{"id":14948,"date":"2017-08-04T18:40:48","date_gmt":"2017-08-04T21:40:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14948"},"modified":"2017-08-04T18:40:48","modified_gmt":"2017-08-04T21:40:48","slug":"bye-bye-brasil-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/bye-bye-brasil-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"BYE, BYE BRASIL&#8230; (Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Tr\u00eas jovens brasileiras presas no East Harlem<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Eu queria. Juro que eu queria muito escrever sobre coisas leves, flanar em torno de amenidades. Ah, como seria bom falar de supera\u00e7\u00e3o da crise, contar hist\u00f3rias afetivas, relatar casos com finais felizes. Era tudo que gostaria, mas&#8230; Mas, n\u00e3o d\u00e1 para calar diante de certas situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o mais do que diagn\u00f3sticas. Voltar ao Brasil depois de longa viagem, inexoravelmente, implica processo de readequa\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se perder novamente em um labirinto que se pensava sinalizado com indicativas de sa\u00eddas. Dif\u00edcil, mas essa constata\u00e7\u00e3o derrota o acalanto de ilus\u00f5es positivas, cab\u00edveis em retornos. Ao contr\u00e1rio de tantos amigos queridos, sinceramente, n\u00e3o estou vendo a almejada \u201cluz no fim do t\u00fanel\u201d. Logo eu que me achava um esperan\u00e7oso empedernido. E tenho minhas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao me encaminhar para o embarque em Beirute, assisti (outra vez) a uma cena que me fez descer ao inferno da cidadania: mais uma brasileira sendo deportada. O aparato policial era alarmante e at\u00e9 amedrontador, pois a embarcada era jovem, negra e estava algemada. Os protocolos para essas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o espet\u00e1culos, pois a prisioneira \u00e9 a \u00faltima a chegar e a primeira a ser colocada dentro da aeronave. Como as leis internacionais pro\u00edbem viajem sem liberdade de movimentos, um funcion\u00e1rio da pol\u00edcia acompanha a deportada que se senta na \u00faltima fila. Por l\u00f3gico, o constrangimento foi contagioso e, na medida das suposi\u00e7\u00f5es, todos queriam saber quem era, por que e quais os poss\u00edveis desdobramentos do caso. Para mim, logo, ficou claro que se tratava de caso de prostitui\u00e7\u00e3o. Acertei.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/jovens-presos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14950\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/jovens-presos.jpg\" alt=\"jovens presos\" width=\"259\" height=\"194\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Grupo de jovens estrangeiros presos no Rio de Janeiro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No esfor\u00e7o de equil\u00edbrio, tentei me distrair com outras preocupa\u00e7\u00f5es, mas, sem sucesso algum. O que me ocorria era a n\u00edtida lembran\u00e7a de outro caso, presenciado no aeroporto de Madri h\u00e1 alguns anos. Ao chegar ent\u00e3o \u00e0 Espanha, na passagem pelos guich\u00eas de controle de passaportes, vi uma mo\u00e7a sendo impedida e, sob gritos de protestos, ser levada para uma sala de averigua\u00e7\u00e3o. Soube depois que se tratava de mais uma \u201cbrasileira\u201d suspeita.<\/p>\n<p>A soma de hist\u00f3rias sobre \u201cbrasileiras e brasileiros que deixam o pa\u00eds\u201d tem me movido a registros que se multiplicam em entrevistas de hist\u00f3ria oral de vida. Aprendi ao longo de mais de dez anos de grava\u00e7\u00f5es que h\u00e1 dois fatores primordiais influenciando nas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Um, primeiro, imediato e pessoal, diz respeito a interesses ligados a busca de melhor lugar social e de novas chances. E todos os limites da viv\u00eancia brasileira se abra\u00e7am em justificativas: falta de oportunidades, preconceitos, desilus\u00f5es sociais.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Imigrantes-presos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14951\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Imigrantes-presos.jpg\" alt=\"Imigrantes presos\" width=\"276\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A imagem recorrente de cidad\u00e3os em busca de oportunidades<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O segundo fator \u00e9 mais complexo, pois remete a uma nega\u00e7\u00e3o cultural. Como se justificar deixando o tal \u201cpa\u00eds tropical, aben\u00e7oado por Deus e bonito por natureza\u201d? Sim preside um conflito briguento entre o ter que sair e o mito encravado na mem\u00f3ria coletiva nacional e que preza um hist\u00f3rico de pa\u00eds que recebe (n\u00e3o exporta) gente. Pois \u00e9, ainda pensamos que a generosidade divina nos deu um solo f\u00e9rtil, sem cataclismos, com paisagens invejosas e um povo incruento e cordato. Tudo, \u00e9 claro, temperado com um sambinha, boa cacha\u00e7a, comida saborosa e futebol.