{"id":12755,"date":"2016-07-31T10:38:02","date_gmt":"2016-07-31T13:38:02","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=12755"},"modified":"2016-08-04T11:07:47","modified_gmt":"2016-08-04T14:07:47","slug":"simplificacoes-britanicas-complexidades-europeias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/simplificacoes-britanicas-complexidades-europeias\/","title":{"rendered":"Simplifica\u00e7\u00f5es brit\u00e2nicas, complexidades europeias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\" dir=\"ltr\"><strong><em>Ap\u00f3s a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, o chamado Brexit, an\u00e1lises surgiram para explicar o porqu\u00ea da decis\u00e3o; quest\u00e3o vai muito al\u00e9m de explica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e nacionalistas.\u00a0<!--more--><\/em><\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cN\u00e3o entendo muito de pol\u00edtica, mas quero ver as chances da Inglaterra sem a Europa\u201d. Entrevistado por Taisa Sganzerla, Daniel Slogget, trabalhador na constru\u00e7\u00e3o civil, completou: \u201cOs imigrantes querem nossos benef\u00edcios&#8230;mesmo que eles precisem, temos que dar prioridade a quem \u00e9 daqui\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cAqui\u201d \u00a0\u00e9 uma pequena vila costeira, Jaywick Sands, de 4 mil habitantes, \u201co lugar mais pobre da Inglaterra\u201d, segundo os \u00f3rg\u00e3os oficiais, numa avalia\u00e7\u00e3o feita em 2010 e reiterada cinco anos depois. Mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o vive do seguro-desemprego, contra a m\u00e9dia nacional de apenas 11%. \u00a0Localizada perto de Clacton, de 30 mil habitantes, \u00e0 beira do Canal da Mancha, a cerca de 130 km de Londres, \u00a0vincula-se ao distrito de Tendring. Ali o \u00a0\u201cbrexit\u201d, ou seja, a sa\u00edda da Inglaterra da Europa, alcan\u00e7ou 70% dos sufr\u00e1gios.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Um gr\u00e1fico elaborado pelo The Guardian confirma, em escala maior, estas tend\u00eancias. \u00c9 o caso de Boston, no Lincolnshire, cidade de 65 mil habitantes, maior taxa de homic\u00eddio do pa\u00eds, 33% dos jovens desempregados e 72% favor\u00e1veis ao \u201cbrexit\u201d. Doncaster, com 158 mil habitantes, no Sul do Yorkshire, cravou resultados semelhantes: 60% pela sa\u00edda. Sunderland (61%) e \u00a0Middlesbrough (65%), antigas fortalezas da classe trabalhadora inglesa, votaram no mesmo sentido.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">J\u00e1 o distrito de Wandsworth, em Londres, um dos mais ricos do pa\u00eds, votou em peso (75%) pela perman\u00eancia na Europa. Oxford, outro rico e letrado distrito sufragou a perman\u00eancia com 73% dos votos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A maior parte da grande m\u00eddia n\u00e3o hesitou em formular um diagn\u00f3stico simplificado: de um lado, as luzes da internacionaliza\u00e7\u00e3o, do progresso e da liberdade pela Europa; de outro, as trevas do nacionalismo, do fascismo e do atraso, \u00a0contra. Sem d\u00favida, os fascistas aproveitaram-se do brexit, mas n\u00e3o parece razo\u00e1vel resumir uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o complexa a um aspecto particular, por mais importante que seja.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Uma outra an\u00e1lise extraiu da vota\u00e7\u00e3o um padr\u00e3o \u2013 os de maior poder econ\u00f4mico querem ficar. Os de maiores problemas econ\u00f4micos, desejam sair. Os mais qualificados e jovens votam pela Europa. Os sem qualifica\u00e7\u00e3o e velhos querem sair. A rica e cosmopolita Londres \u00a0quer ficar. J\u00e1 os habitantes de Havering, nos sub\u00farbios do leste, votam pela sa\u00edda.