{"id":14759,"date":"2017-05-24T20:12:11","date_gmt":"2017-05-24T23:12:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14759"},"modified":"2017-05-25T17:25:47","modified_gmt":"2017-05-25T20:25:47","slug":"o-prefacio-que-antonio-candido-nao-escreveu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-prefacio-que-antonio-candido-nao-escreveu\/","title":{"rendered":"O pref\u00e1cio que Antonio C\u00e2ndido n\u00e3o escreveu"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Oscar V. Sachs Jr.<\/span><\/p>\n<p><em><strong>\u00c0 jornalista taubateana Stela Sachs<\/strong><\/em><!--more--><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minha querida Stela, tamb\u00e9m me emocionei com o relato da neta do Antonio C\u00e2ndido, na Folha. Mais ainda, naturalmente, com o que voc\u00ea escreveu, no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Face<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, sobre a liga\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e, a professora Sonia Sachs, com o grande cr\u00edtico liter\u00e1rio, \u00edcone de uma gera\u00e7\u00e3o. Li tamb\u00e9m hoje, 21\/05, no caderno \u201cIlustr\u00edssima\u201d, mem\u00f3rias de um editor que pediu pref\u00e1cios ao mestre, que relutou, mas n\u00e3o p\u00f4de neg\u00e1-los.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tentei acrescentar alguma coisa ao seu coment\u00e1rio, mas a emo\u00e7\u00e3o foi forte, s\u00f3 consegui mandar aquela figurinha de que tinha gostado do que voc\u00ea escreveu. Com o inverno chegando, aqui no Trememb\u00e9, sozinho, sem as cuidadoras de idoso, me atrevo a falar um pouco mais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sim, ela foi aluna do Antonio C\u00e2ndido no curso de Letras Neolatinas da Faculdade de Filosofia e um dos orgulhos dela era ter tido nota m\u00e1xima num trabalho de cr\u00edtica sobre um poema de Manuel Bandeira, \u201cAs tr\u00eas mulheres do sabonete Arax\u00e1\u201d, que o Mestre leu em classe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aquela mo\u00e7a bonita que fazia o \u00faltimo ano do curso tinha conhecido o presidente do Gr\u00eamio da Filosofia e os dois tinham se enamorado e casado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bacharelada e licenciada, ela quis, pediu e o professor Antonio C\u00e2ndido aceitou que fizesse com ele o curso e a defesa de mestrado, o que era um privil\u00e9gio, pois ele j\u00e1 diminu\u00edra suas atividades. Mas, gr\u00e1vida do primeiro filho e j\u00e1 tendo uma gravidez perdida, ela teve que guardar repouso quase absoluto. O professor ainda insistiu, gostaria que ela continuasse na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o foi poss\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Morando em Santo Andr\u00e9, Sonia foi dar aulas no col\u00e9gio estadual. E incrementou tamb\u00e9m a carreira de m\u00e3e, com o segundo filho e a primeira menina. Continuou dando aula de portugu\u00eas no col\u00e9gio, o que inclu\u00eda, l\u00f3gico, literatura brasileira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando a fam\u00edlia veio para Taubat\u00e9, ela foi dar aula num instituto que era dirigido por um padre. Durou pouco. Ela mandou os alunos lerem, durante o ano, tr\u00eas ou quatro livros. Alguns pais reclamaram que era demasiado para os filhos e o padre \u2013 talvez com medo de perder alunos, talvez por alergia \u00e0 cultura \u2013 despediu a professora. Acho que foi um dos momentos em que ela mais precisou de um ombro amigo, que estava ali ao lado dela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bom, n\u00e9? Ai veio a gravidez inesperada, com as perip\u00e9cias que voc\u00ea conhece. E voc\u00ea chegou. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste meio tempo, n\u00e3o me lembro bem das circunst\u00e2ncias, foi pedido a ela que fizesse a bibliografia do professor Antonio C\u00e2ndido. Ela consultou as bibliotecas de S\u00e3o Paulo, acho que a hemeroteca da Municipal e outras fontes, e \u2013 sem computador e recortando e colando tirinhas de papel quando descobria um novo texto \u2013 preparou o trabalho.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/A-Candido-editada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14767\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/A-Candido-editada-450x365.jpg\" alt=\"A Candido editada\" width=\"450\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/A-Candido-editada-450x365.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/A-Candido-editada-300x244.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/A-Candido-editada-768x624.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/A-Candido-editada.jpg 841w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ant\u00f4nio C\u00e2ndido de Mello e Franco, morto recentemente<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais tarde, quando o professor se aposentou, iam fazer um livro com depoimentos sobre sua obra, o que incluiria um trabalho sobre sua bibliografia. Acho que ia ser publicado pela Hucitec, uma editora dedicada a assuntos acad\u00eamicos, mas a\u00ed a mem\u00f3ria me falha. