-05T17:18:46","date_gmt":"2017-09-05T20:18:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=15061"},"modified":"2017-09-05T17:18:46","modified_gmt":"2017-09-05T20:18:46","slug":"a-amazonia-ainda-e-nossa-dilema-ou-problema-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-amazonia-ainda-e-nossa-dilema-ou-problema-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A AMAZ\u00d4NIA (AINDA) \u00c9 NOSSA!?&#8230; DILEMA OU PROBLEMA? Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy"},"content":{"rendered":"<p>Sabe-se que h\u00e1 uma diferen\u00e7a crucial entre dois conceitos que, vulgarmente, se confundem: \u201cproblema\u201d e \u201cdilema\u201d. Problema tem solu\u00e7\u00e3o, por dif\u00edcil que seja. Dilema, por sua vez, se multiplica em descaminhos e aponta para labirintos sem sa\u00eddas. Foi pensando nessas varia\u00e7\u00f5es, ditadas, ali\u00e1s, pelo jornalista e dramaturgo romeno Mat\u00e9i Visniec, que coloquei em prisma o atual caso envolvendo a Amaz\u00f4nia Brasileira e nele as propostas de sua utiliza\u00e7\u00e3o temer\u00e1ria. E por falar em governo Temer, \u00e9 bom lembrar que uma das estrat\u00e9gias mais praticadas pela gest\u00e3o corrente consiste em disparar uma esp\u00e9cie de bomba noticiosa, sempre de efeito espetaculoso, e depois do aguardo da rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico retomar o projeto para, por fim, refaz\u00ea-lo conforme suas inten\u00e7\u00f5es iniciais, exatamente na medida dos conte\u00fados planejados. Essa artimanha responde, em primeiro lugar, a interesses hegem\u00f4nicos e grupais, privatistas, camuflados, endere\u00e7ados a neg\u00f3cios com megaempresas, aquelas que favorecem propinas bem fartas. Isso tem acontecido rotineiramente com o atual governo que, depois de incendiar os notici\u00e1rios, \u201ccede\u201d, refaz a proposta, e promulga os desmandos em nome do di\u00e1logo aberto e franco. Em rela\u00e7\u00e3o ao recente decreto acabando com a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), publicado no \u00faltimo dia 23 de agosto pelo gabinete presidencial, repetiu-se a mesma lenga: soltaram o roj\u00e3o, esperou-se o estouro da p\u00f3lvora, e sa\u00edram \u00e0 cata da vara entreguista. Tudo segundo uma festan\u00e7a calhorda.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Renca-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15062\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Renca-2.jpg\" alt=\"Renca 2\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), \u00e1rea igual do estado do Esp\u00edrito Santo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>De toda forma, parte da popula\u00e7\u00e3o instigada pelo descalabro do decreto presidencial produziu repercuss\u00e3o maior do que se esperava. Corroborou para isso o eco contr\u00e1rio ao script governamental resultante, em parte, dos desastrosos efeitos da recente visita presidencial \u00e0 R\u00fassia e Noruega. Lembremos, \u00e0 guisa de passagem, o semblante do nosso mais alto mandat\u00e1rio que engoliu \u201cna cara\u201d, cr\u00edticas pesad\u00edssimas, exatamente sobre o tratamento dado \u00e0s nossas florestas. Frente \u00e0 fartura de obje\u00e7\u00f5es da sociedade civil, como seria previs\u00edvel, o governo \u201catencioso\u201d revogou o primeiro decreto e, acolhendo o clamor p\u00fablico e a voz dos ambientalistas, promulgou outro \u201cnovo\u201d decreto que, contudo, em pouco supera o anterior, insistindo na extin\u00e7\u00e3o da reserva, deixando a \u00e1rea aberta \u00e0 minera\u00e7\u00e3o empresarial. Como se comportasse grandes mudan\u00e7as, o novo documento especifica num detalhado \u201cponto a ponto\u201d os supostos crit\u00e9rios para a preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Uma das p\u00e9rolas do documento diz, por exemplo, que n\u00e3o \u00e9 dado haver explora\u00e7\u00e3o mineral em unidades ind\u00edgenas, como, diga-se, reza a Constitui\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, \u00e9 cab\u00edvel lembrar que cabe exclusivamente ao Congresso Nacional \u201cautorizar, em terras ind\u00edgenas, a explora\u00e7\u00e3o e o aproveitamento de recursos h\u00eddricos e a pesquisa e lavra de riquezas minerais\u201d. Mesmo assim, os palacianos definiram, em nome da modernidade, regras para a execu\u00e7\u00e3o da maior ofensiva contra a floresta desde a n\u00e3o menos desastrosa interfer\u00eancia dos militares.