{"id":13606,"date":"2016-10-09T11:58:36","date_gmt":"2016-10-09T14:58:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=13606"},"modified":"2016-10-19T11:05:57","modified_gmt":"2016-10-19T14:05:57","slug":"ciencia-popper-e-kuhn-coluna-licao-de-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/ciencia-popper-e-kuhn-coluna-licao-de-mestre\/","title":{"rendered":"Ci\u00eancia, Popper e Kuhn (Coluna Li\u00e7\u00e3o de Mestre)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Quando, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, o ainda jovem Popper come\u00e7ou a frequentar o famoso &#8220;C\u00edrculo de Viena&#8221;, nem ele pr\u00f3prio poderia imaginar o papel central que desempenharia posteriormente no campo de filosofia da ci\u00eancia.<\/em><\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Muito pouca gente esperava um futuro promissor daquele obscuro professor secund\u00e1rio, nascido em Himmelhof, distrito de Viena, h\u00e1 mais de cem anos, no dia 28 de julho de 1902. A \u00fanica coisa que o distinguia dos demais integrantes do c\u00edrculo, constitu\u00eddo por fil\u00f3sofos como Moritz Schlick (1882-1936), Otto Neurath (1882-1945), Rudolph Carnap (1891-1970), Hans Reichenbach (1891-1953), Herbert Feigl (1902-1988) e outros afamados &#8220;positivistas l\u00f3gicos&#8221; da \u00e9poca, era a sua rejei\u00e7\u00e3o da indu\u00e7\u00e3o como l\u00f3gica da ci\u00eancia, em flagrante oposi\u00e7\u00e3o aos seus companheiros.<\/p>\n<p>De fato, estes defendiam que o m\u00e9todo cient\u00edfico era o indutivo. Em outras palavras, partindo-se de enunciados singulares, resultantes de descri\u00e7\u00f5es de observa\u00e7\u00f5es ou experimentos, chega-se a (induz-se) enunciados universais -hip\u00f3teses ou teorias. Mas, como argumentava Popper, n\u00e3o existe nenhuma garantia l\u00f3gica capaz de assegurar a infer\u00eancia dos enunciados universais a partir de enunciados singulares, por mais numerosos que fossem estes. Mesmo observando milhares e milhares de cisnes brancos, n\u00e3o se pode afirmar que todos os cisnes s\u00e3o brancos, pois, a despeito de serem raros, tamb\u00e9m existem cisnes negros. Essa quest\u00e3o sobre a validade e as condi\u00e7\u00f5es de infer\u00eancia indutiva \u00e9 conhecida como &#8220;problema da indu\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Ela remete \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o acerca da validade e veracidade dos enunciados universais baseados na experi\u00eancia. Contudo, a descri\u00e7\u00e3o desta \u00e9 sempre um enunciado singular, n\u00e3o um universal. Portanto, o problema da indu\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser resolvido se existir um &#8220;princ\u00edpio de indu\u00e7\u00e3o&#8221;, capaz de garantir a infer\u00eancia indutiva. Por\u00e9m, do ponto de vista l\u00f3gico, n\u00e3o existe tal princ\u00edpio. Logo, diz Popper, o m\u00e9todo indutivo n\u00e3o \u00e9 o m\u00e9todo da ci\u00eancia. E n\u00e3o adianta deslocar a quest\u00e3o, afirmando que a infer\u00eancia indutiva pode n\u00e3o ser v\u00e1lida estritamente, mas que tem algum grau de confiabilidade e de probabilidade, como fizeram os positivistas l\u00f3gicos, utilizando o c\u00e1lculo de probabilidades.<\/p>\n<p>Na sua ess\u00eancia, o problema fica inalterado e o impasse continua. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem sentido falar em l\u00f3gica da pesquisa cient\u00edfica? Claro que sim, responde Popper. O que estava errado era a forma da pergunta. Ela queria saber se existe uma fonte privilegiada, cujos dados garantissem por si o conhecimento cient\u00edfico, demarcando a fronteira da ci\u00eancia e da n\u00e3o-ci\u00eancia (metaf\u00edsica) e qual a l\u00f3gica da demarca\u00e7\u00e3o. Tal fonte n\u00e3o existe. Os dados sens\u00f3rios, base da indu\u00e7\u00e3o, t\u00e3o caros aos pensadores do C\u00edrculo de Viena, n\u00e3o t\u00eam esse &#8220;pedigree&#8221; capaz de assegurar, pela origem, o car\u00e1ter cient\u00edfico do conhecimento. Todavia, eles podem perfeitamente mostrar a falsidade das hip\u00f3teses e teorias que constituem a ci\u00eancia, fundamentada em uma assimetria da l\u00f3gica cl\u00e1ssica conhecida como &#8220;modus tollens&#8221;.<\/p>\n<p>Se o enunciado B \u00e9 deduzido do enunciado A, a sua veracidade n\u00e3o implica necessariamente na verdade de A, mas da sua falsidade decorre necessariamente a falsidade de A. De modo semelhante, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar a validade de um enunciado universal, por\u00e9m \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel refut\u00e1-lo, ou false\u00e1-lo, segundo a nomenclatura de Popper. Assim, o trabalho do cientista seria fazer conjeturas sobre uma realidade e depois tentar refut\u00e1-las.<\/p>\n<p>Na primeira parte do processo, n\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica. Esta aparece na segunda parte, no esfor\u00e7o de refuta\u00e7\u00e3o, baseado no &#8220;modus tollens&#8221;. A teoria ou hip\u00f3tese conjeturada deve, portanto, ter um formato adequado para ser testado, caracterizado pelo seu conte\u00fado emp\u00edrico. Entretanto, sempre existe a possibilidade de salvar uma teoria, acrescentando uma hip\u00f3tese ad hoc. Para que a l\u00f3gica da pesquisa tenha validade, Popper solicita aos pesquisadores que n\u00e3o recorram a tal expediente, uma esp\u00e9cie de conven\u00e7\u00e3o. Essa era a sua engenhosa proposta, posteriormente, publicada com o t\u00edtulo de &#8220;Logik der Forschung&#8221; (L\u00f3gica da Pesquisa, em alem\u00e3o). Estava a\u00ed o cerne do pensamento popperiano.