{"id":14074,"date":"2016-12-14T19:12:01","date_gmt":"2016-12-14T22:12:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=14074"},"modified":"2016-12-14T19:16:28","modified_gmt":"2016-12-14T22:16:28","slug":"coragem-e-mansidao-jose-neumanne-escreve-sobre-dom-paulo-evaristo-arns-que-morreu-hoje-aos-95-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/coragem-e-mansidao-jose-neumanne-escreve-sobre-dom-paulo-evaristo-arns-que-morreu-hoje-aos-95-anos\/","title":{"rendered":"Coragem e mansid\u00e3o &#8211; Jos\u00e9 N\u00eaumanne escreve sobre Dom Paulo Evaristo Arns, que morreu hoje aos 95 anos"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Dom Paulo, Sobel, Wright e Aud\u00e1lio derrubaram a ditadura rezando por Herzog na S\u00e9<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jos\u00e9 N\u00eaumanne*<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Ouvi a not\u00edcia no r\u00e1dio do carro pela doce voz de Alessandra Romano. A primeira rea\u00e7\u00e3o foi de espanto. Ent\u00e3o, dom Paulo era mesmo mortal como n\u00f3s? Logo em seguida, fui assaltado por uma imensa frustra\u00e7\u00e3o. Meu her\u00f3i se foi. Nunca mais vou ter a oportunidade de lhe dar o abra\u00e7o que nunca compartilhamos, sorver o caf\u00e9 \u00e0 mesa comum, que dever\u00edamos ter tomado, conversar sobre a intoler\u00e2ncia vigente, que amea\u00e7a tornar o Brasil um territ\u00f3rio em guerra permanente contra a honra, a \u00e9tica e a toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Cotinthiano.jpg\"><br \/>\n<\/a>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Pois, ent\u00e3o: cheguei a S\u00e3o Paulo em 1970, \u00e0 \u00e9poca em que ele assumiu a arquidiocese mais populosa do Pa\u00eds. Nunca tivemos proximidade nenhuma, ao contr\u00e1rio de muitos jornalistas que o acompanhavam de perto, rotineiramente. Convivi com alguns deles: primeiro, na Folha, com JB Natali J\u00fanior; depois, no Jornal do Brasil, com Maria In\u00eas Caravaggi; e, tamb\u00e9m, numa confer\u00eancia da CNBB, em Itaici, com Ricardo Rodrigues de Carvalho, que deu em mim um furo memor\u00e1vel, daqueles de acabar com a exagerada autoestima de qualquer rep\u00f3rter precoce.<\/p>\n<p>Neste momento, presto tamb\u00e9m minha homenagem a Evaldo Dantas Ferreira, o Ti\u00e3o Medonho, que dirigia O S\u00e3o Paulo, jornal da C\u00faria Metropolitana e, nesta condi\u00e7\u00e3o, representou o arcebispo na negocia\u00e7\u00e3o para obter uma reportagem sobre os instrumentos de tortura no DOI-Codi da rua Tutoia, aproveitando valiosas informa\u00e7\u00f5es do valoroso comunista Marco Ant\u00f4nio Tavares Coelho, publicadas na Folha por Boris Casoy e no Jornal do Brasil por JB Lemos e por mim. Quem viveu aqueles tempos sabe da dor e da agonia que viv\u00edamos para n\u00e3o nos alvitarmos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-o-educador-Paulo-Freire.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14079\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-o-educador-Paulo-Freire.jpg\" alt=\"Com o educador Paulo Freire\" width=\"271\" height=\"186\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<em><strong>Com o educador Paulo Freire<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Estes colegas, assim como Ricardo Kotscho, tiveram a honra de t\u00ea-lo como amigo, chegando at\u00e9 \u00e0 intimidade com o dignit\u00e1rio cat\u00f3lico que se orgulhava de seu amor por Deus, sua paix\u00e3o pelo Corinthians e sua condi\u00e7\u00e3o de amigo do povo, mais at\u00e9 que de pastor.<\/p>\n<p>Eu fui apenas um admirador \u00e0 dist\u00e2ncia. Conheci sua coragem e sua mansid\u00e3o nos anos brutais da ditadura. Testemunhei e participei da cobertura do acontecimento hist\u00f3rico mais importante da democracia na Rep\u00fablica brasileira: o culto ecum\u00eanico que ele celebrou na S\u00e9 ao lado de um rabino e de um pastor presbiteriano em mem\u00f3ria do colega Vladimir Herzog, assassinado nas masmorras da ditadura. Aquele foi o momento crucial da resist\u00eancia civil, o primeiro grande ato de independ\u00eancia de um povo tratado como gado e que, enfim, tinha resolvido se libertar.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-D-Helder-Camara.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14078\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-D-Helder-Camara-450x278.jpeg\" alt=\"Com D Helder Camara\" width=\"450\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-D-Helder-Camara-450x278.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-D-Helder-Camara-300x186.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-D-Helder-Camara-768x475.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Com-D-Helder-Camara.jpeg 970w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ao lado de Dom Helder C\u00e2mara quando recebeu t\u00edtulo de doutor honoris vausa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A ditadura militar de 1964, recrudescida na virada dos anos 60 para os 70, enganava o povo com a ilus\u00e3o do milagre econ\u00f4mico, enquanto massacrava os grupos de jovens de extrema esquerda sob tortura no pau de arara, a rajadas de metralhadoras em quart\u00e9is e delegacias clandestinas, em tiroteios forjados nas ruas ou por sufocamento, como aconteceu com Herzog. Mas era uma guerra suja contra radicais do lado oposto e esse argumento canalha mantinha im\u00f3vel a maioria silenciosa, entorpecida e apavorada.