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Consultado sobre quem poderia preparar a bibliografia, Antonio C\u00e2ndido disse que queria \u201caquela mo\u00e7a, ex-aluna dele, que tinha feito um belo trabalho, com dados que at\u00e9 ele tinha esquecido\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bom, agora Sonia possu\u00eda um computadorzinho que seria um carro de boi comparado a uma das Ferrari de hoje em dia, mas ajudou muito. Ela ampliou bastante a pesquisa, algumas vezes indo at\u00e9 a Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, e fu\u00e7ando o Arquivo Hist\u00f3rico de S\u00e3o Paulo, as hemerotecas e todas as fontes que se p\u00f4de imaginar. O livro saiu, ela como co-autora, ao lado de Fernando Henrique, Ot\u00e1vio Ianni, Aderaldo Castelo e outros luminares das letras e da sociologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela a esta altura dava aulas de portugu\u00eas na Unitau, quando descobriram que os calouros chegavam \u00e0 universidade sem saber escrever em portugu\u00eas e criaram um curso gen\u00e9rico para todas as faculdades. Ela deu aulas no Curso de Psicologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Instigada pelo marido, Sonia se inscreveu num curso de mestrado, coordenado e ministrado pelo professor Neif S\u00e1fadi. Foi a \u00fanica que terminou o curso, defendeu tese e recebeu o t\u00edtulo de Mestre. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando descobriu que o t\u00edtulo s\u00f3 valia <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">interna corpore, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">ou seja, s\u00f3 entre os muros da Unitau, voltou \u00e0 USP e fez outra vez o curso de mestrado e a defesa de tese, sendo ent\u00e3o Mestre por sua casa de origem. Foi comprado um pequeno apartamento em S\u00e3o Paulo, para ela enfrentar o doutorado, sob orienta\u00e7\u00e3o de uma professora que se tornou uma grande amiga, a Dra. Cleusa.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sonia-editada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14769\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sonia-editada-412x450.jpg\" alt=\"Sonia editada\" width=\"412\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sonia-editada-412x450.jpg 412w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sonia-editada-275x300.jpg 275w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sonia-editada-768x839.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sonia-editada.jpg 823w\" sizes=\"auto, (max-width: 412px) 100vw, 412px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>S\u00f4nia Sachs, em 2008<\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na defesa de tese de doutorado, uma curiosidade: algu\u00e9m da banca, motivado por um neologismo de M\u00e1rio de Andrade, em um item da tese, perguntou o que ela consultava para validar um voc\u00e1bulo. Ela citou os diversos dicion\u00e1rios que tinha \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e disse que, em d\u00favida, consultava o marido. E apontou, para risos gerais, um cidad\u00e3o que estava na plateia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Antes ainda do doutorado, ela soube que ia haver um concurso para professor de literatura brasileira, no curso de letras da Unitau, e na \u00faltima hora se inscreveu, sem saber que a cama estava preparada para um professor da casa, bastante limitado e sem t\u00edtulos, mas com padrinhos fortes (mas os lances dessa inscri\u00e7\u00e3o e o voto de desempate a favor dela, pela pr\u00f3-reitora Maria Jos\u00e9, s\u00e3o outra hist\u00f3ria). Ganhou o concurso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Professora concursada de literatura brasileira, dava aulas tamb\u00e9m de teoria liter\u00e1ria, e os alunos a detestavam ou a idolatravam, por sua rigidez e efici\u00eancia. Os que souberam aproveitar ainda se lembram dela com muito carinho, confirmando que seu m\u00e9todo formava professores, n\u00e3o apenas lhes conferia um diploma. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra vez, meio que por acaso, pediram que ela desse o nome para completar uma lista tr\u00edplice como candidata \u00e0 diretoria do curso. Eleita para sua pr\u00f3pria surpresa, continuou com as aulas para a turma do \u00faltimo ano. Foi um per\u00edodo atribulado, em que muitas vezes precisou do velho ombro amigo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sua carreira, como professora, terminou a\u00ed. Chamada pelo reitor Nivaldo Zoellner, foi nomeada pr\u00f3-reitora de Expans\u00e3o Cultural, cargo em que fez muitos amigos e enfrentou outros que jogavam pedras, por interesses contrariados. \u00c9 a vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando deu por terminada sua miss\u00e3o e se aposentou, quis dirigir sua capacidade de trabalho para outra atividade, talvez recome\u00e7ar a escrever sobre teoria, cr\u00edtica e hist\u00f3ria liter\u00e1ria. Seu marido a incentivou, lembrando que poderia fazer uma s\u00e9rie de artigos, que come\u00e7ariam revisitando a cr\u00edtica do poema de Manuel Bandeira, sobre as mulheres do sabonete Arax\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o deu tempo. O glioblastoma estava s\u00f3 espreitando a hora de se manifestar. Foram dois anos e meio de exames, exames, exames, duas cirurgias no c\u00e9rebro, duas radioterapias, duas qu\u00edmios, uma infinidade de consultas, muitos e in\u00fateis rem\u00e9dios. Apagou-se a luz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O professor Antonio C\u00e2ndido teria feito com alegria o pref\u00e1cio do livro.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Oscar V. 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