{"id":12861,"date":"2016-08-07T11:22:48","date_gmt":"2016-08-07T14:22:48","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=12861"},"modified":"2016-08-24T15:31:14","modified_gmt":"2016-08-24T18:31:14","slug":"jose-neumanne-a-gambiarra-e-o-jeitinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/jose-neumanne-a-gambiarra-e-o-jeitinho\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 N\u00eaumanne: A gambiarra e o jeitinho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" dir=\"ltr\"><em>Olimp\u00edada registra o momento hist\u00f3rico do Brasil que trocou ast\u00facia por furto<\/em><strong><em><!--more--><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dona Palmira, diretora do Grupo Escolar \u201cJovelina Gomes\u201d, que meu amigo de inf\u00e2ncia Sales Gaud\u00eancio mandou reformar nos anos 50, para meu imenso g\u00e1udio, ensinou-me, no cafund\u00f3 dos anos 50, a amar os dicion\u00e1rios. Esta li\u00e7\u00e3o, aprendida no sert\u00e3o do Rio do Peixe, numa inf\u00e2ncia de frustra\u00e7\u00f5es que me tornou adulto antes do tempo, muito me tem valido. Pai dos burros, n\u00e3o. Pai dos inteligentes! A frase n\u00e3o \u00e9 minha, mas do mogiano Haisem Abaki, \u00e2ncora da hora matutina (7 \u00e0s 8) na R\u00e1dio Estad\u00e3o (FM 92,9), em que comento de tudo um pouco, imitando, at\u00e9 onde me permite o parco talento, o que aprendi de r\u00e1dio com Vicente Leporace no Trabuco da R\u00e1dio Bandeirantes nos anos 70, quando cheguei a S\u00e3o Paulo de Piratininga. Aos 65 anos, cada dia mais parecido (s\u00f3 fisicamente) com Chico Anysio, como atestam amigos de inf\u00e2ncia e frentistas de posto de gasolina, todos rindo na minha cara, gosto mais de consultar dicion\u00e1rios do que de ler romances policiais. Nem por isso deixo de cometer erros crassos de sem\u00e2ntica. S\u00f3 descobri que estava usando tru\u00edsmo de forma equivocada quando consultei, tardiamente, o Aur\u00e9lio, dicion\u00e1rio assinado pelo acad\u00eamico alagoano, mas de fato feito por meu colega de Jornal do Brasil e amigo de inf\u00e2ncia de Sarney e Gullar em S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o Joaquim Campelo Marques.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Minha mais nova implic\u00e2ncia \u00e9 com o uso equivocado do plural na palavra Olimp\u00edada ao se referir \u00e0 que atualmente se realiza no Rio de Janeiro, que, ali\u00e1s, continua lindo: a Rio 2016. Ligo a televis\u00e3o e ela \u00e9 dita no plural, nos intervalos comerciais comete-se o barbarismo de n\u00famero nos an\u00fancios, ou\u00e7o o r\u00e1dio e os colegas abusam desse est\u00fapido. Depois de mais uma aula na \u201cEscolinha do Professor Neuminho\u201d, subo a meu tug\u00fario na reda\u00e7\u00e3o e abro o Dicion\u00e1rio Houaiss da L\u00edngua Portuguesa. Par\u00eantesis: convivi com o grande fil\u00f3logo. Como leitor desde a leitura da ileg\u00edvel tradu\u00e7\u00e3o que ele fez de Ulysses, de Joyce, na long\u00ednqua adolesc\u00eancia de Campina Grande. Pessoalmente, quando assessorei Z\u00e9 Eduardo de Andrade Vieira no Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria de Itamar e Houaiss era ministro da Cultura. At\u00e9 hoje o imito quando uso discrepar em vez de discordar. \u00c9 mais bruto, tem mais \u00eanfase, n\u00e3o \u00e9? Abri o catatau e l\u00e1 estava a defini\u00e7\u00e3o. \u201cOlimp\u00edada: cada um dos intervalos de quatro anos entre dois jogos ol\u00edmpicos pelo qual o tempo era contado na Gr\u00e9cia antiga\u201d. Curto, fino, letal. Uma vez, em entrevista, Jorge Lu\u00eds Borges me disse que um homem inteligente limita-se a reler. Pois sabe que dificilmente encontrar\u00e1 algo melhor do que o que j\u00e1 leu antes. G\u00eanio \u00e9 g\u00eanio. Desde que li esse verbete, meus amigos, meus inimigos, n\u00e3o paro de rel\u00ea-lo. \u00c9 uma fina flor de eleg\u00e2ncia do vern\u00e1culo com a marca indel\u00e9vel da autoria de seu Ant\u00f4nio, com quem s\u00f3 me emparelho pelo uso do acento circunflexo no prenome.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pois bem. Tenho criticado, desde que o Rio, que amo \u2013 \u00a0sou Flamengo e sou Mangueira e n\u00e3o conhe\u00e7o praia mais linda do que Copacabana \u2013 bateu T\u00f3quio, Chicago e Madrid na escolha pelo Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional (COI) para sediar os Jogos Ol\u00edmpicos (este \u00e9 o plural sin\u00f4nimo registrado nos dicion\u00e1rios, inclusive o de Houaiss, levantino como M\u00e1rio Chamie, ai, que saudade, e meu colega Haissem), merc\u00ea do charme (e vai saber l\u00e1 mais o qu\u00ea) do Pai Lulinha. E recentemente mais ainda, ap\u00f3s ter ouvido in\u00fameras entrevistas do prefeito da Cidade Maravilhosa, Eduardo Paes, para defender o indefens\u00e1vel (desabamento da Ciclovia Tim Maia) e justificar o injustific\u00e1vel (os dejetos flutuantes da deslumbrante Ba\u00eda da Guanabara). Nos raros momentos em que Paes cala falam por ele ora o diretor de comunica\u00e7\u00e3o do evento, M\u00e1rio de Andrada, cuja vogal final no sobrenome salva as melhores lembran\u00e7as que todos devemos ter do autor de Macuna\u00edma, ora o diretor do show de abertura da Olimp\u00edada carioca, t\u00e3o \u201ceduardopaeseano\u201d que imita os pronunciamentos do chef\u00e3o at\u00e9 no timbre da voz.