<\/p>\n<p>Vladimir Herzog, contudo, n\u00e3o era um jovem radical treinado em escaramu\u00e7as de guerrilha em Cuba, mas um pai de fam\u00edlia de meia idade prestes a aderir aos c\u00e2nones do velho Partid\u00e3o Comunista, o Peceb\u00e3o, da linha sovi\u00e9tica, e que dirigia o Departamento de Jornalismo da TV Cultura de S\u00e3o Paulo. Foi ca\u00e7ado para criar embara\u00e7os para o poss\u00edvel sucessor civil do general Geisel, o favorito da chamada Sorbonne, como era conhecida a Escola Superior de Guerra. E foi preso para comprometer o chefe, Jos\u00e9 Mindlin, que era secret\u00e1rio de Cultura, e o superior hier\u00e1rquico deste, Paulo Egydio Martins, governador de S\u00e3o Paulo e escolhido pelo general para concretizar a abertura lenta e gradual da ditadura rumo \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. Os torturadores cometeram um \u201cacidente de trabalho\u201d e Vlado morreu. Naquele momento dif\u00edcil, quatro homens se destacaram: o arcebispo de S\u00e3o Paulo, dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, da ordem franciscana e catarinense; o pastor presbiteriano James Edson Wright, paranaense de Curitiba; o rabino Henry Isaac Sobel, norte-americano nascido em Lisboa; e o jornalista alagoano Aud\u00e1lio Dantas. Dos quatro s\u00f3 esse rep\u00f3rter, que aprendi a admirar lendo suas hist\u00f3rias nas p\u00e1ginas da revista O Cruzeiro, ainda pode testemunhar o que aqui registro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Cotinthiano.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-14080\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Cotinthiano.jpg\" alt=\"Cotinthiano\" width=\"215\" height=\"234\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Apaixonado pelo Corinthians<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Os tr\u00eas religiosos convocaram os fi\u00e9is para um culto ecum\u00eanico na S\u00e9. As tropas fecharam os acessos \u00e0 catedral g\u00f3tica de S\u00e3o Paulo. Mas a multid\u00e3o superlotou o templo e, \u00e0 sa\u00edda, o anfitri\u00e3o, munido de apenas duas armas, a coragem e a mansid\u00e3o, instruiu aos fi\u00e9is de todos os credos a n\u00e3o terem pressa, sa\u00edrem devagar e n\u00e3o responderem a provoca\u00e7\u00f5es. Ele foi o grande inspirador que se associou aos verdadeiros demolidores do regime autorit\u00e1rio, que combateram a guerra parlamentar: Ulysses Guimar\u00e3es, M\u00e1rio Covas, Tancredo Neves, Thales Ramalho, Paulo Brossard e muitos outros. Estes, sim, resistiram com civismo e n\u00e3o receberam medalhas de louvor nem nunca foram tratados como her\u00f3is da liberdade, embora o fossem.<\/p>\n<p>Agora que nosso bispo foi sem nosso abra\u00e7o, sem nosso cafezinho, sem nosso papo em voz baixa, n\u00e3o posso mais lhe contar que nunca me esquecerei de sua imagem conduzindo o rebanho para fora da igreja monumental e para dentro da Hist\u00f3ria. Ali o Brasil enterrou a longa noite das trevas e flertou com a liberdade. Sobel teve a ousadia de sepultar Herzog, tido como suicida, no campo santo fora do territ\u00f3rio dos judeus que tiraram a pr\u00f3pria vida, desafiando a vers\u00e3o militar. E dom Paulo ficou sendo o meu her\u00f3i do s\u00e9culo, um esp\u00e9cie de Mahatma Gandhi americano de uma fam\u00edlia de colonos alem\u00e3es. Ele minou a ditadura sem disparar um tiro, sem abandonar a f\u00e9 e a compaix\u00e3o, sem nunca erguer a voz. Nunca contou lorotas nem vantagens. Morreu sem conhecer o sentido da palavra marketing, mas dominou plenamente a pol\u00edtica que n\u00e3o precisa do conflito feroz entre desiguais para se assenhorear de um poder de ilus\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Foto-mais-recente.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-14081\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Foto-mais-recente-450x319.jpg\" alt=\"Foto mais recente\" width=\"450\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Foto-mais-recente-450x319.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Foto-mais-recente-300x212.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Foto-mais-recente.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Por ocasi\u00e3o de seu 95\u00ba anivers\u00e1rio, no dia 14 de setembro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Dom Paulo faz falta neste momento em que os vendilh\u00f5es da P\u00e1tria trocaram seu poder pela moeda torpe da propina. Mas algo me diz que ele saiu de cena para chamar a aten\u00e7\u00e3o para seu exemplo de pacificador nesta guerra s\u00f3rdida por podres poderes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>O te\u00f3logo Fernando Altermeyer J\u00fanior disse a Alessandra que Dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, amava todos os que o procuravam. E sempre se despedia deles, amigos fi\u00e9is ou meros circunstantes, dando-lhe um violento tapa nas costas, admoestando: \u201cCoragem, vamos em frente\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00c9 s\u00f3 isso que tenho a lhes dizer agora: coragem, vamos em frente!<\/em><\/p>\n<p>*Jornalista, poeta e escritor<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>NR: Dom Evaristo Arns tinha 95 anos completados em 14 de setembro de 2016<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Paulo, Sobel, Wright e Aud\u00e1lio derrubaram a ditadura rezando por Herzog na S\u00e9 Jos\u00e9 N\u00eaumanne* \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14077,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-14074","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jose-neumanne-pinto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14074"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14084,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14074\/revisions\/14084"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14077"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}