{"id":14739,"date":"2017-05-14T16:01:06","date_gmt":"2017-05-14T19:01:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14739"},"modified":"2017-05-14T16:01:06","modified_gmt":"2017-05-14T19:01:06","slug":"coluna-do-sebe-a-romaria-das-romarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/coluna-do-sebe-a-romaria-das-romarias\/","title":{"rendered":"COLUNA DO SEBE: A ROMARIA DAS \u201cROMARIAS\u201d"},"content":{"rendered":"<p><b><\/b><b><i>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/i><\/b><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Definitivamente o tema tomou conta de mim. Bastou pensar em uma sondagem para que o campo de pesquisa se tornasse desafio. E eis me estudando Aparecida do Norte. A complexidade do assunto, por\u00e9m, obriga a amplitudes e assim a primeira atitude de alargamento da proposta. Na realidade, a pr\u00e1tica das romarias \u00e9 comum no mundo. Algumas s\u00e3o famosas e guardam prest\u00edgio transparecidos em relatos de milagres, gra\u00e7as e pagamento de promessas. No circuito crist\u00e3o cat\u00f3lico, entre tantas, a ida a Roma \u00e9 cultuada como matriz significativa, presente inclusive em outras religi\u00f5es, mundo afora. Aparecida do Norte, assim, sugere o uso da peregrina\u00e7\u00e3o como ato devoto a ser vivenciado por fieis que reciclam rituais derivados de uma afetuosa mem\u00f3ria coletiva. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O caso brasileiro, contudo, apresenta uma variante que interessa pela originalidade: al\u00e9m dos roteiros de visitas, a produ\u00e7\u00e3o musical se oferece como esp\u00e9cie de discurso \u00e9pico continuado, cumulativo, dirigido principalmente, para o p\u00fablico de perfil urbano ou em processo de adapta\u00e7\u00e3o ao meio citadino. \u00c9 exatamente neste sentido que a m\u00fasica sertaneja atua como ativadora de pertencimento popular. Ainda que a tradi\u00e7\u00e3o romeira tivesse perdido o fundamento eminentemente religioso, alguns referenciais, al\u00e9m do culto \u00e0 Imagem Milagrosa, ficam expostos: a elei\u00e7\u00e3o de um tempo central para o pagamento de promessas, a passagem pela capela onde est\u00e1 guardada a santa e refer\u00eancia \u00e0s m\u00fasicas que se desdobram fora dos limites das visitas. Tais fatores comp\u00f5em lances que permitem supor discursos musicais que fomentam uma l\u00f3gica devota especial. Submetidas a uma linha do tempo, tais can\u00e7\u00f5es formulam a continuidade de uma mem\u00f3ria que \u00e9 mais do que mera propaganda, sendo mesmo um ch\u00e3o que justifica o caminho cultural da devo\u00e7\u00e3o profana.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sou-caipira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14721\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sou-caipira.jpg\" alt=\"Sou caipira\" width=\"225\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sou-caipira.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sou-caipira-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/Sou-caipira-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O exame das letras sobre as Romarias como fen\u00f4meno n\u00e3o religioso, referentes ao caso do Munic\u00edpio de Aparecida do Norte, indica a viv\u00eancia da f\u00e9 segundo a tradi\u00e7\u00e3o de inspira\u00e7\u00e3o religiosa popular. Trata-se sim, legitimamente, de f\u00e9, mas longe de ortodoxias. N\u00e3o se mostra prudente, contudo, confundir tal procedimento com catolicismo popular, como se houvesse n\u00edveis de viv\u00eancia crist\u00e3. Por certo, a populariza\u00e7\u00e3o dos meios de transporte faz repontar disputas entre a mem\u00f3ria de uma cavalaria \u2013 onde o fiel cumpriria a promessa vindo montado a cavalo \u2013 em favor de movimenta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m feitas a p\u00e9, de carro, em caminh\u00f5es ou \u00f4nibus. A repeti\u00e7\u00e3o de alguns motes como a visita \u00e0 imagem causadora desse culto de f\u00e9, Aparecida do Norte, no estado de S\u00e3o Paulo, serve de base para se pensar na formula\u00e7\u00e3o do mito de uma cidade sagrada onde se reciclam tradi\u00e7\u00f5es de supostos tra\u00e7os medievais. Aliam-se assim dois fatores complementares: a imagem da Senhora Aparecida e a constitui\u00e7\u00e3o de uma \u201ccapital da f\u00e9\u201d, esp\u00e9cie de refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para a homenagem \u00e0 Padroeira do Brasil. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, em que medida pode-se propor, pelo exame desse cancioneiro modernizado, a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria coletiva capaz de justificar a hip\u00f3tese de trabalho em favor de uma moderna tradi\u00e7\u00e3o cultural? A resposta se desdobra do suposto que permite ver a formula\u00e7\u00e3o de matrizes narrativas que se repetem, variando a exemplifica\u00e7\u00e3o, mas garantindo o mesmo sentido. Assim, algumas perip\u00e9cias ou detalhes de fa\u00e7anhas romeiras podem ser encontrados nas letras das centenas de can\u00e7\u00f5es, notadamente de duplas sertanejas mais populares. A que inaugura essa sequ\u00eancia, Aparecida do Norte, foi composta por Anacleto Rosas Jr e Tonico, da dupla Tonico e Tinoco. Cabe lembrar que