{"id":14925,"date":"2017-07-27T15:51:01","date_gmt":"2017-07-27T18:51:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14925"},"modified":"2017-07-27T15:52:47","modified_gmt":"2017-07-27T18:52:47","slug":"pequeno-inventario-de-uma-viagem-profunda-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/pequeno-inventario-de-uma-viagem-profunda-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PEQUENO INVENT\u00c1RIO DE UMA VIAGEM PROFUNDA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Demorei muito at\u00e9 fazer uma viagem ao L\u00edbano. Depois de tantos p\u00e9riplos, finalmente tomei a decis\u00e3o e, com mais de 70 anos, vim. Ao cabo de duas semanas, devo dizer que fiz uma viagem dentro de outra. O trajeto f\u00edsico, foi facilmente identificado, como seria para qualquer turista, mas o espiritual&#8230; <!--more-->Sim aconteceu algo que superou a expectativa de visitante. Devo dizer tamb\u00e9m que n\u00e3o me preparei devidamente para esta aventura. A correria de sempre, as atribui\u00e7\u00f5es de professor em fim de semestre, as consequ\u00eancias da crise que nos acomete, tudo junto ampliou a expectativa e dilatou o espa\u00e7o da surpresa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mapa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14926\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mapa.jpg\" alt=\"Mapa\" width=\"370\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mapa.jpg 370w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mapa-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mapa-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mapa-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mapa-360x360.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Como \u00e9 comum a filhos de emigrantes, tive preocupa\u00e7\u00e3o de tornar relativo meu dilema identit\u00e1rio. Sempre quis me sentir, acima de tudo, brasileiro. Os encargos de tal escolha implicaram em uma complexa sele\u00e7\u00e3o de valores vivenciados. Diria sem medo de errar que acalentei a manuten\u00e7\u00e3o de alguns tra\u00e7os da cultura libanesa, mas sempre atento ao filtro da conveni\u00eancia brasileira. Meu empenho inclusivo, de certa forma, corroborava com uma atitude comum entre n\u00f3s: o acatamento simp\u00e1tico dos brasileiros para com os libaneses. Assim, na insist\u00eancia indiscut\u00edvel de minha brasileiridade, aprendi a lidar com o que se aceitava com facilidade da heran\u00e7a \u00e1rabe. Vivendo em um lar onde o conv\u00edvio di\u00e1rio for\u00e7ava a bilateralidade, soube valorizar o aprendizado de detalhes superficiais que, contudo, satisfaziam a todos, principalmente no que tangia a comida e um certo estere\u00f3tipo de \u00e1rabe. Fiz quest\u00e3o de n\u00e3o aprender a l\u00edngua \u00e1rabe, ainda que meu pai insistisse, e, das poucas coisas que faria diferente, esta seria uma delas.<\/p>\n<p>Lembro-me de um ditado que ficou esculpido em minha mem\u00f3ria: <em>o que \u00e9 de ra\u00e7a, arrasta<\/em>. Ao fazer a avalia\u00e7\u00e3o da viagem, entendo melhor a profundidade da sabedoria popular. Apesar de meu esfor\u00e7o empenhado no abrasileiramento, nunca deixei de me permear pelo que seria \u201c<em>de ra\u00e7a<\/em>\u201d. Estar viajando por todo o pa\u00eds me permitiu acatar este pressuposto. E como me foi estranho ver o desenho de rostos de parentes expressos em olhares, trejeitos, cheiros e gestos alheios. Era como se identificasse nos outros, tra\u00e7os pessoais. E quantas vezes me vi no esfor\u00e7o de tratar bem as pessoas, at\u00e9 me surpreendi pensando em pessoas chamando-as afetivamente de \u201c<em>habib<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Zahle.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14927\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Zahle-450x257.jpg\" alt=\"Zahle\" width=\"450\" height=\"257\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Zahle-450x257.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Zahle-300x172.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Zahle.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Zahe, no Vale do Bek\u00e1, um dos polos de seu ramo materno<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ainda que tangenciando, devo reconhecer meu inconsciente, sempre t\u00e3o zeloso, cuidou de misturar os dois objetivos da viagem. No fundo queira conhecer minhas ra\u00edzes e isso implicava em riscos. Temia frustra\u00e7\u00f5es poss\u00edveis em tais investidas. Tinha poucas informa\u00e7\u00f5es, mas sabia de duas cidades referenciais. Uma, pelo lado materno, Zahe no encantador Vale do Bek\u00e1, outro, em localidade charmosa, junto as ru\u00ednas de Biblos, Djbeil. Tamb\u00e9m havia sido informado que bastava chegar a cada lugar e perguntar. Para quem trabalha com mem\u00f3ria, isto parecia um convite a estudos, pois \u00e9 t\u00e3o viva a presen\u00e7a do passado que, mesmo desconhecidos, s\u00e3o capazes de alguma informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Djbeil.