{"id":13826,"date":"2016-11-06T17:37:29","date_gmt":"2016-11-06T20:37:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=13826"},"modified":"2016-11-06T17:37:29","modified_gmt":"2016-11-06T20:37:29","slug":"o-voto-util-de-lula-dilma-e-chico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-voto-util-de-lula-dilma-e-chico\/","title":{"rendered":"O voto \u00fatil de Lula, Dilma e Chico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><b><\/b><b><i>Os tr\u00eas s\u00f3 querem votar se for pra vencer: a democracia \u00e9 uma inoc\u00eancia in\u00fatil<\/i><\/b><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na era pr\u00e9-PT, a esquerda s\u00f3 conseguia se reunir em paz nas masmorras da ditadura. Assim foi no Estado Novo de Vargas e tamb\u00e9m no regime autorit\u00e1rio militar e civil, que emergiu do golpe que derrubou o vice no poder, Jango Goulart. E terminou na guerra suja das ruas depois da vig\u00eancia do Ato 5, que ensanguentou o \u201cao vencedor as batatas\u201d de Machado de Assis ao transform\u00e1-lo no cruento \u201c\u00e0s favas com os escr\u00fapulos\u201d do coronel Passarinho e da tortura sob o torcedor M\u00e9dici. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Metralhada nas greves e em manifesta\u00e7\u00f5es de rua, torturada nos por\u00f5es e abatida a baionetas, a esquerda militante foi se esconder no exterior e ali descobriu que n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de impor as pr\u00f3prias ideias socialistas \u00e0 m\u00e3o armada. Foi ent\u00e3o que resolveu recolher o rabo entre as pernas e conquistar o poder pelo voto na velha, boa e execrada democracia burguesa. Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores (PT) reuniu tr\u00eas correntes principais, mas logo seguiu a tradi\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o inevit\u00e1vel, fragmentada em v\u00e1rias tend\u00eancias. De in\u00edcio, esses tr\u00eas troncos eram constitu\u00eddos pelos l\u00edderes do chamado sindicalismo aut\u00eantico dos dirigentes sem compromissos com o Partido Comunista Brasileiro (os comunas), pelas comunidades eclesiais de base da Igreja Cat\u00f3lica (os \u201cpadres de passeata e freiras de minissaia\u201d de N\u00e9lson Rodrigues) e pelos ex-guerreiros das mil\u00edcias comunistas, pretendentes a \u201cher\u00f3is do povo brasileiro\u201d. Os primeiros desprezavam o voto por sua inutilidade pr\u00e1tica. Os te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o nunca viram nele a reden\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica da humanidade. E os antigos exilados sempre o consideraram uma excresc\u00eancia burguesa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O partido que os reuniu viveu em permanente d\u00favida sobre o cons\u00f3rcio entre a \u00fanica maneira de chegar ao poder e a sedu\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara de encurtar o caminho para os cofres p\u00fablicos evitando as encruzilhadas da vol\u00favel vontade popular. A lideran\u00e7a do ex-sindicalista metal\u00fargico Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, conquistada \u00e0 base de esperteza, malandragem e carisma, encurtou a peregrina\u00e7\u00e3o pela via eleitoral e permitiu o uso de uma t\u00e1tica revolucion\u00e1ria dos grupos de esquerda, infiltrando-se pelas brechas \u00e0 m\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es do fr\u00e1gil Estado Democr\u00e1tico de Direito. Mas amor pelo voto nunca nenhum petista de responsa teve na vida. Por que agora, em plena travessia aziaga da crise que eles pr\u00f3prios produziram, descobririam nele algum cond\u00e3o que n\u00e3o fosse simplesmente perpetuar-se no comando da desordem p\u00fablica empunhando as gazuas do poder? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nas priscas eras da saga do assalto \u00e0 Rep\u00fablica, o l\u00edder m\u00e1ximo fez das cabines para votar palanques finais de suas disputas eleitorais. Nas perdidas numa estadual e em tr\u00eas presidenciais, o metal\u00fargico usou sua t\u00eampera mineral para visar a vit\u00f3ria fat\u00eddica. E nunca faltou a um compromisso c\u00edvico, envergando o macac\u00e3o de grevista, a camiseta rubra do militante ou a gravata vistosa do mandarim republicano. Agora chegou a vez de chutar a urna. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 1988 ensaiou a primeira rebeldia, negando-se a assinar a Constitui\u00e7\u00e3o que deu vida \u00e0 democracia de verdade, depois da longa noite autorit\u00e1ria e da transi\u00e7\u00e3o para o direito do voto universal. Terminou pondo o jameg\u00e3o no documento dito cidad\u00e3o por seu autor maior, Ulysses Guimar\u00e3es, por lhe faltar coragem para enfrentar o vener\u00e1vel anci\u00e3o. A vingan\u00e7a contra a autoridade moral do velho timoneiro tardou, mas chegou. