{"id":14305,"date":"2017-02-14T11:04:08","date_gmt":"2017-02-14T14:04:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14305"},"modified":"2017-02-14T11:04:08","modified_gmt":"2017-02-14T14:04:08","slug":"coluna-do-sebe-intelectual-brega-moteis-e-traicoes-conjugais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/coluna-do-sebe-intelectual-brega-moteis-e-traicoes-conjugais\/","title":{"rendered":"Coluna do Sebe &#8211; INTELECTUAL BREGA: mot\u00e9is e trai\u00e7\u00f5es conjugais&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/em><\/strong><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 sempre, mas de vez em quando baixa em mim um gosto bizarro por coisas da chamada \u201ccultura cafona\u201d. Quando isso acontece, meu lado brega desperta e me domina. Ent\u00e3o, logo me vejo consultando o Google em busca de algumas baixarias musicais ditas \u201cdo pov\u00e3o\u201d. E olhe que a\u00ed entram a Valesca Poposuda (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Acredito em Deus\/ fa\u00e7o ele de escudo\/ Late mais alto que daqui eu n\u00e3o te escuto\/ Do camarote, quase n\u00e3o d\u00e1 pra te ver<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">), Wesley Safad\u00e3o (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o sei se \u00e9 amor\/ Se \u00e9 um caso, ou se \u00e9 um fica\/ Eu s\u00f3 sei que no final a gente se d\u00e1 bem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">). E haja Anitta, Thiaguinho, Tim\u00f3teo, Alcione. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pois \u00e9,&#8230; n\u00e3o consigo negar que este meu \u201clado B\u201d convive com minha imagem mais exposta, de s\u00f3brio professor de hist\u00f3ria, vi\u00favo respeit\u00e1vel, cidad\u00e3o aposentado que trata de temas sisudos e que fala de pol\u00edtica defendendo \u201cvelhas ideologias\u201d. O atroz desse enredo \u00e9 que ao voltar para a realidade dos meus dias de \u201cvelhinho de Taubat\u00e9\u201d me vejo desafiado a explica\u00e7\u00f5es. Como assim, me pergunto? As respostas brotam em cascatas. Logo vou construindo argumentos sociol\u00f3gicos, justificativas antropol\u00f3gicas e at\u00e9 desenvolvo contextos hist\u00f3ricos na base da cultura de massa e dos fundamentos p\u00f3s-modernos. Quando consigo dar l\u00f3gica a tudo isso, encontro o sentido da vida ordin\u00e1ria e recomponho meus lados opostos. Deixe-me exemplificar o que sucedeu ainda ontem&#8230; <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Andava eu cansado com a ladainha de desgra\u00e7as que acomete este nosso viver brasileiro &#8211; corrup\u00e7\u00e3o, greve, arranjos pol\u00edticos escusos, desemprego, assaltos, sequestros&#8230; Feito breve invent\u00e1rio de nosso desassossego, neguei o apre\u00e7o a Marx e dei asas a mais leg\u00edtima aliena\u00e7\u00e3o. Ah, como \u00e9 bom se deixar entorpecer pelo \u201c\u00f3pio do povo\u201d. Flanei e, sem pudor algum, me entreguei de corpo, alma e emo\u00e7\u00f5es. Coisa rara: passei uma tarde toda ouvindo m\u00fasicas \u201cdaquelas faixas\u201d. Prazerosamente largado \u2013 quase uma lux\u00faria \u2013 passava um a um pelos recentes sucessos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas&#8230; mas depois, aos poucos, fui notando a constru\u00e7\u00e3o de uma epopeia popular que, no fundo, traduzia dilemas cruciais das rela\u00e7\u00f5es modernas. Como a picardia faz parte daquele tipo de cancioneiro, fui trocando em mi\u00fado os dilemas comuns aos relacionamentos l\u00edquidos (Baumam, sempre ele) at\u00e9 que o esp\u00edrito controlado que habita em mim voltava a me acometer. Sem perceber, o tal lado circunspecto baixou e assim fui triando a sedu\u00e7\u00e3o dos cantares aparentemente tolos, dando lugar \u00e0 perversidade de ju\u00edzos racionais \u201cs\u00e9rios\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como estou falando com franqueza, devo dizer que o tema \u201cmotel\u201d me chamou a aten\u00e7\u00e3o e no eixo tem\u00e1tico \u201cvulgar\u201d, tr\u00eas grava\u00e7\u00f5es mais que todas. A primeira foi \u201cAventura no Motel\u201d de um tal de Duduzinho que contava para a companheira de trabalho \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Lembra aquele dia em que eu sai mais cedo\/ De fininho pra ningu\u00e9m desconfiar\/ Te orientei que se minha mulher ligasse\/ Perguntasse por mim voc\u00ea iria dichavar\/ Olha aquele dia era perfeito\/ O noivo dela viajando\/ Ela querendo eu n\u00e3o podia adiar\/ Fim do m\u00eas eu duro, sem dinheiro\/ Mesmo assim tava maneiro\/ Fiz a pose n\u00e3o deixei ela desconfiar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d A continuidade da hist\u00f3ria revela que a \u201cconvidada\u201d