<\/p>\n<p>Tudo apavora nessa medida temer\u00e1ria, a come\u00e7ar pelo tamanho da \u00e1rea indicada: cerca de 47 mil quil\u00f4metros quadrados est\u00e3o liberados para extra\u00e7\u00e3o de ouro e outros minerais e pedras nobres. Segundo ambientalistas, essa extens\u00e3o \u00e9 maior que a Dinamarca, tem o tamanho equivalente ao do estado do Esp\u00edrito Santo, ou oito vezes a dimens\u00e3o do Distrito Federal. A completar o descalabro, vale lembrar danos inevit\u00e1veis para o maior importante conjunto de florestas tropicais do mundo: Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque; Florestas Estaduais do Paru e do Amap\u00e1; Floresta Nacional do Amap\u00e1; Reserva Biol\u00f3gica de Maicuru; Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica do Jari; Reserva Extrativista Rio Cajari, e a Reserva de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel do Rio Iratapuru. E o que dizer das popula\u00e7\u00f5es que vivem em tais espa\u00e7os com suas culturas integradas ao ecossistema? E as terras ind\u00edgenas demarcadas, como ficar\u00e3o?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Moradores.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15063\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Moradores.jpg\" alt=\"Moradores\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ind\u00edgenas que moram na \u00e1rea<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria a Amaz\u00f4nia, conhecida por dualidades extremas. De um lado, como \u201cpulm\u00e3o da humanidade\u201d, uma esp\u00e9cie de \u201cjardim bot\u00e2nico da humanidade\u201d, que mesmo sendo a maior e mais importante floresta do planeta padece da inefic\u00e1cia de projetos pol\u00edticos contextualizadores. Sem a\u00e7\u00e3o inteligente, a \u00e1rea mant\u00e9m-se aberta a ataques, \u00e9 abatida, diminu\u00edda, incendiada, saqueada de todas as formas vis, e, portanto, v\u00edtima de medidas sempre alheias ao significado real de seu papel em qualquer escala. Ao mesmo tempo, causa esp\u00e9cie o desequil\u00edbrio entre a aten\u00e7\u00e3o estrangeira e a nacional. Enquanto \u201cl\u00e1 fora\u201d, atualmente estudiosos, ambientalistas, artistas, ativistas e militantes da preserva\u00e7\u00e3o da natureza esbravejam em favor dos cuidados com nossas matas, entre n\u00f3s, afora honrosos nomes de destaque e bravas institui\u00e7\u00f5es de defesa, pouco tem sido feito. Por certo, na era das redes sociais, isso tende a mudar, mas desde Euclides da Cunha, para o bem, quase nada tem se alterado em termos de um programa de aten\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Na outra ponta das loas rom\u00e2nticas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a ainda presidem mitos que mostram a impossibilidade de controle da formid\u00e1vel regi\u00e3o tamb\u00e9m denominada \u201cinferno verde\u201d. Como territ\u00f3rio trai\u00e7oeiro, inconquist\u00e1vel, selvagem e indomado, toda a extensa \u00e1rea se situa numa esp\u00e9cie de redoma inating\u00edvel. Exatamente porque n\u00e3o a contemplamos com olhos atentos para um diagn\u00f3stico desej\u00e1vel, cient\u00edfico, alguns pensam que a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na perpetua\u00e7\u00e3o da intocabilidade daquele ecossistema. Sim, na mem\u00f3ria coletiva prevalece o pressuposto que apregoa o paradoxo do isolamento como pol\u00edtica, e assim se perpetuam bord\u00f5es alienantes que dizem ser \u00e9 melhor n\u00e3o tocar, supondo que preservar \u00e9 deixar como est\u00e1. Como respostas, na intermit\u00eancia de