{"id":14566,"date":"2017-04-02T15:54:09","date_gmt":"2017-04-02T18:54:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14566"},"modified":"2017-04-02T15:54:09","modified_gmt":"2017-04-02T18:54:09","slug":"coluna-do-daniel-reis-os-europeus-eram-normais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/coluna-do-daniel-reis-os-europeus-eram-normais\/","title":{"rendered":"COLUNA DO DANIEL REIS: Os europeus eram normais"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na long\u00ednqua manh\u00e3 de 25 de mar\u00e7o de 1957, ca\u00eda uma chuva fina em Roma. No Pal\u00e1cio do Capit\u00f3lio, ultimavam-se os preparativos para a cerim\u00f4nia que da\u00ed a pouco teria lugar. No in\u00edcio da noite, uma pequena multid\u00e3o, guarda-chuvas abertos, contida apenas por um discreto cord\u00e3o de policiais, assistiria \u00e0 chegada dos l\u00edderes dos Estados que subscreveriam o acordo prevendo uma redu\u00e7\u00e3o progressiva dos impostos alfandeg\u00e1rios. Surgia o Mercado Comum europeu entre It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Rep\u00fablica Federal da Alemanha, Luxemburgo, Holanda e B\u00e9lgica. \u00a0<\/span><!--more--><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nasceu quase enjeitado, pois filho de um fracasso, o da forma\u00e7\u00e3o de uma Comunidade Europeia de Defesa, um projeto ambicioso, com o objetivo declarado de superar conflitos nacionais que haviam suscitado duas guerras e devastado o continente \u2013 e o mundo &#8211; na primeira metade do s\u00e9culo XX. Houve a ideia, ent\u00e3o, de escolher caminhos mais prosaicos \u2013 identificar e aproximar interesses econ\u00f4micos, promov\u00ea-los, at\u00e9 alcan\u00e7ar, num futuro indefinido, uma unidade pol\u00edtica maior. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi um sucesso. Construiu-se um mercado de 200 milh\u00f5es de habitantes. Em doze anos, entre 1958 e 1970, o com\u00e9rcio entre os pa\u00edses envolvidos multiplicou-se por seis vezes. Desenvolveram-se a ind\u00fastria, a agricultura e o emprego, instaurando-se o Estado de Bem-Estar Social. As coisas iam t\u00e3o bem que at\u00e9 os ingleses aderiram, em 1973. Eles passariam a conhecer, como disse Mark Rice-Oxley, em artigo divertido e amargo, os queijos franceses, o salame italiano, a cerveja belga e, coisa ainda mais incr\u00edvel, que os alem\u00e3es eram iguais a eles, que os \u00a0\u00a0europeus eram normais. E isto os ajudaria a descobrir e a amar a Europa. Era um fen\u00f4meno geral. Em toda a parte, sobretudo entre os jovens, tomava corpo uma identidade europeia, afugentando os fantasmas dos nacionalismos mesquinhos e destrutivos. \u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos anos 1980, os acordos de Schengen permitiram a livre circula\u00e7\u00e3o sobre as malditas fronteiras nacionais. Tornou-se doce exerc\u00edcio dormir em Amsterdam e acordar em Berlim ou em Roma, sem obriga\u00e7\u00e3o de mostrar documentos ou de ouvir o rosnado de policiais suspeitosos. Na d\u00e9cada seguinte, o Tratado de Maastricht, em 7 de fevereiro de 1992, lan\u00e7ou as bases da uni\u00e3o monet\u00e1ria e da moeda comum, o euro, introduzido em 2002 em substitui\u00e7\u00e3o a 12 moedas nacionais. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entretanto, j\u00e1 algo parecia n\u00e3o ir t\u00e3o bem. Mudan\u00e7as profundas e imprevistas alteraram as condi\u00e7\u00f5es internacionais. A revolu\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica transformou, radicalmente, os padr\u00f5es existentes. Na \u00c1sia, depois dos tigres, surgiram dois drag\u00f5es \u2013 a China e a \u00cdndia \u2013 aumentando a concorr\u00eancia. Seus produtos, mais baratos, inundaram os mercados. \u00a0A Alemanha unificada desequilibrara as rela\u00e7\u00f5es de poder. A amplia\u00e7\u00e3o dos acordos econ\u00f4micos e pol\u00edticos, estendidos agora a 27 pa\u00edses, introduzira disparidades e complexidades n\u00e3o antevistas. \u00a0A isto somaram-se a crise imigrat\u00f3ria, grav\u00edssima a partir de 2015, com mais de um milh\u00e3o de refugiados, e as a\u00e7\u00f5es terroristas, suscitando apreens\u00e3o e medo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde a cria\u00e7\u00e3o da moeda comum, em 2002, e mesmo antes, articularam-se movimentos e vozes dissonantes. Denunciaram que, na Europa, como na f\u00f3rmula de George Orwell, uns eram mais iguais que outros. Num quadro de altas taxas de desemprego, n\u00e3o mais absorvidas, mesmo em per\u00edodos de crescimento, cada vez mais curtos, as desigualdades aumentaram em vez de diminuir. Enquanto isto, os avan\u00e7os do Estado de Bem-Estar social \u2013 transportes, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o \u2013 definharam. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A crise de 2008 foi reveladora. Provocada pela desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros, seus terr\u00edveis efeitos foram combatidos com a famosa \u201ccura de austeridade\u201d, ou seja, \u00e0 custa das maiorias que vivem do trabalho assalariado. Paradoxalmente, ficaram ao abrigo da tormenta seus principais respons\u00e1veis, os capitais especulativos, gafanhotos predat\u00f3rios, movimentados pelos grandes bancos, evadindo as fiscaliza\u00e7\u00f5es, corrompendo os sistemas pol\u00edticos, circulando livres pelos para\u00edsos fiscais. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As gentes come\u00e7aram a dizer n\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por inconsequ\u00eancia das esquerdas, boa parte do sentimento de protesto, explorado pela extrema-direita, recolheu-se aos velhos nacionalismos, reacion\u00e1rios no sentido pr\u00f3prio do termo, aspirantes \u00e0 reconstitui\u00e7\u00e3o de um passado que passou, explorando nostalgias de flores murchas, incapazes de formular propostas de futuro. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Resta apostar nos novos movimentos e suas lideran\u00e7as: Jesse Klever, da GroenLinks (a esquerda verde), na Holanda; Nicola Sturgeon, a corajosa primeira-ministra escocesa; o belga Paul Magnette; a dinamarquesa Margrethe Vestager; Beno\u00eet Hamon, l\u00edder socialista franc\u00eas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eles n\u00e3o querem \u2013 e \u00a0n\u00e3o v\u00e3o \u2013 renunciar \u00e0 Europa. Mas pensam (re)constru\u00ed-la de outra maneira: com democracia, \u00a0justi\u00e7a social, respeito ao meio-ambiente e vis\u00e3o internacional. Eles representam um futuro em que se tornar\u00e1 cada vez poss\u00edvel &#8211; e desej\u00e1vel &#8211; \u00a0\u201camar a Europa\u201d. \u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Daniel Aar\u00e3o Reis<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Email: daniel.aaraoreis@gmail.com <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Na long\u00ednqua manh\u00e3 de 25 de mar\u00e7o de 1957, ca\u00eda uma chuva fina em Roma. 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