{"id":13638,"date":"2016-10-16T11:12:59","date_gmt":"2016-10-16T14:12:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=13638"},"modified":"2016-10-19T11:05:15","modified_gmt":"2016-10-19T14:05:15","slug":"criancas-mortas-fotografia-e-moral-cidada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/criancas-mortas-fotografia-e-moral-cidada\/","title":{"rendered":"CRIAN\u00c7AS MORTAS: fotografia e moral cidad\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Muitas vezes, depois que escrevo uma cr\u00f4nica, costumo envi\u00e1-la para alguns colegas e ex alunos, pessoas que conhecem meus dilemas frente a quest\u00e3o do uso da arte na sociedade contempor\u00e2nea. A generosidade de amigos cr\u00edticos invariavelmente me ajuda a melhorar o texto, corrigir equ\u00edvocos, propor novos \u00e2ngulos.<\/em> <\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Foi exatamente isto que aconteceu com o texto intitulado \u201cA cara da Am\u00e9rica Latina sem rosto\u201d. A proposta era mostrar certa tend\u00eancia presente nas s\u00e9ries feitas por fot\u00f3grafos proeminentes, artistas que preferem valorizar paisagens acidentadas, desertos, florestas, nuvens com desenhos dram\u00e1ticos, mares agitados ou bichos e plantas, tudo em detrimento dos registros dos rostos da popula\u00e7\u00e3o. Sim \u00e0 Am\u00e9rica Latina ainda habita o imagin\u00e1rio universal como um polo estranho e ex\u00f3tico.<\/p>\n<p>Por l\u00f3gico, nesses exames r\u00e1pidos, tramito entre as fun\u00e7\u00f5es da fotografia feita para p\u00fablico, com duas possibilidades mais importantes: den\u00fancia ou aliena\u00e7\u00e3o. No primeiro caso, temo que os efeitos visuais \u2013 sempre muito bonitos \u2013 se prestem a estetiza\u00e7\u00e3o in\u00fatil, reduzindo a arte e o motivo da fotografia \u00e0 mera t\u00e9cnica ou discuss\u00e3o sobre luz, efeito e forma ou composi\u00e7\u00e3o. No segundo caso, sofro com o excesso de didatismo filtrado por lentes ideol\u00f3gicas demais sempre atentas \u00e0 den\u00fancia.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, como tantos, busco o equil\u00edbrio oportuno que esquadrinha combina\u00e7\u00f5es pertinentes. No caso da invisibilidade dos rostos da popula\u00e7\u00e3o latino-americana tem sido o \u201capagamento\u201d me deixa perplexo e \u00e9 pela falta que me frustro. Foi, contudo, diante de problemas que avento, sobre a relev\u00e2ncia das mostras fotogr\u00e1ficas, que uma colega alertou sobre o significado de certas imagens que tem pautado o fotojornalismo em n\u00edvel internacional. De maneira contundente, disse a interlocutora: \u201cora, professor, veja as fotos das crian\u00e7as que morrem na travessia do norte da \u00c1frica para a Europa\u201d, e, numa sequ\u00eancia tr\u00e1gica foram anexadas algumas cenas das crian\u00e7as mortas, tomadas como emblema do drama avassalador que cobre de luto a moral globalizada.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse a punhalada cr\u00edtica, junto a alguns retratos veio o bilhete publicado, mensagem do socorrista alem\u00e3o, professor de m\u00fasica, de nome Martin, que disse ter visto, dias passados, um beb\u00ea boiando na \u00e1gua e o corpo estava \u201ccomo um boneco, com os bra\u00e7os esticados\u201d. Em continuidade afirmava o volunt\u00e1rio: \u201cPeguei o beb\u00ea pelo antebra\u00e7o e puxei seu corpinho para os meus bra\u00e7os na mesma hora para proteg\u00ea-lo&#8230; os bra\u00e7os dele, com aqueles dedinhos, balan\u00e7aram no ar, o sol bateu nos seus olhos, brilhantes, acolhedores, mas sem vida&#8221;. E em l\u00e1grimas ele conclu\u00eda: \u201cS\u00f3 seis horas antes essa crian\u00e7a estava viva&#8221;.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o foi imediata com outra foto, a do menino s\u00edrio Aylan, de 4 anos, trazido sem vida pelas ondas, numa praia turca, no ano passado. H\u00e1 outras como do menino de 5 anos, salvo, mas ferido em explos\u00e3o no dia 18 de agosto \u00faltimo, em Aleppo na S\u00edria. A foto rodou o mundo e doeu em muita gente.<\/p>\n<p>Frente a tudo isso me permito perguntas que envolvem o fazer fotojornalismo: pode a fotografia dimensionar a not\u00edcia, fazendo-a cumprir o papel de divulga\u00e7\u00e3o? Qual a moral ou o limite expresso pelo apelo \u00e0 dor? Vale mostrar os corpos infantis em detrimento de outros, de velhos, mulheres gr\u00e1vidas, pessoas com limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas? Antes de provis\u00f3rias conclus\u00f5es, lembremos que por traz de cada caso existe um sistema que permite isso, que sabe de traficantes, de viol\u00eancia de toda ordem, de estupros e at\u00e9 de venda de \u00f3rg\u00e3os para pagar o tr\u00e2nsito. E vejam que estamos falando de um total, s\u00f3 neste ano de 3.171 mortes. Nesse contexto, qual o significado das fotografias dos meninos afogados? E desdobrando a quest\u00e3o volto ao ponto de partida: qual o sentido da constru\u00e7\u00e3o da invisibilidade dos rostos latino-americanos? Tomara que analistas de fotografia consigam responder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Por Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Muitas vezes, depois que escrevo uma cr\u00f4nica, costumo envi\u00e1-la para alguns colegas e ex alunos, pessoas que conhecem meus dilemas frente a quest\u00e3o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13639,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,36],"tags":[],"class_list":["post-13638","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-lazer-e-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13638"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13638\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13640,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13638\/revisions\/13640"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13639"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}