{"id":14227,"date":"2017-01-29T14:40:49","date_gmt":"2017-01-29T17:40:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14227"},"modified":"2017-01-29T14:40:49","modified_gmt":"2017-01-29T17:40:49","slug":"coluna-do-sebe-mudou-o-carnaval-ou-mudei-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/coluna-do-sebe-mudou-o-carnaval-ou-mudei-eu\/","title":{"rendered":"Coluna do Sebe: MUDOU O CARNAVAL, OU MUDEI EU?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pois \u00e9!!! O Carnaval est\u00e1 chegando&#8230; Como festa c\u00edclica, o tal \u201cReinado de Momo\u201d se anuncia mantendo a for\u00e7a do calend\u00e1rio e da tradi\u00e7\u00e3o que diz que o ano, realmente, come\u00e7a no Brasil depois do tr\u00edduo. De fato, houve um tempo em que o Carnaval regulava o in\u00edcio das aulas, a retomada do debate pol\u00edtico, a seriedade dos enfrentamentos protocolares comerciais. As coisas, contudo, est\u00e3o mudando muito. E num ritmo nada carnavalesco. Atualmente, as aulas n\u00e3o mais se iniciam antes da grande festa, o debate pol\u00edtico n\u00e3o pode esperar a quarta-feira de cinzas e as demandas econ\u00f4micas (IPTU, IPVA, escolas) tamb\u00e9m n\u00e3o mostram paci\u00eancia. Tudo est\u00e1 a\u00ed e \u00e9 urgente. Mas, ter\u00e1 mudado a ess\u00eancia do Carnaval? Parafraseando Machado de Assis ante a reflex\u00e3o natalina, pode-se perguntar: mudou o carnaval ou mudei eu? Foi com esta pergunta que meditei sobre o andamento do calend\u00e1rio corrente.<\/p>\n<p>Para todos, tornou-se f\u00e1cil exaltar o fim de 2016, um ano exageradamente complicado. Foi nesse embalo que a alegria abra\u00e7ou a esperan\u00e7a prenunciando que 2017 poderia \u2013 pelo menos \u2013 n\u00e3o ser t\u00e3o ruim. Mas, e o Carnaval com isso? Pois \u00e9, vejamos como se portariam as teorias explicadoras dos tais dias.<\/p>\n<p>Uma das chaves anal\u00edticas mais celebradas diz que durante o Carnaval se d\u00e1 uma permissividade que implica na invers\u00e3o do cotidiano. O antrop\u00f3logo Roberto DaMatta insiste em dizer que a liberdade calibrada d\u00e1 vaz\u00e3o a trocas onde a fantasia \u00e9 mediadora de possibilidades reprimidas: pobres podem virar ricos; homens se travestirem de mulheres e vice-versa; brancos podem ser escravos e ricos mendigos. Renato Ortiz, tamb\u00e9m antrop\u00f3logo, investe em tese contr\u00e1ria, mostra que, reverso da tese damattiana, o Estado n\u00e3o deixa de existir, a pol\u00edtica tem at\u00e9 mais trabalho, os hospitais funcionam e a ind\u00fastria do turismo aproveita para dimensionar lucros justificadores da folia. S\u00e3o vers\u00f5es muito diferentes. Ainda que o assunto seja palpitante e convide a opini\u00f5es polarizadas, \u00e9 ineg\u00e1vel o questionamento que permite perguntar: mas, o que h\u00e1 de novo no Carnaval deste ano? O que dizem os preparativos? Afinal, vale mais a tese de DaMatta com a evoca\u00e7\u00e3o quase rom\u00e2ntica da catarse, ou, pelo contr\u00e1rio, vigora a suposi\u00e7\u00e3o de Ortiz que pontifica a recrudesc\u00eancia da ordem que, ali\u00e1s, se refaz exatamente por permitir o refor\u00e7o do sistema no contexto?<\/p>\n<p>O modelo carioca de celebra\u00e7\u00e3o, por variado e mim\u00e9tico que possa ser, ainda prevalece. Seja nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua, nos sal\u00f5es, nos grandes desfiles das escolas de samba ou blocos; nos concursos de fantasias ou nas matin\u00e9s infantis, \u00e9 v\u00e1lido repetir que a festa mant\u00e9m matriz genuinamente carioca.<\/p>\n<p>Sa\u00fada-se a manifesta\u00e7\u00e3o baiana, mineira, pernambucana, catarinense \u2013 sem deixar de lado a refer\u00eancia a S\u00e3o Luiz do Paraitinga \u2013 e outras tantas, mas n\u00e3o h\u00e1 como deixar a men\u00e7\u00e3o m\u00e1xima ao Rio de Janeiro. E ent\u00e3o, qual o recado de agora? E, principalmente, qual o endere\u00e7o cr\u00edtico dado pelas ruas?<\/p>\n<p>Sim, sobremaneira valoriza-se o crescimento desmedido das manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. E n\u00e3o h\u00e1 como deixar de lado o registro de \u201ccerca de 500 blocos\u201d consignados pela Associa\u00e7\u00e3o Sebastiana, entidade que congrega os cord\u00f5es. E por falar em reuni\u00e3o de gente na rua, no Carnaval, temos que lembrar que o Cord\u00e3o do Bola Preta, a Banda de Ipanema, a Simpatia e quase amor, agremia\u00e7\u00f5es que chegam a reunir, cada uma, centenas de milhares de pessoas. Tais dados refor\u00e7am a pergunta: mas mudou o sentido da festa?<\/p>\n<p>Vejamos rapidamente: preside o teor cr\u00edtico, sim; mant\u00e9m-se a tradi\u00e7\u00e3o da irrever\u00eancia e revela\u00e7\u00e3o de desagrado, n\u00e3o se abdica da picardia, mas&#8230; Mas h\u00e1 estranhezas a serem consideradas. N\u00e3o deixa de ser bizarro, por exemplo, este ano, saber que o encerramento dos dias mom\u00edsticos cariocas ser\u00e1 feito pela \u201cBanda Eva\u201d, da Bahia. Ali\u00e1s, esta mesma banda estar\u00e1 presente no dia anterior no desfile da Grande Rio, que tem Ivete Sangalo como tema.<\/p>\n<p>Mas, curiosamente, tal mimetismo n\u00e3o tira a gra\u00e7a da sutileza cr\u00edtica. Sem d\u00favidas, o que se nota de mais entusiasmante na cena carnavalesca atual \u00e9 a presen\u00e7a crescente do povo na rua e, neste sentido, uma mostra pode ser vista pelo refr\u00e3o do Bloco Meu Bem Volto J\u00e1 que diz com clara malimol\u00eancia \u201c<em>sem medo de construir nosso destino\/ Temer jamais, Temer jamais\/ \u00d4, d\u00e1 licen\u00e7a seu prefeito, sarava\/ \u00c9 Prata Preta, Escravos, Olokum\/ E a Terreirada que vem l\u00e1 do Cear\u00e1<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o, o Carnaval pode estar mudando sim, mas n\u00e3o na ess\u00eancia; ele continua irreverente, continua com o povo na rua e se deixa modernizar incorporando outras manifesta\u00e7\u00f5es. Tudo antropofagicamente. E isto enlouquece interpreta\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy &nbsp; Pois \u00e9!!! 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