<\/p>\n<p>Todo turista atrevido se autoriza um pouco antrop\u00f3logo. N\u00e3o fujo \u00e0 essa regra, mas adiciono ao meu olhar o cuidado em ouvir os outros, e, no caso a gravar a vers\u00e3o dos evadidos. \u00c9 f\u00e1cil se apaixonar por hist\u00f3rias de vidas de pessoas que, quase sempre, se colocam em situa\u00e7\u00e3o de risco. Isso, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 tudo, pois na troca da aventura pura e simples, dilemas subjetivos se colocam. Como equilibrar a desilus\u00e3o imediata frente a quebra do poderoso mito do Para\u00edso Tropical? Como trabalhar com a exclus\u00e3o social, tendo em mira o dram\u00e1tico amor \u00e0 p\u00e1tria, \u00e0s nossas coisas e gente?<\/p>\n<p>Filtradas centenas de hist\u00f3rias, a maioria colhida no \u201cex\u00edlio\u201d, mantida a percep\u00e7\u00e3o das deporta\u00e7\u00f5es e ciente dos consequentes efeitos diplom\u00e1ticos entre o pa\u00eds que expulsa e o que compulsoriamente recebe de volta seus \u201cexpatriados\u201d, \u00e9 poss\u00edvel entender a precariedade historiogr\u00e1fica que temos. Encarando os temas \u201cbrasileiros fora do Brasil\u201d e \u201cprostitui\u00e7\u00e3o brasileira no exterior\u201d, ainda que se salvem alguns poucos bons estudos, o que se nota \u00e9 um vazio assustador. Sim, o v\u00e1cuo acad\u00eamico\/tem\u00e1tico afeito a tais fen\u00f4menos, lega o assunto a \u201ccaso de pol\u00edcia\u201d ou ao \u201cdireito internacional\u201d. Sempre criminalizados os evadidos ficam a margem dos crit\u00e9rios anal\u00edticos comuns. Sobras. Sil\u00eancio. Aliena\u00e7\u00e3o geral. Por l\u00f3gico h\u00e1 conveni\u00eancias em tais posturas: o ingresso de divisas advindas desses brasileiros se apoia na conveni\u00eancia governamental que n\u00e3o consegue abrir frente de trabalhos para pessoas que, prioritariamente, se situam entre 20 e 40 anos. E quantos somos fora do corpo nacional? Quatro ou cinco milh\u00f5es de pessoas? Como saber?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Bye-Bye-Brasil-Poster.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14952\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Bye-Bye-Brasil-Poster-304x450.jpg\" alt=\"Bye-Bye-Brasil-Poster\" width=\"304\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Bye-Bye-Brasil-Poster-304x450.jpg 304w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Bye-Bye-Brasil-Poster-203x300.jpg 203w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Bye-Bye-Brasil-Poster.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Qual seria a imagem que representaria s d\u00e9cada perdida no s\u00e9culo 21?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O avesso deste processo todo \u00e9 ainda mais perturbador. Fontes do Itamary contabilizam, no presente, cerca de 2 mil brasileiros detidos em pris\u00f5es estrangeiras. A maioria est\u00e1 na Europa (1066) e responde por tr\u00eas crimes prevalentes: prostitui\u00e7\u00e3o ilegal, tr\u00e1fico de drogas e furtos. Em diferentes pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina (774), est\u00e3o ligados aos neg\u00f3cios com drogas e armas, al\u00e9m do tr\u00e1fico de pessoas. Nos Estados Unidos, temos cerca de 700 pessoas prioritariamente presas por presen\u00e7a ilegal e tr\u00e1fico de drogas. Em diferentes pa\u00edses da \u00c1sia est\u00e3o encarcerados quase 300 brasileiros e brasileiras envolvidos em prostitui\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico de drogas, isso inclusive em pa\u00edses isl\u00e2micos onde a pena de morte \u00e9 rigorosamente praticada. Na Am\u00e9rica Central, Caribe, \u00c1frica, Oriente M\u00e9dio e Oceania est\u00e3o detidos mais ou menos outros 150 patr\u00edcios, presos por motivos combinados.<\/p>\n<p>A simples constata\u00e7\u00e3o da persist\u00eancia desse problema convoca a uma indaga\u00e7\u00e3o quase insuport\u00e1vel. Se os anos de 1980 foram chamados de \u201cd\u00e9cada perdida\u201d, estar\u00edamos agora reeditando o mesmo processo? Sei l\u00e1 o que dizer, mas uma coisa \u00e9 certa, faz eco o verso de Chico Buarque ao dizer em uma passagem \u201cEstou me sentindo t\u00e3o s\u00f3\/ Oh! tenha d\u00f3 de mim\/ Pintou uma chance legal\/ um lance l\u00e1 na capital\/ Nem tem que ter ginasial\/ Meu amor&#8230; Bye,bye Brasil\/ A \u00faltima ficha caiu\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas jovens brasileiras presas no East Harlem Eu queria. Juro que eu queria muito escrever sobre coisas leves, flanar em torno de amenidades. 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