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14928\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Djbeil.jpg\" alt=\"Djbeil\" width=\"259\" height=\"194\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O outro polo materno, Djbeil, junto \u00e0s ru\u00ednas de Biblos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Meu primeiro movimento foi passar por Zahle. No caminho de visita \u00e0 floresta de cedros, tomei cuidado em sondar. Aprendi logo que a fam\u00edlia Saba \u00e9 relativamente importante e que Sebe seria uma varia\u00e7\u00e3o. Logo me foi indicado um senhor, de nome Fouad, poderia dar pistas. Em nova investida, dias depois, o mesmo simp\u00e1tico e velho senhor me explicava que o ramo Saba tinha muitas variantes e poderia ter gerado Sebe, Sabbe, Shebat, entre outros. Disse tamb\u00e9m tanto o Brasil como a Austr\u00e1lia poderiam ter sido o destino de alguns. Mais pesquisas e me foi revelado algo que tinha ouvido falar: meu av\u00f4 Felipe seria modesto pastor e, quando imigrou na leva de 1899, ao declarar oralmente sua proced\u00eancia, negando seu nome leg\u00edtimo, disse ser um Seba. Mesmo desacreditando, o registrador, em vez de colocar Seba, usou Sebe. Tais informa\u00e7\u00f5es teriam sido passadas por outra fonte, os Abdalah, da linhagem materna. Bem-sucedidos no Brasil, este ramo teria voltado algumas vezes a Zahle e reportado tal hist\u00f3ria. Consegui ser recebido pelos Abdalah e pude simpaticamente ouvir relatos sobre os evadidos do Vale do Bek\u00e1.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Cedro-escultura.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14929\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Cedro-escultura-338x450.jpg\" alt=\"Cedro escultura\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Cedro-escultura-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Cedro-escultura-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Cedro-escultura.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Escultura em cedro secular<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pelo lado paterno tudo foi mais f\u00e1cil. Em contato com a prefeitura municipal, soube da exist\u00eancia do ramo Abimery que teria gerado varia\u00e7\u00f5es como Abud Merhi, Bom\/Bon Meihy e Adudmerty. Tamb\u00e9m tive a confirma\u00e7\u00e3o de que um ramo destes grupos teria ido para a Austr\u00e1lia. Soube ainda que um segmento dos Bom Meihy teria sido completado pelo lado de minha av\u00f3, de origem das montanhas de onde teriam vindo os Ghanem, de minha av\u00f3. Confesso que, levado a conhecer alguns destes \u201cprimos\u201d, me emocionei muito, como se tivesse em frente ao meu pai. E repetia comigo mesmo \u201c<em>o que \u00e9 de ra\u00e7a arrasta<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Por-do-Sol.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14931\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Por-do-Sol-338x450.jpg\" alt=\"Por do Sol\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Por-do-Sol-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Por-do-Sol-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Por-do-Sol.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>P\u00f4r do Sol no Mediterr\u00e2neo liban\u00eas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Feitas estas descobertas, restava sondar a possibilidade de juntar a todos. O desej\u00e1vel empreendimento, por\u00e9m, se mostrou invi\u00e1vel. Eram pessoas muito diferentes, diversas em n\u00edvel econ\u00f4mico e, todos mesmo crist\u00e3os, um eram cat\u00f3licos romanos, os de Zahle, e outros, os de Djbeil maronitas, ortodoxos. Mas n\u00e3o eram s\u00f3 estas diferen\u00e7as, presidia tamb\u00e9m uma forte varia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. De toda forma, aprendi algo a respeito de mim mesmo. E s\u00f3 este trajeto afetivo teria valido para o abra\u00e7o em minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demorei muito at\u00e9 fazer uma viagem ao L\u00edbano. Depois de tantos p\u00e9riplos, finalmente tomei a decis\u00e3o e, com mais de 70 anos, vim. 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