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 30 de outubro de 2016, o fazedor de postes faltou ao encontro com a urna por n\u00e3o ter em quem votar. Compareceu no primeiro turno para sufragar o companheiro Tarc\u00edsio Secoli, que n\u00e3o chegou ao segundo. E ele teria de escolher entre Orlando Morando, do PSDB, e Alex Manente, do PPS. Um tucano e um comunista golpistas. Podia votar nulo. Podia votar em branco. Mas Lula preferiu faltar. N\u00e3o votou em ningu\u00e9m. Mais tarde, o instituto que leva seu nome explicou que, aos 71 anos, ele n\u00e3o tinha a obriga\u00e7\u00e3o de votar. Mas tendo Lula \u00e2nsia de vencer sempre, dane-se o eleitor que n\u00e3o escolheu seu companheiro. Dane-se o Estado Democr\u00e1tico de Direito, que desta vez n\u00e3o o atendeu. Dane-se o Pa\u00eds, que j\u00e1 se tinha se danado mesmo nos 13 anos, 4 meses e 12 dias sob a \u00e9gide de seus governos e de sua afilhada e sucessora, Dilma Rousseff. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por falar na ex-presidente, ela, mais uma vez, seguiu os passos do padrinho, antecessor e patrono, fugindo da urna como o diabo sempre escapuliu da cruz. Madame vota em Porto Alegre, onde Raul Pont, do PT, foi expelido da disputa final do segundo turno pelo eleitorado. E o mesmo caminho tomou outra poss\u00edvel candidata da ex, Luciana Genro, do PSOL. Sobraram o surpreendente Marchezan J\u00fanior, do PSDB, e Sebasti\u00e3o Melo, do PMDB, ambos dos principais partidos \u201cgolpistas\u201d. Ela foi a Belo Horizonte visitar a m\u00e3e, com quem n\u00e3o se d\u00e1 e que est\u00e1 doente. N\u00e3o \u00e9 fofa? N\u00e3o se sabe, e nunca se saber\u00e1, se seu s\u00fabito afeto filial melhorou o estado de sa\u00fade da alquebrada genitora. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lula e Dilma, na certa, n\u00e3o aprenderam que o exerc\u00edcio dos direitos pol\u00edticos \u00e9 feito em duas dire\u00e7\u00f5es: votar e ser votado. Talvez achem que voto s\u00f3 serve para vencer. N\u00e3o era o que ela argumentava, teimosamente, para tentar desqualificar o processo de impeachment, insistindo no respeito ao voto, que ela n\u00e3o exerceu no segundo turno? Mas a quem importa agora? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra personalidade importante que se recusou a votar no segundo turno foi a ex-unanimidade nacional Chico Buarque de Hollanda. Este viajou para Paris, em vez de comparecer \u00e0 sua se\u00e7\u00e3o de vota\u00e7\u00e3o na Zona Sul do Rio de Janeiro para tentar reduzir a diferen\u00e7a entre seu candidato, Marcelo Freixo, do PSOL, e o favorito Marcello Crivella, do PRB. O que havia de t\u00e3o importante a fazer na Fran\u00e7a? Ter\u00e1 o autor de Pedro Pedreiro sido convocado para aconselhar o xar\u00e1 Fran\u00e7ois Hollande sobre como se comportar no conflito s\u00edrio? N\u00e3o se sabe, nunca se vai saber. E \u00e9 pouco prov\u00e1vel que o filho de S\u00e9rgio Buarque algum dia justifique sua aus\u00eancia para os eleitores que convenceu a votar em seu candidato, participando da campanha dele e at\u00e9 juntando sua venerada voz \u00e0s de outros decantados reis e rainhas da MPB num jingle tocado no hor\u00e1rio eleitoral obrigat\u00f3rio. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O voto de Lula, Dilma e Chico s\u00f3 \u00e9 \u00fatil quando pode levar algum companheiro ao poder. Disputa democr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 com eles, que a consideram uma inoc\u00eancia in\u00fatil. Mas mesmo que se disponham a abrir m\u00e3o do direito de votar, dificilmente ter\u00e3o a humildade de reconhecer que chegou a hora de se aposentarem de seus sonhos de poder, renunciando ao direito de ser votado. <\/span><\/p>\n<p><b><i>Jos\u00e9 N\u00eaumanne \u00e9 jornalista, poeta e escritor<\/i><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os tr\u00eas s\u00f3 querem votar se for pra vencer: a democracia \u00e9 uma inoc\u00eancia in\u00fatil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13756,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,38],"tags":[],"class_list":["post-13826","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-jose-neumanne-pinto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13826"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13826\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13827,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13826\/revisions\/13827"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13756"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}