{"id":13926,"date":"2016-11-27T10:58:08","date_gmt":"2016-11-27T13:58:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=13926"},"modified":"2016-11-27T14:14:36","modified_gmt":"2016-11-27T17:14:36","slug":"a-construcao-do-saci-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-construcao-do-saci-brasileiro\/","title":{"rendered":"A CONSTRU\u00c7\u00c3O DO SACI BRASILEIRO"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Tendo como fio condutor a medita\u00e7\u00e3o sobre o Saci, hoje t\u00e3o recriado e propagado em diferentes suportes, me perguntava se seria poss\u00edvel explicar suas muta\u00e7\u00f5es, vistas dialeticamente, na rela\u00e7\u00e3o mudan\u00e7as X resist\u00eancias<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>por Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>jcarlosbm@hotmail.com<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A proposta ia se firmando na medida em que partia de um pressuposto que reconhecia, no passado, um Saci amedrontador &#8211; ente das florestas tem\u00edveis e inconquist\u00e1veis, dono de assovio t\u00e9trico e ensurdecedor -, at\u00e9 a formula\u00e7\u00e3o de um simp\u00e1tico personagem &#8211; menino maroto, mulato gracioso, perfeitamente integrado no gosto nacional. Dizendo de outra forma, me inquiria sobre a coer\u00eancia entre tais varia\u00e7\u00f5es e o \u201cjeito male\u00e1vel\u201d que, de regra, nos remete \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o da cultura brasileira como: incruenta, sem viol\u00eancia ou preconceito, esvaziada de agressividades e, sobretudo, destitu\u00edda de percep\u00e7\u00f5es de luta de classes. Haveria rela\u00e7\u00e3o entre as transforma\u00e7\u00f5es do Saci e o \u201cjeitinho brasileiro\u201d?<\/p>\n<p>Frente a esse questionamento, aprofundava a quest\u00e3o indagando sobre sua aproxima\u00e7\u00e3o e o processo de mesti\u00e7agem, e, ent\u00e3o queria saber de onde teria vindo a lenda do Saci? Das tr\u00eas alternativas mais usuais \u2013 ind\u00edgena, africana ou europeia \u2013 tive que prezar todas. Pensei de sa\u00edda que, ante a impossibilidade de precis\u00e3o, me era obrigat\u00f3rio apoiar, comodamente, no conceito de \u201cmetamorfose\u201d. Pensando na gravidade da leitura cr\u00edtica sobre tal posicionamento, restou apelar para o cen\u00e1rio antropof\u00e1gico que caracteriza a moderna percep\u00e7\u00e3o da cultura brasileira como um todo. Sim, \u00e9 ineg\u00e1vel que a imprecis\u00e3o da origem de figuras como o Saci leva \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de um modelo hegem\u00f4nico que se materializa na conceitua\u00e7\u00e3o do que \u00e9 nacional. Nesse contexto, reina a estrat\u00e9gia das negocia\u00e7\u00f5es, ou da incorpora\u00e7\u00e3o e da revers\u00e3o de tudo que vem \u201cde fora\u201d em nacional, brasileiro. Em certa medida, isto explicaria a preocupa\u00e7\u00e3o de Lobato que foi pioneiro na busca de defini\u00e7\u00e3o do sentido do Saci em nossa cultura. Mas, como nem s\u00f3 do \u201c<strong><em>Inqu\u00e9rito sobre o Saci<\/em><\/strong>\u201d se nutre a argumenta\u00e7\u00e3o, me vi na conting\u00eancia de complementos informativos.<\/p>\n<p>A fim de dar contorno anal\u00edtico para a constru\u00e7\u00e3o do Saci como personagem nacional, parti do pressuposto de que hoje ele \u00e9 figura palat\u00e1vel, aceito, principalmente fabricado para crian\u00e7as, ainda que a oficialidade se valha dele como refer\u00eancia \u201cexaltativa\u201d, atestado de certa brasileiridade nacionalista e malandra. Fala-se, ali\u00e1s, de uma dupla infantiliza\u00e7\u00e3o: do Saci adulto, negro raivoso, senhor das matas, tornado menino arteiro; e dele como personagem destinado ao entretenimento. As duas faces dessa moeda negociam um longo processo de apresamento e constru\u00e7\u00e3o do personagem, estabelecido segundo a imagem e semelhan\u00e7a da cultura que atesta o perfil brasileiro negociador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_13928\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Saci-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13928\" class=\"size-large wp-image-13928\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Saci-1-290x450.jpg\" alt=\"Abre