no ano dessa parceria, 1958, deram-se algumas das mais importantes transforma\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o do Brasil. No andamento dos chamados \u201canos dourados\u201d (1956 &#8211; 1961), na trajet\u00f3ria pol\u00edtica de gest\u00e3o de Juscelino Kubitschek, arrolaram-se fatos como: a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, o lan\u00e7amento da Bossa Nova, o cinema novo, o Teatro Experimental Negro, entre tantos eventos. Nessa pl\u00eaiade de fatos populares, exatamente em 1958, surgia a primeira can\u00e7\u00e3o ligada a homenagem nacional de Nossa Senhora Aparecida. Eis a letra de Aparecida do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Norte: <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cJ\u00e1 cumpri minha promessa na Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">E gra\u00e7as a Nossa Senhora n\u00e3o lastimo mais a sorte Falo com F\u00e9: <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; N\u00e3o lastimo mais a sorte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 cumpri minha promessa na Aparecida do Norte. <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Eu subi toda a ladeira sem car\u00eancia de transporte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">E beijei os p\u00e9s da Santa da Aparecida do Norte Falo com F\u00e9: <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Da Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Eu subi toda a ladeira sem car\u00eancia de transporte.<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o tenho melancolia, tenho sa\u00fade sou forte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tenho f\u00e9 em Nossa senhora da Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Falo com F\u00e9: Da Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o tenho melancolia, tenho sa\u00fade sou forte<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Padroeira do Brasil Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Eu tamb\u00e9m sou brasileiro sou caboclo de suporte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Falo com F\u00e9: Sou caboclo de suporte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Padroeira do Brasil Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Todo meado do ano enquanto n\u00e3o chega a morte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Vou fazer minha visita na Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Falo com F\u00e9: Na Aparecida do Norte <\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Todo meado do ano enquanto n\u00e3o chega a morte.\u201d<\/span><\/i><\/p>\n<div id=\"attachment_14741\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-14741\" class=\"size-large wp-image-14741\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault-450x253.jpg\" alt=\"Renato Teixeira\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/maxresdefault.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-14741\" class=\"wp-caption-text\">Renato Teixeira<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa can\u00e7\u00e3o foram semeados alguns elementos importantes para a constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria popular afeita \u00e0 Nossa Senhora e sua proje\u00e7\u00e3o nacional. Al\u00e9m da refer\u00eancia expl\u00edcita \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de Aparecida do Norte e da identifica\u00e7\u00e3o com o contexto cat\u00f3lico brasileiro, colocado como um todo homog\u00eaneo, nota-se a ratifica\u00e7\u00e3o da imagem como \u201cPadroeira do Brasil\u201d. E junto desdobram-se qualificativos importantes como \u201ceu tamb\u00e9m sou brasileiro, sou caboclo de suporte\u201d. Por certo, ser caboclo n\u00e3o \u00e9 pouco coisa na identidade brasileira\/ popular. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A rima \u201cAparecida do norte\/morte\u201d por sua vez revela a import\u00e2ncia da b\u00ean\u00e7\u00e3o derivada de promessa \u2013 de onde vem a no\u00e7\u00e3o de romaria. Item relevante \u00e0 presen\u00e7a da palavra \u201ctransporte\u201d, n\u00e3o apenas significando movimento de outras partes para a cidade religiosa, mas tamb\u00e9m na descri\u00e7\u00e3o do local, por meio da ladeira que conduzia \u00e0 antiga Bas\u00edlica. N\u00e3o menos saliente \u00e9 a refer\u00eancia \u00e0 sa\u00fade e ao compromisso de, enquanto viver, cumprir a promessa. Como marco inaugural, a can\u00e7\u00e3o permite ainda uma imprecis\u00e3o de data, valorizando o compromisso, independente de data fixa fica expresso que a fa\u00e7anha se repetira \u201ctodo meado do ano enquanto n\u00e3o chega a morte\u201d. Foi a partir desse come\u00e7o que tudo se desdobrou. E assim continuo minha peregrina\u00e7\u00e3o, aliviado por ter me tornado devoto do tema.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14740,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,36],"tags":[],"class_list":["post-14739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-lazer-e-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14739"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14742,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14739\/revisions\/14742"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}