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o seria simpl\u00f3rio avaliar os resultados eleitorais apenas pelo prisma \u00a0econ\u00f4mico? As pessoas teriam votado apenas com o \u201cest\u00f4mago\u201d ou com o \u201cbolso\u201d? Subjacente, n\u00e3o haveria algo mais complexo? \u00a0Os que desejam sair argumentam que se perdeu uma \u201cvelha Inglaterra\u201d, de h\u00e1bitos conhecidos, que lhes conferiam identidade cultural. Antigos pubs, com\u00e9rcios locais, a solidariedade da vizinhan\u00e7a, a atmosfera de cidadania modesta e digna. Num plano maior, a ideia de que a soberania nacional est\u00e1 colocada em risco, ou j\u00e1 transferida para os \u201ctecnocratas\u201d de Bruxelas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em algumas d\u00e9cadas o pa\u00eds conheceu profundas muta\u00e7\u00f5es sociais. A referida jornalista as resume: nos anos 1960, quando os governos conservadores quiseram ingressar na ent\u00e3o Comunidade Econ\u00f4mica Europeia, cerca de metade da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa do Reino Unido era formada por oper\u00e1rios, os \u201cblue collars\u201d, colarinhos azuis, em contraste com os \u201cwhite collars\u201d, os colarinhos brancos \u2013 empregados da administra\u00e7\u00e3o. \u00a0Na \u00e9poca, 70% n\u00e3o tinham qualifica\u00e7\u00f5es formais; 40% eram sindicalizados e quase um ter\u00e7o vivia em moradias sociais. Esta gente n\u00e3o viram com bons olhos a integra\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es europeias. Talvez sentissem, por \u201cinstinto de classe\u201d, que o processo era conduzido por outros interesses. Que um estranho progresso estava quebrando suas organiza\u00e7\u00f5es e degradando as condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho. Que a \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d era do Capital e n\u00e3o do Trabalho. Votaram, pressionaram e fizeram o poss\u00edvel para que o \u201cseu\u201d partido, o Trabalhista, fosse express\u00e3o pol\u00edtica destas demandas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Lutaram e perderam.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Trinta anos depois, nos anos 1990, apenas 30% eram oper\u00e1rios e n\u00e3o mais do que 20% organizavam-se em sindicatos. As categorias tradicionais de mineiros e metal\u00fargicos foram economicamente trituradas pela moderniza\u00e7\u00e3o conservadora e politicamente destro\u00e7adas pela m\u00e3o pesada do governo liberal e repressivo \u00a0de Margareth Thatcher.<\/p>\n<div id=\"attachment_12756\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/MargaretThatcher-1024x650.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-12756\" class=\"size-large wp-image-12756\" title=\"MargaretThatcher-1024x650\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/MargaretThatcher-1024x650-450x285.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/MargaretThatcher-1024x650-450x285.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/MargaretThatcher-1024x650-300x190.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/MargaretThatcher-1024x650.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-12756\" class=\"wp-caption-text\">Margareth Thatcher<\/p><\/div>\n<p dir=\"ltr\">Restaram escombros sociais e econ\u00f4micos, quase invis\u00edveis, \u00a0entrela\u00e7ados com uma riqueza deslumbrante, quase insultuosa. Gentes confinadas, \u00a0sem perspectivas, olhando para o passado, a pouca dist\u00e2ncia dos que t\u00eam dinheiro e poder e confiam no futuro. Uma atmosfera de ressentimentos, amadurecendo racismo, ca\u00e7a \u00e0s bruxas e \u00a0explos\u00f5es sociais.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c0 espreita, aventureiros de direita tentam montar nestes ressentimentos e frustra\u00e7\u00f5es \u00a0para alcan\u00e7ar o poder. Fazem os imigrantes de bodes expiat\u00f3rios e convocam cruzadas nacionalistas. \u00a0A reinven\u00e7\u00e3o de uma Europa Social, \u00a0comprometida com o Trabalho, a Liberdade e a Solidariedade \u00e9 a melhor alternativa construtiva a este mundo de sombras.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Daniel Aar\u00e3o Reis<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/p>\n<p>Email: daniel.aaraoreis@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, o chamado Brexit, an\u00e1lises surgiram para explicar o porqu\u00ea da decis\u00e3o; quest\u00e3o vai muito al\u00e9m de &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":12759,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,35],"tags":[],"class_list":["post-12755","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-de-passagem"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12755"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12837,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12755\/revisions\/12837"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}