o artigo, ilustra\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Wash Rodrigues para a capa do livro adulto 'O saci-Perer\u00ea: Resultado de um Inqu\u00e9rito' por Monteiro Lobato. Acima, ilustra\u00e7\u00e3o em nanquim feita por Monteiro Lobato para o seu livro infantil 'O Saci'\" width=\"290\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Saci-1-290x450.jpg 290w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Saci-1-193x300.jpg 193w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Saci-1.jpg 419w\" sizes=\"auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13928\" class=\"wp-caption-text\">Abre o artigo, ilustra\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Wash Rodrigues para a capa do livro adulto &#8216;O saci-Perer\u00ea: Resultado de um Inqu\u00e9rito&#8217; por Monteiro Lobato. Acima, ilustra\u00e7\u00e3o em nanquim feita por Monteiro Lobato para o seu livro infantil &#8216;O Saci&#8217;<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro elemento consider\u00e1vel nesta an\u00e1lise \u00e9 o fato desse personagem caminhar progressivamente como tema pedag\u00f3gico, l\u00fadico, e, nesse processo, validado como estrat\u00e9gia ideol\u00f3gica, se confirmaria o princ\u00edpio da antropofagia, pois a imagem que hoje temos do Saci \u00e9 de uma figura transformada. Sem d\u00favida, o padr\u00e3o dado pela Rede Globo de Televis\u00e3o nas v\u00e1rias vers\u00f5es do programa \u201c<strong><em>S\u00edtio do pica pau amarelo<\/em><\/strong>\u201d mostra um garoto negrinho, de uma s\u00f3 perna, capuz e cal\u00e7a vermelhos, mas pouco assustador. O Saci de nossos dias, n\u00e3o \u00e9 mais o maldoso ente que atormentava a todos, mas um cativante tipo que faz suas travessuras engra\u00e7adas. De maneira sorrateira, em favor do \u201cpoliticamente correto\u201d, foram aliviados o olhar amea\u00e7ador e retirado o \u201cconden\u00e1vel\u201d pito\/cachimbo, n\u00e3o mais solta fuma\u00e7a pelos olhos.<\/p>\n<p>Talvez, os mais convincentes argumentos demonstrativos do processo de \u201cadocica\u00e7\u00e3o\u201d do Saci e de seu endere\u00e7o para uma cultura infantilizante sejam as leituras procedidas tanto por Maur\u00edcio de Souza como por Ziraldo que o tornaram personagem de Quadrinhos.\u00a0 Por l\u00f3gico, tudo ocorreu em conson\u00e2ncia com as s\u00e9ries patrocinadas pela televis\u00e3o nos epis\u00f3dios do \u201c<strong><em>S\u00edtio<\/em><\/strong>\u201d. A importante sequ\u00eancia de hist\u00f3rias feitas para crian\u00e7as, no Brasil, se inaugurou em 1952, na TV Tupi. O programa ficou no ar por 11 anos, se constituindo enorme sucesso. Em 1964, na abertura da ditadura militar, o programa infantil que contextualizava o Saci ganhou vers\u00e3o da TV Cultura de S\u00e3o Paulo e, em 1967, na TV Bandeirantes. Ainda que com intervalos, de 1977 a 1986, a Rede Globo de Televis\u00e3o produziu o \u201c<strong><em>S\u00edtio<\/em><\/strong>\u201d, com destaque para a presen\u00e7a do Saci.<\/p>\n<p>Estava ent\u00e3o caracterizado o novo Saci, nascido para entreter, n\u00e3o mais para criar problemas. E a figura do negrinho domesticado estava fixada, feliz ou infelizmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tendo como fio condutor a medita\u00e7\u00e3o sobre o Saci, hoje t\u00e3o recriado e propagado em diferentes suportes, me perguntava se seria poss\u00edvel explicar suas muta\u00e7\u00f5es, &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13927,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,36],"tags":[],"class_list":["post-13926","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-lazer-e-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13926","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13926"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13926\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13929,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13926\/revisions\/13929"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13927"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13926"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13926"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13926"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}