{"id":13361,"date":"2016-09-04T16:26:55","date_gmt":"2016-09-04T19:26:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=13361"},"modified":"2016-09-13T11:48:00","modified_gmt":"2016-09-13T14:48:00","slug":"leituras-de-domingo-a-cara-da-america-latina-sem-rosto-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/leituras-de-domingo-a-cara-da-america-latina-sem-rosto-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Leituras de Domingo: A CARA DA AM\u00c9RICA LATINA SEM ROSTO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy \/\u00a0<\/strong><strong>jcarlosbm@hotmail.com<\/strong><\/p>\n<p>Sempre medito sobre o papel da fotografia. Confesso que gosto muito de \u201cretrato\u201d de gente e foi com esta inten\u00e7\u00e3o que me perguntei sobre o teor da fotografia latino-americana. Tudo me veio \u00e0 tona quando li a seguinte frase: <em>O n\u00facleo do processo de transforma\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 n\u00e3o viol\u00eancia \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o do rosto do outro, rosto que pode mudar nossa viol\u00eancia. <\/em>A frase pronunciada pelo pensador colombiano Mario Roberto Solarte, expressa no livro \u201c<em>Mimesis y Noviolencia: reflexiones desde la investigaci\u00f3n y la acci\u00f3n<\/em>\u201d, entre outros, encerra um problema vital para o entendimento da exist\u00eancia da identidade latino-americana: a invisibilidade dos tipos sociais que nos comp\u00f5em.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A car\u00eancia de rostos de pessoas \u2013 que aparecendo comprovariam s\u00e9culos de hist\u00f3ria de conv\u00edvios contradit\u00f3rios \u2013 \u00e9 um torturante desafio, infamando nossas consci\u00eancias. Seria melhor, n\u00e3o ver? Meditemos: n\u00e3o que a fotografia inexista como meio de express\u00e3o <em>da<\/em> e <em>na<\/em> Am\u00e9rica Latina. N\u00e3o. \u00c9 que nos perdemos no retrato de paisagens dram\u00e1ticas e estetizadas, na constata\u00e7\u00e3o de bichos, plantas e rios, que de t\u00e3o intrigantes refor\u00e7am a dist\u00e2ncia dos padr\u00f5es matriciais. H\u00e1 del\u00edcias nesses devaneios, por certo, mas tamb\u00e9m h\u00e1 abandonos. O mesmo se diz de panoramas ex\u00f3ticos, flashes de cidades complicadas, acidentes geol\u00f3gicos insuspeitados, enfim, de detalhes importantes, mas que, em conjunto anulam a centralidade das fotos humanas. \u00c9 como se fug\u00edssemos esteticamente do olhar do ser que nos mira al\u00e9m do papel, daquele que nos conceitua e perturba induzindo a pergunta que n\u00e3o pode ter cara: quem somos?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Comunidade-indigena.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-13363\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Comunidade-indigena-450x256.jpg\" alt=\"Comunidade indigena\" width=\"450\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Comunidade-indigena-450x256.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Comunidade-indigena-300x171.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Comunidade-indigena.jpg 580w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por certo, h\u00e1 consensos na defini\u00e7\u00e3o de uma narrativa reconhecida como <em>realismo fant\u00e1stico<\/em> ou <em>realismo m\u00e1gico<\/em>, nosso, express\u00e3o de uma linguagem simb\u00f3lica que nos reconhece na fic\u00e7\u00e3o. Em termos econ\u00f4micos nos mapas da macroeconomia existimos, \u00e9 verdade. Tamb\u00e9m temos pra\u00e7a nos estudos sociol\u00f3gicos da marginalidade, pobreza, doen\u00e7as tropicais. Sim, nessas \u00e1reas temos personalidade autenticada, mas a diversidade das fei\u00e7\u00f5es humanas, o plural sempre multiplicado dos tipos sociais somados, indica outro caminho: o apagamento das aproxima\u00e7\u00f5es de interesses alheios. Perfilhamo-nos apenas em express\u00f5es negativas como a mis\u00e9ria e a explora\u00e7\u00e3o. No mais, apenas dizeres ufanistas que servem para rebaixamentos e diminui\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio cultural. E num movimento rebelde ecoa a quest\u00e3o: por que n\u00e3o nos mostramos em produtos hist\u00f3ricos mais sofridos. Sabe-se que c\u00e1 e l\u00e1 aparecem fotos art\u00edsticas, mas nunca somadas, propostas em compara\u00e7\u00f5es desej\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u00c9, de maneira ingl\u00f3ria, a invisibilidade que nos caracteriza como seres de lugares conflitantes, indecisos, mal colocados na geografia do progresso. E isso tem uma raiz funda derivada do mote da destrui\u00e7\u00e3o da utopia do Para\u00edso terreal. Destrui\u00e7\u00e3o de toda uma coletividade ind\u00edgena que no passado fora organizada; de legi\u00f5es de negros movidos, antes escravizados e depois reduzidos a bols\u00f5es de pobreza; de mesti\u00e7os legados \u00e0s indecis\u00f5es convenientes e a falta de oportunidades no mundo dos outros, europeus ou europeizados. Existimos sim \u2013 deve-se reconhecer minimamente \u2013 mas nossas fei\u00e7\u00f5es repartidas em mil retra\u00e7os n\u00e3o se imp\u00f5e como mote a ser confrontado. Falta-nos seria\u00e7\u00f5es de fotos e conex\u00f5es tem\u00e1ticas que nos expliquem. \u00c9 quando ent\u00e3o, constatada, a no\u00e7\u00e3o apol\u00ednea de est\u00e9tica nos for\u00e7a a pensar que ela tem avessos. E \u00e9 exatamente este outro lado que nos garante a exist\u00eancia. E parece ser chegada a hora de mostrar isso.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Negro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-13364\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Negro-450x359.jpg\" alt=\"Negro\" width=\"450\" height=\"359\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Negro-450x359.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Negro-300x239.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Negro.jpg 650w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A consequ\u00eancia mais do\u00edda de um processo de 500 anos de desmantelamento se dimensiona pela busca de dignidade. Roubados os direitos pr\u00f3prios da humaniza\u00e7\u00e3o social, cuidou-se de formular uma teoria massacrante que atribu\u00eda aos latino-americanos certa inferioridade \u00e9tnica \u201ccientificamente\u201d demonstrada ao longo da sombra do s\u00e9culo XIX. Historicamente, na rotina dos dias, viramos um \u201coutro\u201d colonizado, personagem sem fei\u00e7\u00f5es, latino-americanos, mero fen\u00f4meno a ser explicado. A perfei\u00e7\u00e3o do sistema de domina\u00e7\u00e3o mostrou-se sutil ao produzir, no pr\u00f3prio espa\u00e7o latino-americano, algozes capazes de repetir as estrat\u00e9gias de controle das vidas submetidas. E legados a condi\u00e7\u00e3o menor desenvolvemos o que se chama <em>colonialidade<\/em>, ou seja, uma elite que gradua os mesmos processos de controle social. E nos classifica. \u00c9 exatamente a\u00ed que cabe o papel revers\u00edvel da fotografia de nossos tipos humanos. Eles existem, est\u00e3o a\u00ed e pela media\u00e7\u00e3o de uma arte cr\u00edtica, inverte a no\u00e7\u00e3o de modelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Latinoamerica.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-13365\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Latinoamerica-450x284.jpg\" alt=\"Latinoamerica\" width=\"450\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Latinoamerica-450x284.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Latinoamerica-300x189.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Latinoamerica.jpg 717w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy \/\u00a0jcarlosbm@hotmail.com Sempre medito sobre o papel da fotografia. 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