governos mais ou menos democr\u00e1ticos, tem-se as sempre desastrosas investidas que, ironicamente, apostam na integra\u00e7\u00e3o \u2013 como se a floresta n\u00e3o fosse parte do nosso corpo geogr\u00e1fico e pol\u00edtico. Tratando a Amaz\u00f4nia como separada do circuito do progresso, muitos almejam costura-la nos programas nacionais, transformando sua natureza florestal em \u201cterras produtivas\u201d. Faca de gumes fatais, tanto o isolamento dito preservacionista como as supostas pol\u00edticas integracionistas s\u00e3o equivocadas. No primeiro caso, deixa-se tudo legado ao banditismo, aos saques e desmandos, \u00e0 sanha dos madeireiros e mineradores, garimpeiros e pecuaristas. No segundo, obedecendo as leis que colocam o progresso econ\u00f4mico imediato em primeiro lugar, pensa-se integr\u00e1-lo por meio de multiplica\u00e7\u00e3o de empresas de explora\u00e7\u00e3o mineral.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Todos-pela-Amazonia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15064\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Todos-pela-Amazonia.jpg\" alt=\"Todos pela Amazonia\" width=\"276\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>S\u00f3 a press\u00e3o popular poder\u00e1 impedir esse crime<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tudo se iniciou, diga-se, com a proposta de Juscelino que programou a Bel\u00e9m-Bras\u00edlia em 1959, mas nada se compara \u00e0 fa\u00e7anha desdobrada pela ditadura militar. Sob o slogan (ah! Os slogans da ditadura!) \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d e \u201cexportar \u00e9 o que importa\u201d \u2013 lembrando que \u00e0 \u00e9poca propalavam-se amea\u00e7as de invas\u00f5es estrangeiras \u2013 tornava-se imperioso fazer com que aquele peda\u00e7o de terra florestal se comunicasse com o resto do pa\u00eds. Assim, foi, por exemplo que se iniciou a intermin\u00e1vel aventura da estrada que sintomaticamente leva o nome Transamaz\u00f4nica, segundo o sonho de Mario Andreazza. Estava dada a largada \u00e0s a\u00e7\u00f5es das grandes empreiteiras, exatamente essas que abriram as torneiras da corrup\u00e7\u00e3o. Segundo os ideais governantes, a estrada ligaria as entranhas do interior do Norte \u00e0s \u00e1reas de escoamento e at\u00e9 \u00e0s demais regi\u00f5es do pa\u00eds. No mesmo projeto, ali\u00e1s, se explicam as inacabadas: Cuiab\u00e1-Santar\u00e9m; Cuiab\u00e1-Porto Velho; Perimetral Norte; Porto Velho-Boa Vista, entre outras, em cujas margens rasgadas haveriam de se abrir f\u00e9rteis fazendas e pastos, cidades e polos de desenvolvimento, tudo anulando os \u201cespa\u00e7os vazios\u201d. Cirne Lima, ministro da Agricultura no governo M\u00e9dici, em 1969, pensando nos devaneios dessas investidas criou a express\u00e3o \u201cconquista da selva\u201d. Essa heran\u00e7a maldita foi mais ou menos deixada de lado nos governos que evolu\u00edram para a d\u00e9bil democracia que vivenciamos. Agora, contudo, novamente se refaz o projeto autorit\u00e1rio que nos amea\u00e7a sem piedade. Frente a isso, inevitavelmente cabe a pergunta: a Amaz\u00f4nia \u00e9 um problema ou n\u00e3o passa de dilema? Tenhamos urg\u00eancia nas respostas, pois o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a soberania nacional e o dever participa\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe-se que h\u00e1 uma diferen\u00e7a crucial entre dois conceitos que, vulgarmente, se confundem: \u201cproblema\u201d e \u201cdilema\u201d. Problema tem solu\u00e7\u00e3o, por dif\u00edcil que seja. Dilema, por &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15065,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15061","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15061"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15061\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15066,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15061\/revisions\/15066"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}