<\/p>\n<div id=\"attachment_13608\" style=\"width: 233px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Thomas_Kuhn.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13608\" class=\"size-full wp-image-13608\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Thomas_Kuhn.jpg\" alt=\"Thomas Kuhn\" width=\"233\" height=\"286\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13608\" class=\"wp-caption-text\">Thomas Kuhn<\/p><\/div>\n<p><strong>O triunfo de um fil\u00f3sofo<\/strong><\/p>\n<p>Quando &#8220;Logik der Forschung&#8221; foi publicado pela primeira vez em 1935, pouca gente deu-lhe import\u00e2ncia. Principalmente entre os fil\u00f3sofos o sil\u00eancio foi quase total. O reconhecimento viria de outras \u00e1reas. O economista Friedrich von Hayek levou-o para a Escola de Economia de Londres em 1946, onde Popper permaneceu pelo resto de sua vida acad\u00eamica. Ao mesmo tempo, come\u00e7aram a aparecer adeptos influentes no campo cient\u00edfico, sobretudo, no campo de biologia. A caracter\u00edstica de ser uma filosofia de a\u00e7\u00e3o, valorizando a criatividade, al\u00e9m do car\u00e1ter evolucion\u00e1rio \u00e0 Darwin, seduziu um grupo seleto de talentosos bi\u00f3logos. Pelo menos, tr\u00eas deles ganharam o Pr\u00eamio Nobel de Medicina ou Fisiologia: Peter Medawar (1960), John Eccles (1963) e Jacques Monod (1965). Nenhum deles poupou elogios ao grande fil\u00f3sofo, enfatizando como as id\u00e9ias popperianas fomentaram as suas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, na d\u00e9cada de 60, ele come\u00e7ou a firmar-se como um dos nomes mais conhecidos, mesmo entre fil\u00f3sofos. Todavia, a pol\u00eamica n\u00e3o poderia estar ausente na sua vida. Exatamente nessa \u00e9poca, do auge da sua fama, apareceu a obra de Thomas S. Kuhn &#8220;A Estrutura das Revolu\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas&#8221; (1962), colocando em xeque a sua tese principal.<\/p>\n<p>Segundo Kuhn, os cientistas, em geral, n\u00e3o est\u00e3o interessados em refutar as teorias, mas em salv\u00e1-las, contrariando a conven\u00e7\u00e3o proposta por Popper. Isso, entretanto, n\u00e3o abalou o austr\u00edaco naturalizado brit\u00e2nico. Muito ao contr\u00e1rio. Popper reconheceu a exist\u00eancia de uma &#8220;ci\u00eancia normal&#8221;, no sentido kuhniano, na qual o falseamento \u00e9 evitado, considerando-a objeto de pesquisa importante para o historiador de ci\u00eancia. Contudo, de acordo com o seu ponto de vista, para o l\u00f3gico de ci\u00eancia isso pouco tem a acrescentar. De qualquer modo, at\u00e9 sua morte, em 1994, aos 92 anos, continuou com suas id\u00e9ias e debates, instigando n\u00e3o s\u00f3 o campo filos\u00f3fico, mas talvez muito mais o cient\u00edfico.<\/p>\n<p>T.S. Kuhn usou o termo &#8216;paradigma&#8217; para se referir a estruturas e\/ou compreens\u00f5es do mundo de v\u00e1rias comunidades cient\u00edficas. Para Kuhn, um <em>paradigma cient\u00edfico<\/em> inclui modelos como o modelo planet\u00e1rio dos \u00e1tomos, e teorias conceitos, pressupostos e valores. Para Kuhn, uma no\u00e7\u00e3o como a do paradigma cient\u00edfico foi essencial para compor seu argumento alusivo a um aspecto particular da hist\u00f3ria da ci\u00eancia, a saber, quando uma estrutura conceitual cede lugar a outra, durante o que ele chamou de <em>revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/em><\/p>\n<p>Kuhn acreditava que, durante per\u00edodos de &#8220;ci\u00eancia normal&#8221;, os cientistas trabalham dentro do mesmo paradigma. A comunica\u00e7\u00e3o e trabalho cient\u00edfico prosseguem de forma relativamente sem percal\u00e7os at\u00e9 que ocorram anomalias, ou que uma nova teoria ou modelo seja proposta, exigindo que se entenda conceitos cient\u00edficos tradicionais de novas maneiras, e que se rejeite velhos pressupostos e substitua-os por novos.<\/p>\n<article id=\"post-12938\" class=\"post-12938 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-colunas category-licao-de-mestre\">\n<div class=\"post-content clearfix\">\n<div>\u00a0<em><strong>por Ant\u00f4nio Marmo de Oliveira,\u00a0antonio_m@uol.com.br<\/strong><\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, o ainda jovem Popper come\u00e7ou a frequentar o famoso &#8220;C\u00edrculo de Viena&#8221;, nem ele pr\u00f3prio poderia imaginar o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13607,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,33],"tags":[],"class_list":["post-13606","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-licao-de-mestre"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13606"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13619,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13606\/revisions\/13619"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}