{"id":12197,"date":"2016-06-19T11:28:19","date_gmt":"2016-06-19T14:28:19","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=12197"},"modified":"2016-06-21T10:55:00","modified_gmt":"2016-06-21T13:55:00","slug":"leituras-de-fim-de-semana-os-desafios-do-terror-e-do-medo-daniel-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/leituras-de-fim-de-semana-os-desafios-do-terror-e-do-medo-daniel-reis\/","title":{"rendered":"Leituras de fim de semana: Os desafios do terror e do medo (Daniel Reis)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><em>O primeiro sentimento foi de incredulidade. \u201cIsto n\u00e3o pode ser verdade\u201d, exclamou o gerente da Pulse. Mas o fato bruto estava ali, acontecendo. Movido por um visceral \u00f3dio \u00e0 diferen\u00e7a, com um AR-15 nas m\u00e3os, uma arma de guerra, que a National Rifles Association chama pudicamente de \u201cdefesa pessoal\u201d, o assassino matou 50 pessoas e feriu outras 53, algumas em estado grave<strong><!--more--><\/strong><\/em><\/p>\n<p>A escolha da Pulse n\u00e3o foi casual. Como em Paris e em Tel-Aviv, os lugares de divertimento, perpassados pela transgress\u00e3o e pelo \u201cpecado\u201d, tornam-se alvos preferenciais da ira do sectarismo isl\u00e2mico. Tamb\u00e9m n\u00e3o foi aleat\u00f3ria a op\u00e7\u00e3o\u00a0 por uma boate gay, pois o movimento inscreve no pr\u00f3prio nome \u2013 GAY \u2013 uma alegria de viver que \u00e9\u00a0 insuport\u00e1vel aos \u00a0que fazem da f\u00e9 religiosa um exerc\u00edcio de tristeza, intimida\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Da incredulidade e do terror nasce o luto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Martee-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12199\" title=\"Martee 2\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Martee-2.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"194\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Investiga\u00e7\u00f5es apontam que Omar Mateen pode ter sido um gay enrustido<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O luto suscita o recolhimento e a reflex\u00e3o. Uma pausa para pensar as v\u00edtimas e seus familiares e o p\u00e2nico de pessoas que, em momento de lazer, confundiram sons de m\u00fasicas com estampidos de tiros e deixaram suas vidas para sempre sem nem saber por que estavam morrendo. Faz parte do luto refletir sobre o epis\u00f3dio em seu contexto hist\u00f3rico de guerras e massacres perpetrados por Estados e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que parecem se naturalizar de forma sinistra.<\/p>\n<p>Mas do terror tamb\u00e9m nasce o medo, sempre de tocaia nestes momentos. Quando as coisas parecem virar de ponta-cabe\u00e7a, a instabilidade da ordem se torna rotineira, e a inseguran\u00e7a cerca o dia e a noite, o medo, este mau e poderoso conselheiro, se avantaja.<\/p>\n<p>Os demagogos o exploram sem vergonha, suscitando aspira\u00e7\u00f5es \u2013 leg\u00edtimas \u2013 \u00e0 prote\u00e7\u00e3o. O medo sempre aparece nas crises, determinando atitudes de agachamento e capitula\u00e7\u00e3o. Ceder a autonomia a uma organiza\u00e7\u00e3o, ao Estado, a uma lideran\u00e7a, a algo que pare\u00e7a forte o suficiente para espantar a causa da afli\u00e7\u00e3o. O medo esteve presente na aurora do fascismo italiano e do nazismo alem\u00e3o. Replicou-se na Am\u00e9rica Latina dos anos 1960, cobrindo com seu manto de ang\u00fastia as ditaduras que se espalharam pelo continente. Recobra din\u00e2mica agora, na Europa e nos Estados Unidos, projetando novos fascismos e outras aberra\u00e7\u00f5es, a defenderem muros, proibi\u00e7\u00f5es, pol\u00edcia e porrada para deter esta onda de terror que nada nem ningu\u00e9m parecem capazes de\u00a0 controlar.<\/p>\n<p>A esta onda \u00e9 preciso responder com raiva, solidariedade e coragem.<\/p>\n<p>A raiva dos assassinos que desprezam a vida e matam sem piedade em nome de valores distorcidos e de uma utopia absolutista e intolerante. A raiva de pol\u00edticos que se aproveitam da dor alheia para instilar o desespero e a mis\u00e9ria de retalia\u00e7\u00f5es, que se encadear\u00e3o interminavelmente por n\u00e3o alcan\u00e7arem \u2013 e n\u00e3o removerem &#8211; os fundamentos do terrorismo insano.<\/p>\n<p>A solidariedade \u2013 incondicional \u2013 \u00e0s v\u00edtimas do terror,\u00a0 atrav\u00e9s de palavras, de protesto e de den\u00fancia, de\u00a0 pensamentos,\u00a0 na hora de brindar \u00e0 sua mem\u00f3ria,\u00a0\u00a0 e de a\u00e7\u00f5es,\u00a0 sob a forma de manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E, por fim, a coragem, que n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de medo, como recordava Nelson Mandela, mas a disposi\u00e7\u00e3o de lidar com ele e super\u00e1-lo. Os gays a demonstraram em Stonewall, h\u00e1 quase cinquenta anos. E o t\u00eam demonstrado as paradas gay, todos os anos, em v\u00e1rias cidades e bairros do mundo, multicoloridas, diversas, bonitas e alegres.<\/p>\n<p>O terror e o medo n\u00e3o haver\u00e3o de ser maiores do que a raiva, a\u00a0 solidariedade e a coragem.<\/p>\n<p><em><strong>Daniel Aar\u00e3o Reis<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Email: daniel.aaraoreis@gmail.com<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro sentimento foi de incredulidade. \u201cIsto n\u00e3o pode ser verdade\u201d, exclamou o gerente da Pulse. Mas o fato bruto estava ali, acontecendo. 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