{"id":14935,"date":"2017-07-27T16:35:43","date_gmt":"2017-07-27T19:35:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14935"},"modified":"2017-07-27T16:37:43","modified_gmt":"2017-07-27T19:37:43","slug":"um-heroi-de-nosso-tempo-daniel-aarao-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/um-heroi-de-nosso-tempo-daniel-aarao-reis\/","title":{"rendered":"Um her\u00f3i de nosso tempo (Daniel Aar\u00e3o Reis)"},"content":{"rendered":"<p>Em 10 de dezembro de 2008, foi lan\u00e7ada na China a Carta 08,\u00a0 onde se afirmava que os cidad\u00e3os chineses, cada vez mais, reconheciam a liberdade,\u00a0 a igualdade e os direitos humanos como valores universais. E que a democracia, a rep\u00fablica e uma constitui\u00e7\u00e3o constitu\u00edam um arcabou\u00e7o b\u00e1sico para um sistema pol\u00edtico moderno.<!--more--> Ao questionar o processo de moderniza\u00e7\u00e3o na China, que ignora e desrespeita estes princ\u00edpios, denunciavam-no como algo \u201cdesastroso\u201d, pois \u201cpriva os homens de seus direitos e destr\u00f3i a sua dignidade\u201d. Indagavam-se os que subscreviam o texto para onde estaria caminhando a China no s\u00e9culo XXI. Continuaria prevalecendo a moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria? Ou haveria o reconhecimento dos valores democr\u00e1ticos?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Manifesto-08.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14937\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Manifesto-08-315x450.jpg\" alt=\"Manifesto 08\" width=\"315\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Manifesto-08-315x450.jpg 315w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Manifesto-08-210x300.jpg 210w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Manifesto-08.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Manifesto &#8220;publicado&#8221; na China, traz Liu Xiaobo na capa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Trezentos e tr\u00eas intelectuais e ativistas assinaram a Carta. Nos dias e meses seguintes, cerca de 8 mil pessoas fizeram o mesmo, homenageando com o t\u00edtulo um outro texto, publicado em 1977 por algumas centenas de intelectuais tchecoeslovacos que criticavam o estado de exce\u00e7\u00e3o em seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Carta 77 foi proibida de circular. Os que a assinaram, e suas fam\u00edlias, foram perseguidos, alguns aprisionados. Todavia, nada impediu sua difus\u00e3o. Era passada de m\u00e3o em m\u00e3o, murmurada nas esquinas, segredada nos bares e nas alcovas, n\u00e3o houve jeito de extirpar aquele veneno. Doze anos mais tarde, uma de suas principais lideran\u00e7as, Vaclav Havel, escritor e dramaturgo, tornou-se presidente do pa\u00eds, eleito pelo voto dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Cerca de 30 anos depois, Pekim reagiu com a mesma f\u00faria contra os pac\u00edficos defensores dos valores democr\u00e1ticos da Carta 08.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Entre-livros.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14939\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Entre-livros.jpg\" alt=\"Entre livros\" width=\"290\" height=\"174\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Liu Xiaobo n\u00e3o abriu m\u00e3o de suas convic\u00e7\u00f5es, apesar de toda a viol\u00eancia que sofreu<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sobre um de seus principais ativistas, Liu Xiaobo, arrebentou a ira dos governantes. Ele era um velho conhecido da pol\u00edcia pol\u00edtica. Em maio de 1989, quando das manifesta\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas da Pra\u00e7a da Paz Celestial, embora lecionando, a convite, nos Estados Unidos, acorreu ao seu pa\u00eds e fez o poss\u00edvel para construir media\u00e7\u00f5es entre os estudantes e as autoridades. Em v\u00e3o. Identificado aos rebeldes, logo depois massacrados, Liu entrou na al\u00e7a de mira da repress\u00e3o, ganhando uma pena de dois anos, at\u00e9 1991. Contudo, n\u00e3o o dobraram. Pegou, ent\u00e3o, uma segunda condena\u00e7\u00e3o, em 1995. E uma terceira, de tr\u00eas anos, entre 1996 e 1999.<\/p>\n<p>Recuperando a liberdade, aquele homem de apar\u00eancia fr\u00e1gil e de sorriso ir\u00f4nico e triste, fiel a suas convic\u00e7\u00f5es, continuava o mesmo, n\u00e3o se emendando e n\u00e3o se curvando. Queriam enterr\u00e1-lo vivo, como a tanto outros? N\u00e3o o conseguiriam.