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A dupla acima citada \u2013 e n\u00e3o exijam de mim a cita\u00e7\u00e3o de quem disse exatamente o qu\u00ea \u2013 deu a defini\u00e7\u00e3o exata deste irrepet\u00edvel carnaval em agosto, em tudo encarnando o que Paes lembra e M\u00e1rio de Andrade criou: o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter. \u00c9 o que s\u00e3o os cariocas da gema. \u00c9 o que somos n\u00f3s, brasileiros, ou seja, cariocas arrivistas. Bilh\u00f5es de terr\u00e1queos ver\u00e3o daqui a pouco o show da toler\u00e2ncia na P\u00e1tria da Intoler\u00e2ncia, o Brasil da guerra dos golpistas contra os socialistas, dos coxinhas contra os mortadelas, da zelite branca de z\u00f3i azu contra os brancos de alma negra, guerreiros do povo brasileiro. \u00c9 a consagra\u00e7\u00e3o do jeitinho na vers\u00e3o criminosa, a gambiarra.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pois, como disse muito bem o chef\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o dos Jogos do Rio, h\u00e1 uma diferen\u00e7a nada sutil entre gambiarra e jeitinho. Socorro, Houaiss! Gambiarra, como ensina o mestre, \u00e9, originalmente, aquela \u201cs\u00e9rie de pequenos refletores colocada no teto de um est\u00fadio ou de um palco\u201d. Mas ningu\u00e9m precisa ir ao teatro para saber que a primeira defini\u00e7\u00e3o, e a definitiva, \u00e9 a popular em favelas e condom\u00ednios de luxo: \u201cextens\u00e3o puxada fraudulentamente para furtar energia el\u00e9trica\u201d, ou seja, \u201cgato\u201d. Miau! Jeitinho, como ensina o fil\u00f3logo, \u00e9 uma \u201cmaneira h\u00e1bil, esperta, astuciosa de conseguir algo, especialmente algo que \u00e0 maioria das pessoas se afigura como particularmente dif\u00edcil\u201d. Espetacularmente preciso, n\u00e3o \u00e9? Al\u00e9m de conveniente: uma frase da lavra de Houaiss sempre beneficia o leitor neste texto, nem sempre t\u00e3o exato e cheio de charme.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ao distinguir jeitinho de gambiarra, o comunicador da Olimp\u00edada quis se livrar da pecha de malandro. Terminou pespegando na sua festa de abertura para bilh\u00f5es o r\u00f3tulo de um delito criminal muito praticado no Brasil oficial destes nossos tempos: a esperteza virou furto. Uau! \u00c9 por isso que gosto de dicion\u00e1rios, especialmente os de Aur\u00e9lio e Houaiss: s\u00f3 eles nos salvam da constata\u00e7\u00e3o malandra de Tancredo Neves, que sempre ensinava a seus disc\u00edpulos (mas parece que escapou a seu pr\u00f3prio neto, A\u00e9cio Cunha) segundo a qual \u201ca esperteza quando cresce demais engole o dono\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">De qualquer maneira, ainda que tenha sido absolutamente sem querer (faltando \u00e0 frase o \u201cquerendo\u201d de Chaves), Andrada, cujo sobrenome lembra o da fam\u00edlia do maior brasileiro de todos os tempos, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva, terminou por formular o maior legado, embora impl\u00edcito, dos Jogos cariocas. Nesta hora de crise, a maior de todos os tempos, com precis\u00e3o, o presidente do COI, Thomas Bach, constatou, com seu rigor alem\u00e3o e seu sobrenome do musicista genial, na entrevista ao lado de Paes, que ficou conhecida como a \u201cguerra do caviar\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Nosso Brasil nunca foi P\u00e1tria Educadora e agora est\u00e1 deixando de ser o pa\u00eds do jeitinho. \u00c9, sim, e cada vez mais, o ber\u00e7o da gambiarra, na qual caixa 2 n\u00e3o \u00e9 crime, pedalada n\u00e3o \u00e9 drible, mas trapa\u00e7a, e se inventa o golpe \u201cbranco e manso\u201d, com direito de defesa e sem tanques nas ruas, a n\u00e3o ser, \u00e9 claro, para proteger as \u201colimp\u00edadas\u201d, que, para n\u00e3o trair o fil\u00f3logo, ganha uma letra esse no fim, mas perde o tipo capital no come\u00e7o.<\/p>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olimp\u00edada registra o momento hist\u00f3rico do Brasil que trocou ast\u00facia por furto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12862,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,38],"tags":[],"class_list":["post-12861","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-jose-neumanne-pinto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12861","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12861"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12861\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12878,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12861\/revisions\/12878"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12862"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12861"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12861"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12861"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}