{"id":11948,"date":"2016-06-05T12:52:04","date_gmt":"2016-06-05T15:52:04","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=11948"},"modified":"2016-06-05T12:52:04","modified_gmt":"2016-06-05T15:52:04","slug":"sebe-para-as-memorias-do-novo-velhinho-de-taubate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/sebe-para-as-memorias-do-novo-velhinho-de-taubate\/","title":{"rendered":"Sebe: Para as mem\u00f3rias do \u201cnovo\u201d Velhinho de Taubat\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>De onde voc\u00ea \u00e9? Impressionante como podemos complicar uma pergunta assim, simples. Por certo, seria f\u00e1cil responder com indica\u00e7\u00e3o imediata e logo deixar a conversa fluir. Infelizmente, n\u00e3o consigo disfar\u00e7ar o embara\u00e7o quando algu\u00e9m perpetra esta quest\u00e3o que, certamente, mais vale como ponte para continuidade de falas do que propriamente uma flechada que fere meu cora\u00e7\u00e3o identit\u00e1rio. Explico-me, sou t\u00e3o complicado em termos de afetos geograficamente localizados que a mera possibilidade da pergunta me apavora.<!--more--><\/p>\n<p>Nasci em Guaratinguet\u00e1, vivi a maior parte de minha vida de crian\u00e7a e jovem em Taubat\u00e9, estudei no Col\u00e9gio S\u00e3o Joaquim em Lorena, depois de alguns anos de doc\u00eancia no Vale do Para\u00edba, mudei-me para S\u00e3o Paulo. \u00c9 l\u00f3gico que tive sa\u00eddas importantes para o exterior e por mais de tr\u00eas anos vivi nos Estados Unidos, em San Francisco, Ca; em Miami, Fla; e, sobretudo, em Nova York. Para emaranhar mais ainda, devo dizer que esta trama se dilata quando me vejo, agora, morador do Rio de Janeiro, cidade que tamb\u00e9m assumi como minha. Entendem meu drama? Acho que n\u00e3o, pois a complica\u00e7\u00e3o se bifurca quando me reconhe\u00e7o cidad\u00e3o de todos os lugares.<\/p>\n<p>Sim, sou de f\u00e1cil adapta\u00e7\u00e3o. Devo confessar que o dilema encerrado na inocente perguntinha \u201cde onde voc\u00ea \u00e9\u201d mereceu cogita\u00e7\u00f5es de ares freudianos, e n\u00e3o falta at\u00e9 quem v\u00ea no meu dilema um fundo shakespeariano, na base do \u201cser ou n\u00e3o ser\u201d.<\/p>\n<p>Acho que seria c\u00f4modo promover a continuidade desse mezzo del camin, mas algo aconteceu que exige minha defini\u00e7\u00e3o. Coisa s\u00e9ria, creiam.<\/p>\n<p>Perten\u00e7o a uma lista de coet\u00e2neos, Tahubatherium, constitu\u00eddo de pessoas que repartiram comigo a juventude. Pensando em tantos que compartilharam minha forma\u00e7\u00e3o de adulto, retomo o velho preceito que reza que os amigos verdadeiros s\u00e3o feitos antes dos 30 anos. E fico imaginando que mesmo n\u00e3o valendo o absoluto, \u00e9 verdade que naquelas quadras da vida somos mais abertos, mais flex\u00edveis e assim deixamos o bom vento da amizade ventilar. Mas, n\u00e3o temos mais o frescor dos anos de forma\u00e7\u00e3o. Nem somos mais t\u00e3o male\u00e1veis.<\/p>\n<p>Resta, portanto, colocar um pouco de filosofia na pondera\u00e7\u00e3o e recordar que a palavra amizade decorre da combina\u00e7\u00e3o de animi (alma) e custos (cust\u00f3dia). Como guardi\u00e3o da alma, amigo \u00e9 o que cuida do outro, o protege e faz a reciproca ecoar.<\/p>\n<p>E foi Nietzsche quem constatou que a dificuldade em cultuar amigos reside na premissa que mostra os entraves para que se combinem \u201ca liberdade do esp\u00edrito com a partilha da alegria\u201d. Coisas da vida moderna, muitos daqueles jovens, hoje maduros, profissionais, muitos aposentados, se distanciaram. E o lapso temporal se materializou em quil\u00f4metros, que, contudo, n\u00e3o se medem pelo deus grego kronos. Pelo contr\u00e1rio, gra\u00e7as \u00e0s virtudes da mem\u00f3ria, o tempo se anula e a dist\u00e2ncia se apaga.<\/p>\n<p>Pois bem, todo este libelo introdut\u00f3rio serve para dizer que gra\u00e7as ao WhatsApp e \u00e0 iniciativa de dois baluartes sonhadores, aos poucos fomos nos encontrando no espa\u00e7o da virtualidade eletr\u00f4nica. E fomos nos reconhecendo em soma volumosa. Um a um, os velhos meninos e meninas, os antigos jovens, foram se reapresentando. Uns fisicamente mais longe, outros sempre pr\u00f3ximos, afetivamente juntos todos, \u00edamos reinventando nossas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Postos profissionais foram dando forma aos destinos desenhados por cada qual, e, na mesma ordem casamentos foram tecidos, fam\u00edlias multiplicadas, vicissitudes se expuseram, muitos mortos foram chorados. Sobretudo, por\u00e9m no cen\u00e1rio dos dias brasileiros vividos, nossas diferen\u00e7as pol\u00edticas se mostraram. Foi o grande teste para a garantia da solidez dos prop\u00f3sitos de reencontro. Uns me surpreenderam, pois imaginava que o \u00edmpeto da juventude os faria mais progressistas.<\/p>\n<p>Outros me deixaram perplexo pela f\u00faria com que abra\u00e7aram causas que se me afiguram conservadoras demais. Temi ficar sozinho e apenas me recreei com laivos de uns poucos que n\u00e3o me fizeram sentir o total isolamento de ser o \u201cVelhinho de Taubat\u00e9\u201d. \u00c9 l\u00f3gico que houve momento de desatino \u2013 fui at\u00e9 chamado de \u201cintelectual equivocado\u201d \u2013 mas provou-se que as amizades feitas antes dos 30 anos s\u00e3o solidadas. Provou-se tamb\u00e9m que o suposto de Nietzsche demonstra a liberdade como condi\u00e7\u00e3o que se combina com a alegria.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: continuo cidad\u00e3o dos lugares amados, de todos, mas o sou mais de Taubat\u00e9, pois \u00e9 l\u00e1 que est\u00e3o os amigos de sempre. Mais: entendi o que significa diferen\u00e7a na identidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>por Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy,\u00a0meiconta63@hotmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De onde voc\u00ea \u00e9? Impressionante como podemos complicar uma pergunta assim, simples. 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