{"id":14105,"date":"2016-12-21T14:01:12","date_gmt":"2016-12-21T17:01:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14105"},"modified":"2016-12-21T14:01:52","modified_gmt":"2016-12-21T17:01:52","slug":"mas-ainda-teremos-natais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/mas-ainda-teremos-natais\/","title":{"rendered":"MAS (AINDA) TEREMOS NATAIS?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Confesso que n\u00e3o gosto da atitude sistematizada de antecipa\u00e7\u00e3o do Natal. Mais que isso: detesto. Eu sempre cuidei de comprar os presentes ao longo do ano, mas era uma atitude individual, gostosa, que fazia ao ritmo da espontaneidade pessoal, n\u00e3o como um mandamento coletivo, orquestrado pelo consumismo ativado. Dizem os especialistas que, devido \u00e0 crise econ\u00f4mica \u2013 sempre ela! \u2013, os comerciantes estrategicamente se apressaram na decora\u00e7\u00e3o e aceleram as propagandas como se a \u201cnoite feliz\u201d fosse logo mais, algo como um \u201cdepois de amanh\u00e3\u201d. \u00c9 demais. Mesmo as crian\u00e7as j\u00e1 naturalizaram o grande dia que se instalou no cotidiano como marca sem sentimento, como quest\u00e3o de mercado. E assim, perde-se o encanto do tempo certo. Nessa leva, o festejo (des) esperado fica chato, arrastado, ainda mais previs\u00edvel. O rel\u00f3gio m\u00e1gico das surpresas se descontrola quebrando at\u00e9 as agonias dos presentes de \u201c\u00faltima hora\u201d do \u201ccorre-corre\u201d que justifica reportagens antes repetidas nos notici\u00e1rios. Abastardaram-se as emo\u00e7\u00f5es, diria entristecido.<\/p>\n<p>Mesmo supondo alguma positividade econ\u00f4mica e comercial nesse deslocamento celebrativo, n\u00e3o vejo gra\u00e7a alguma na troca da festa pela rotina afrouxada, pelos presentes adquiridos com antecipa\u00e7\u00e3o e quase sempre anunciados. Lentes de aumento evidenciam que tudo se d\u00e1 por raz\u00f5es econ\u00f4micas, de giro de mercado, de aumento da oferta de trabalho, e n\u00e3o por escolhas fecundadas no segredo das inten\u00e7\u00f5es, cultivadas na guarda at\u00e9 o dia exato. Acabaram com a minha festa particular, com a originalidade da atitude rec\u00f4ndita. A institucionaliza\u00e7\u00e3o dos preparativos empobrece o preparo em mais de uma dire\u00e7\u00e3o. Quem, por exemplo, ficar\u00e1 maravilhado com a prepara\u00e7\u00e3o da \u00c1rvore de Natal rec\u00e9m posta na sala? De t\u00e3o usadas, as luzes podem se queimar com o tempo, e \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel ter que limpar os enfeites que acumular\u00e3o p\u00f3. E os pres\u00e9pios e demais arranjos em verde e vermelho? Ah!, que pena!!!&#8230;<\/p>\n<p>Mas, envelhecendo, pensando na contagem regressiva dos Natais que me restam, dei asas \u00e0s possibilidades acalentadoras de promover novas escolhas. Fiz um longo exerc\u00edcio de compatibilidade com tais moderniza\u00e7\u00f5es e cheguei a um ponto satisfat\u00f3rio. Ainda que tenha acumulado boa parte dos presentes que pretendo dar a familiares e amigos, resolvi que meu protesto ser\u00e1 tamb\u00e9m pessoal e, ainda que silente, o farei no triunfo do posicionamento singular. Deixarei tudo que falta para a \u00faltima hora. Afora o que j\u00e1 adquiri, guardarei a expectativa para reinventar a tens\u00e3o. Tentarei tamb\u00e9m evitar a contempla\u00e7\u00e3o das decora\u00e7\u00f5es antecipadas, n\u00e3o me deterei nos adornos ou arranjos, n\u00e3o me deixarei seduzir pelas ofertas e liquida\u00e7\u00f5es e tentarei viver como se estivesse num tempo deslocado, imagin\u00e1rio, ut\u00f3pico mesmo, algo como se fosse o ins\u00edpido m\u00eas de mar\u00e7o, por exemplo. Como se fora um protesto calado, educo-me para passar ileso pelos corredores de shoppings, pelas vitrines que me atrairiam na normalidade dos dias. Tudo em favor do respeito que devo \u00e0 mem\u00f3ria do que foram meus Natais.<\/p>\n<p>Sabe o que aprendi com esta reflex\u00e3o? Sabe? Retomei lembran\u00e7as de um Natal espec\u00edfico em que ganhei de pessoa querida, um professor que muito me influenciou um livro com os sonetos de Machado de Assis, dentre os quais estava o famoso &#8220;Soneto de Natal&#8221;. Mas, muito mais importante que o conte\u00fado s\u00e1bio contido nos versos, o cart\u00e3o que acompanhava o mimo dizia: \u201c&#8230; \u00e9 importante ver que Machado tamb\u00e9m teve um lado desconhecido, seus poemas\u201d. Reli os versos, com os quais encerro esta cr\u00f4nica e dilato a proposta do professor querido: os Natais mudaram, eu preciso tamb\u00e9m mudar. E ent\u00e3o leiamos juntos o tal \u201cSoneto de Natal&#8221;: <em>Um homem, \u2014 era aquela noite amiga\/ Noite crist\u00e3, ber\u00e7o no Nazareno, \u2014\/ Ao relembrar os dias de pequeno,\/ \u00a0E a viva dan\u00e7a, e a l\u00e9pida cantiga,\/ Quis transportar ao verso doce e ameno\/ As sensa\u00e7\u00f5es da sua idade antiga,\/ Naquela mesma velha noite amiga, \/ Noite crist\u00e3, ber\u00e7o do Nazareno. Escolheu o soneto&#8230; A folha branca Pede-lhe a inspira\u00e7\u00e3o; mas, frouxa e manca, A pena n\u00e3o acode ao gesto seu. E, em v\u00e3o lutando contra o metro adverso, S\u00f3 lhe saiu este pequeno verso: &#8220;Mudaria o Natal ou mudei eu?&#8221;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14106,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,36],"tags":[],"class_list":["post-14105","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-lazer-e-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14105"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14105\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14108,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14105\/revisions\/14108"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14106"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}