<\/p>\n<p>Tornou-se, ent\u00e3o, um dos principais articuladores da Carta O8. Quando o texto veio \u00e0 luz, foi novamente preso. Um ano depois, outra condena\u00e7\u00e3o, desta vez a onze anos de pris\u00e3o e mais dois de priva\u00e7\u00e3o de direitos pol\u00edticos.\u00a0 A pena suscitou um esc\u00e2ndalo internacional. No contexto de um amplo movimento de solidariedade internacional, Liu ganhou, em 2010, o Pr\u00eamio Nobel. Os governantes consideraram a premia\u00e7\u00e3o uma \u201cobscenidade\u201d e apertaram ainda mais as cravelhas, submetendo a controles irrespir\u00e1veis sua mulher, a poeta e fot\u00f3grafa, Liu Xia, e toda sua fam\u00edlia.\u00a0 Um dos irm\u00e3os dela pegou uma pena de 13 anos.<\/p>\n<p>Armou-se uma queda de bra\u00e7o. De um lado, um homem s\u00f3, no calabou\u00e7o, apenas com suas palavras e pensamento. De outro, a poderosa ditadura chinesa, chefiada pelo honor\u00e1vel Xi Jinping, que passeia sua impass\u00edvel catadura pelos cen\u00e1culos onde se encontram os grandes deste mundo. Em determinado momento, Liu teve a oferta da liberdade, em troca de uma autocr\u00edtica em boa e devida forma. Recusou-se. A liberdade, s\u00f3 a aceitaria sem condi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o a teve. E pagou com a vida por sua firmeza.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, vitimado por um c\u00e2ncer, o regime autorizou sua transfer\u00eancia para um hospital universit\u00e1rio. Entretanto, ele n\u00e3o teria sossego nem mesmo \u00e0 sombra da morte.\u00a0 Impotente e incapaz de dominar e controlar as ideias e a vontade de Liu, o governo devotou-se a controlar o seu corpo e o fez at\u00e9 o fim.\u00a0 J\u00e1 o corpo morto, organizou seu funeral e crema\u00e7\u00e3o. Foi uma atitude pat\u00e9tica, cruel e obscena. E aqui, sim, o termo corresponde \u00e0s evid\u00eancias.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Bertolt-Brecht.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14938\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Bertolt-Brecht.jpg\" alt=\"Bertolt Brecht\" width=\"305\" height=\"165\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Bertolt-Brecht.jpg 305w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Bertolt-Brecht-300x162.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No livro sobre a vida de Galileu, B. Bretch atribui ao seu personagem a melanc\u00f3lica ideia de que \u201cinfeliz \u00e9 a terra que precisa de her\u00f3is\u201d. \u00c9 presum\u00edvel que Liu Xiaobo concordasse com a frase, pois, pelo que disse e fez, e pela maneira como dizia e fazia, nunca se investiu na solenidade de algu\u00e9m superior. E \u00e9 prov\u00e1vel que se ofendesse se quisessem entroniz\u00e1-lo como tal, pois sua figura magra e seca era, de fato, a ant\u00edtese do her\u00f3i. Mas, agora, que ele n\u00e3o est\u00e1 e nunca mais estar\u00e1 entre n\u00f3s e as cinzas de seu corpo foram jogadas ao mar, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o perceber que suas ideias &#8211;\u00a0 e seu exemplo de vida &#8211; continuar\u00e3o inspirando e provocando admira\u00e7\u00e3o. E por isso mesmo, n\u00e3o sendo o her\u00f3i de terra alguma em particular, o destino e as op\u00e7\u00f5es de Liu tornaram-no uma legenda e, assim, ele virou, a despeito de si mesmo, um her\u00f3i do nosso tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Daniel Aar\u00e3o Reis<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Email: daniel.aaraoreis@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 10 de dezembro de 2008, foi lan\u00e7ada na China a Carta 08,\u00a0 onde se afirmava que os cidad\u00e3os chineses, cada vez mais, reconheciam a &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14936,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-14935","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14935","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14935"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14935\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14941,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14935\/revisions\/14941"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14936"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14935"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14935"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14935"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}