{"id":11866,"date":"2016-05-29T15:06:33","date_gmt":"2016-05-29T18:06:33","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=11866"},"modified":"2016-05-29T15:06:33","modified_gmt":"2016-05-29T18:06:33","slug":"sebe-cancao-e-memoria-da-dor-de-ser-brasileiro-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/sebe-cancao-e-memoria-da-dor-de-ser-brasileiro-hoje\/","title":{"rendered":"Sebe: Can\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria da dor de ser brasileiro hoje."},"content":{"rendered":"<p>Trabalhar com oralidade tem suas vantagens e riscos. As benesses correm por conta de surpresas que ganhamos quando se entende a fertilidade da palavra trocada com outros. Quanta beleza pode existir numa conversa amig\u00e1vel, solta, dessas que est\u00e3o cada vez mais raras. Os riscos, por sua vez, procedem da redu\u00e7\u00e3o da fala a mero ato informativo, mec\u00e2nico, sem tempo de se alongar.<\/p>\n<p><!--more-->Mesmo na solitude, acabamos por estabelecer contatos com repert\u00f3rios que nos acometem, com significados, muitas vezes inexplicados. Volta e meia can\u00e7\u00f5es rondam nossas cabe\u00e7as e, sem perceber, deixamo-nos envolver por sons imprevistos. \u00c9 ilus\u00e3o, por\u00e9m, supor que esses arroubos sejam inocentes, s\u00e3o resqu\u00edcios de mem\u00f3ria latente, que n\u00e3o se deixa morrer. \u00c9 como se existisse dentro de n\u00f3s um inquieto apelo libert\u00e1rio \u201cque sofre, mas n\u00e3o morre\u201d.<\/p>\n<p>Ainda na sexta, 27, sem mais nem menos, me veio \u00e0 cabe\u00e7a uma can\u00e7\u00e3o que pensava esquecida. Foi assim: como um assalto que me vi repetindo a letra de Cartomante, de Ivan Lins, que na voz de Elis Regina declinava \u201cnos dias de hoje \u00e9 bom que se proteja\/ Ofere\u00e7a a face pra quem quer que seja\/ Nos dias de hoje esteja tranquilo\u201d \u00e9 verdade que aqueles eram dias da brotada ditadura civil\/militar, mas o significado embutido na can\u00e7\u00e3o se atualiza no refr\u00e3o \u201cCai o rei de Espadas\/ Cai o rei de Ouros\/ Cai o rei de Paus\/ Cai n\u00e3o fica nada\u201d.<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3_OSPpbaFvA\" frameborder=\"0\" width=\"650\" height=\"488\"><\/iframe><br \/>\nA associa\u00e7\u00e3o com o notici\u00e1rio recente \u00e9 imediata. Depois do impedimento da Presidenta eleita, muitos supunham que a opera\u00e7\u00e3o Lava Jato poderia morrer. Quis a justi\u00e7a (dos homens e a divina) que as coisas continuassem e a\u00ed est\u00e3o as providenciais promessas de novas quedas. Bastou enunciar esse mote para que fosse dada corda a outras lembran\u00e7as de v\u00ednculos entre m\u00fasica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na virada dos anos de 1960, ante o recrudescimento da quartelada militar iniciada em 1964, ainda reinava a ilus\u00e3o do transit\u00f3rio e se pensava no retorno dos militares ao quartel. E em coro, jovens, com Vandr\u00e9, entoavam Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de flores. Vale lembrar que a can\u00e7\u00e3o se abre exatamente com o vigor do canto \u201cCaminhando e cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o\u201d. Na pr\u00e1tica, a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o se realizou e, pelo contr\u00e1rio, foi um dos motivos do AI-5 que, no calorento dezembro de 1968, referendou o fechamento do Congresso promovendo devassas. O \u00e1tomo da inquieta\u00e7\u00e3o, contudo, se gestava e, frente ao macabro enredo que se seguiu, assistimos muitos jovens se darem \u00e0 guerrilha. O terrorismo de estado se implantou e foi preciso a morte do jornalista Herzog para emblemar a rea\u00e7\u00e3o. Foi longa noite de 21 anos que por fim permitiu raios de luz. Mas o pre\u00e7o foi alto.<\/p>\n<p>Dia desses, pensando nisso outra can\u00e7\u00e3o me atacou, me surpreendi cantarolando uma letra que me acompanhou como professor; trata-se da Gera\u00e7\u00e3o Coca-Cola, da banda Legi\u00e3o Urbana. Confesso que sempre que pensava em me alterar em sala de aula ouvia \u201cQuando nascemos fomos programados\/ A receber o que voc\u00eas nos empurraram\/ Com os enlatados dos USA, de 9 \u00e0s 6\/ Desde pequenos n\u00f3s comemos lixo comercial e industrial\/ Mas agora chegou nossa vez\/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de voc\u00eas\u201d. E como martelada ficava o refr\u00e3o \u201cSomos os filhos da revolu\u00e7\u00e3o\/ Somos burgueses sem religi\u00e3o\/ Somos o futuro da na\u00e7\u00e3o\/ Gera\u00e7\u00e3o Coca-Cola\u201d.<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rgBCAjoFs3w\" frameborder=\"0\" width=\"650\" height=\"488\"><\/iframe><br \/>\nTalvez a heran\u00e7a mais triste dessa saga se expresse agora e se deixa transparecer na gera\u00e7\u00e3o med\u00edocre de pol\u00edticos que temos. Logicamente, o processo que se seguiu ia cumprindo o script tamb\u00e9m dado por outra can\u00e7\u00e3o oportuna, digna de ser trilha sonora dos anos 1990, o Teatro dos Vampiros, igualmente da Legi\u00e3o Urbana. Em meio da letra ouve-se \u201cVoltamos a viver como h\u00e1 dez anos atr\u00e1s&#8230; E a cada hora que passa\/ Envelhecemos dez semanas\u201d. Incr\u00edvel e do\u00edda mem\u00f3ria. E assim caminhamos cantando e seguindo a can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda que a impertin\u00eancia das letras nos atormente, resta pensar que, apesar de tudo, h\u00e1 uma beleza inconformada na mem\u00f3ria nacional. Que caiam os reis de paus, de espadas, de ouros e de paus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>por Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy,\u00a0meiconta63@hotmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trabalhar com oralidade tem suas vantagens e riscos. 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