{"id":12764,"date":"2016-07-31T11:21:02","date_gmt":"2016-07-31T14:21:02","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=12764"},"modified":"2016-08-04T11:07:18","modified_gmt":"2016-08-04T14:07:18","slug":"mortal-loucura-poema-musica-novela-e-critica-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/mortal-loucura-poema-musica-novela-e-critica-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"MORTAL LOUCURA: POEMA, M\u00daSICA, NOVELA E CR\u00cdTICA (Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\">O fil\u00f3sofo e ensa\u00edsta Marcos Tavares d\u2019Amaral escreveu recentemente n\u2019O Globo. O tema \u00e9 coment\u00e1rio do poema \u201cMortal Loucura\u201d, escrito por Greg\u00f3rio de Matos, na turbulenta Bahia, no s\u00e9culo XVII.<!--more--> O poeta abrasileirado, tamb\u00e9m conhecido como \u201cBoca do Inferno\u201d, al\u00e9m de severo cr\u00edtico da igreja e dos costumes, apologista que foi dos poemas er\u00f3ticos mais expressivos da l\u00edngua portuguesa, n\u00e3o poupou a sociedade em geral. E tudo feito com engenho e arte, de tal forma que a evoca\u00e7\u00e3o da mitologia grega reverberou como eco ferino, oportuno, coerente com o dizer barroco. Verseja o poema \u201cNa ora\u00e7\u00e3o, que desaterra\u2026 a terra\/ Quer Deus que a quem est\u00e1 o cuidado\u2026 dado\/ Pregue que a vida \u00e9 emprestado\u2026 estado\/ Mist\u00e9rios mil que desenterra\u2026 enterra\/ Quem n\u00e3o cuida de si, que \u00e9 terra\u2026 erra\/ Que o alto Rei, por afamado\u2026 amado\/ \u00c9 quem lhe assiste ao desvelado\u2026 lado\/ Da morte ao ar n\u00e3o desaferra\u2026 aferra\/ Quem do mundo a mortal loucura\u2026 cura\/ A vontade de Deus sagrada\u2026 agrada\/ Firmar-lhe a vida em atadura\u2026 dura\/ O voz zelosa, que dobrada\u2026 brada\/ J\u00e1 sei que a flor da formosura\u2026 usura\/ ser\u00e1 no fim dessa jornada\u2026 nada\u201d. A par da sofistica\u00e7\u00e3o argumentativa que a um tempo demonstra refinado dom\u00ednio do vern\u00e1culo e \u00e1cida picardia, o verso cresce provocando ironia e chasco. E quanta gra\u00e7a!&#8230;&#8221;<\/p>\n<div id=\"attachment_12765\" style=\"width: 325px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Gregorio-de-Matos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12765\" class=\"size-large wp-image-12765\" title=\"Gregorio-de-Matos\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Gregorio-de-Matos-325x450.jpg\" alt=\"\" width=\"325\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Gregorio-de-Matos-325x450.jpg 325w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Gregorio-de-Matos-217x300.jpg 217w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Gregorio-de-Matos.jpg 595w\" sizes=\"auto, (max-width: 325px) 100vw, 325px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12765\" class=\"wp-caption-text\">Greg\u00f3rio de Matos<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\">De tal quilate \u00e9 o fulgor de \u201cMortal Loucura\u201d que Jos\u00e9 Miguel Wisnick, m\u00fasico de m\u00e3o cheia e cr\u00edtico liter\u00e1rio dos mais expressivos da nossa cultura, musicou de forma plena, transformando o soneto em can\u00e7\u00e3o. At\u00e9 parece que os dois estavam em um s\u00f3 quando o som musical se juntou \u00e0s ferinas palavras. Tudo fica exposto e se presta a ser comprovado agora na novela \u201cVelho Chico\u201d do surpreendente Benedito Ruy Barbosa. Supostamente transcorrida na Bahia, com a nordestina voz de Maria Beth\u00e2nia preenchendo sil\u00eancios, como se fosse lam\u00faria antiga, solta o poema\/canto que integrou ao enredo do folhetim. E como eco de mensagem que precisa ser dita o velho soneto virou can\u00e7\u00e3o que virou tema de novela onde o eco do amor imorredouro se repete em cora\u00e7\u00f5es, de uma gera\u00e7\u00e3o a outra. Ecos de ecos!&#8230;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em se falando de ecos, por ironia foi o italiano ensa\u00edsta Umberto Eco quem definiu que toda obra colocada \u00e0 p\u00fablico \u201c\u00e9 aberta\u201d, isto \u00e9, sugere interpreta\u00e7\u00f5es que escapam do limite intencional dos autores. A recep\u00e7\u00e3o p\u00fablica, portanto, passou a ressignificar enunciados que, no caso, evocam a lenda mitol\u00f3gica grega, da ninfa Eco, amaldi\u00e7oada por Hera, mulher de Zeus. Segundo aquela tradi\u00e7\u00e3o, a ninfa de inigual\u00e1vel voz e amante da natureza, tentava com demais ninfas, entreter o maior dos deuses, Zeus, que fugia da vigil\u00e2ncia de Hera. Certa feita, a desconfiada esposa resolveu surpreender o esposo em suas andan\u00e7as escusas. Para proteger as colegas, Eco que se apartara do grupo, buscou espairecer a enfurecida deusa. Logo descoberta, como castigo Hera amaldi\u00e7oou Eco que nunca mais poderia come\u00e7ar nenhuma conversa, apenas repetir as \u00faltimas palavras. Destino cruel o da ninfa desgra\u00e7ada que ent\u00e3o passou a pairar mundo afora sempre repetindo palavras de fim.<\/p>\n<p>Todo enredo que amarra poema, can\u00e7\u00e3o, lenda novela fica ainda mais excitante quando pensamos que tudo pode acontecer sem que muitos tomem consci\u00eancia da beleza da mem\u00f3ria requalificada no presente. Avesso disto, muitas pessoas podem apenas gostar de resultados sem necessariamente se deter nos enredos que nutrem vis\u00f5es preocupadas com a hist\u00f3ria. Nesses casos, como ecos, o aplauso desarmado de expectadores apenas serve para ecoar enredos que entoaram em outras plagas. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio Greg\u00f3rio de Matos previa isto ao dizer \u201cO voz zelosa, que dobrada\u2026 brada\/ J\u00e1 sei que a flor da formosura\u2026 usura\/ ser\u00e1 no fim dessa jornada\u2026 nada\u201d. Nada!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fil\u00f3sofo e ensa\u00edsta Marcos Tavares d\u2019Amaral escreveu recentemente n\u2019O Globo. 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