pediu de tudo \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">caviar e Chandon<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d e \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Pro meu azar a \u00fanica su\u00edte era a presidencial<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. Ainda que o final da noitada tenha sido bom, a mulher do sujeito descobriu pela fatura do cart\u00e3o de cr\u00e9dito e \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a casa caiu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d, pois \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">como eu vou me defender se estava escrito na fatura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. A moral da hist\u00f3ria \u00e9 conclusiva \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">agora eu to solteiro, quem mandou ser infiel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d e \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">pagar com meu cart\u00e3o minha aventura no motel<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O segundo caso foi tirado de um \u00e1lbum chamado Forr\u00f3 da Curti\u00e7\u00e3o e d\u00e1 conta de um flagra dado pela esposa que canta sob o t\u00edtulo \u201c50 reais\u201d na voz de Naiara Azevedo \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Bonito, que bonito hein\/ mais que cena mais linda\/ ser\u00e1 que eu estou atrapalhando o casalzinho ai\/ que lixo, voc\u00ea est\u00e1 de brincadeira\/ ent\u00e3o \u00e9 aqui o seu\/ futebol toda quarta feira?<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. E o enredo prossegue com o brado da esposa \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">e n\u00e3o precisa se vestir\/ eu j\u00e1 dei tudo que eu tinha te ver aqui<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d e se vale da met\u00e1fora do futebol para concluir \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">que decep\u00e7\u00e3o, 1 a 0 para minha intui\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d e justificando o sucesso estrondoso termina \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o sei se dou na cara dela para doer em voc\u00ea\/ mas eu n\u00e3o vim te atrapalhar, saudade de ti ver\/ e pra ajudar a pagar a Dama que lhe satisfaz\/ toma aqui cinquenta reais<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Existe um int\u00e9rprete chamado Mayrone Brand\u00e3o que canta \u201cSabonete de Motel\u201d. Devo dizer que esta \u00e9 imbat\u00edvel e revela que a esposa encontrou \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Ali, no porta luvas do meu carro, um objeto identificado\/ um sabonete num papel dourado<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. O sabonete revelava a trai\u00e7\u00e3o que era explicada pelo marido como engano porque \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">emprestei meu carro pra um amigo passear e ele n\u00e3o me disse que iria se encontrar\/ com a gar\u00e7onete daquele bar\/ n\u00e3o tenho nada a ver se eles trouxeram de l\u00e1\/ aquele objeto pra me complicar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. E ent\u00e3o entra um refr\u00e3o acelerado \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">o sabonete de motel, foi a brincadeira de um amigo meu\/ n\u00e3o deixe isso abalar, a nossa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pois bem, n\u00e3o se trata apenas de identificar machismos, trai\u00e7\u00f5es conjugais ou mulheres reagindo. Mais do que notar a constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria coletiva onde os relacionamentos s\u00e3o postos a ju\u00edzo, vale dizer que tais quest\u00f5es da \u00e9tica comportamental comum se colocam na ordem do dia, transformando os dilemas de relacionamentos como temas sociol\u00f3gicos. O que perturba mesmo, contudo, \u00e9 o fato de eu me deixar levar pela sinfonia musical que traduz tais quest\u00f5es.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14306,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,36],"tags":[],"class_list":["post-14305","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-lazer-e-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14305","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14305"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14305\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14307,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14305\/revisions\/14307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14305"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14305"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14305"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}