{"id":11509,"date":"2016-04-27T15:47:57","date_gmt":"2016-04-27T18:47:57","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=11509"},"modified":"2016-04-27T15:47:57","modified_gmt":"2016-04-27T18:47:57","slug":"e-la-se-foi-o-baixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/e-la-se-foi-o-baixo\/","title":{"rendered":"E l\u00e1 se foi o Baixo&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Quem me apresentou o Baixo foi a Baixinha. Era engra\u00e7ado ver Elis Regina, t\u00e3o pequenininha, chamar Fernando Faro de Baixo. Mas soava normal. Afinal, era assim que s\u00f3 os amigos mais pr\u00f3ximos o conheciam, enquanto os desconhecidos o chamavam de Faro e os conhecidos de Fernando. Baixo era para uns poucos eleitos.<!--more--><\/p>\n<p>S\u00f3 fiquei sabendo que seu nome completo era Fernando Ab\u00edlio de Faro Santos agora, quando li seu perfil na Wikipedia, depois que soube que ele nos havia deixado (no domingo 24). Perdi a oportunidade de cham\u00e1-lo de Ab\u00edlio dos Santos.<\/p>\n<p>O Baixo n\u00e3o perdia o amigo por causa de uma piada, nem a piada por causa de um amigo. Nasceu em Aracaju e eu brincava com ele dizendo que El\u00f3i, baiano de Monte Santo do sert\u00e3o de Canudos e vaqueiro de meu av\u00f4 materno, em cuja casa nasci, dizia que sergipano era tudo ladr\u00e3o de cavalo. Ele ria de perder o f\u00f4lego quando eu lembrava o causo do encourado. E adorava ouvir causos. N\u00e3o se magoou nem quando o alcunharam de \u201cdiretor feijoada\u201d, s\u00f3 porque ele cortava a imagem dos artistas que protagonizavam sua s\u00e9rie antol\u00f3gica Ensaio, na TV Cultura de S\u00e3o Paulo, em pequenos detalhes: o nariz, a orelha, o olho brilhando. \u201cVamos por partes, como dizia Jack, o estripador\u201d, escrevi uma vez ao elogiar um programa dele numa cr\u00edtica de televis\u00e3o no Estad\u00e3o.<\/p>\n<p>Faro nem ligava para minhas tiradas irreverentes, pois sabia que eu sabia que ele era bom mesmo era no todo, n\u00e3o nas partes. Conhecia de cor e salteado tudo o que fazia, tinha uma sensibilidade demon\u00edaca para entrar pelo artista adentro e trazer para fora de qualquer um, o melhor que nele havia. Assim foi com Elis, que o amava como parceiro de f\u00e9 e o venerava como se fosse o mais amado dos pais que ela andou buscando na vida. Ou com Jackson do Pandeiro, cuja genialidade r\u00edtmica saltava aos olhos do telespectador quando era dirigido por ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KFe7JTKK6h8\" frameborder=\"0\" width=\"650\" height=\"366\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dirigindo, tinha o olho sens\u00edvel para a imagem a registrar e a m\u00e3o certeira na mesa de corte. Seu estilo minimalista convocava o telespectador a escutar e era s\u00f3 o que lhe interessava. Sempre. Cultivei sua amizade a ponto de ele me levar para o sagrado recinto da mesa de corte na TV Tupi na noite em que trouxe para o Sumar\u00e9 Caetano Veloso, vindo do ex\u00edlio londrino s\u00f3 para se encontrar com Gal Costa e Jo\u00e3o Gilberto.<\/p>\n<p>V\u00ea-lo dando ordens aos cameramen e editando o programa fez com que eu entendesse que a arte dele n\u00e3o tinha nada que ver com aquela t\u00e9cnica toda, que era s\u00f3 aparente. O neg\u00f3cio do cara era o profundo da alma humana. Deu-me a honra de me introduzir \u00e0 mesa de sua fam\u00edlia, \u00e0 qual me integrei com as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Iarinha, menina pequena e linda at\u00e9 hoje, que ele cativou para se casar e com ela ter a filha Zu, que lhe deu netos com meu amigo de mais tempo ainda, Juca de Oliveira. No lar ele se enfronhava como um menino traquinas, sem produzir nem dirigir, apenas se deixando levar.<\/p>\n<p>Foi-se embora hoje cedo sem me avisar que ia, deixando-me a impress\u00e3o de que nunca cresceu para nunca deixar de ser crian\u00e7a. Elis Regina e Jackson do Pandeiro devem ter reivindicado de Nosso Senhor a presen\u00e7a do cara que tinha voca\u00e7\u00e3o de ladr\u00e3o de cavalo, mas terminou furtando joias raras musicais para distribuir a um p\u00fablico saturado de viol\u00eancia, vileza, estrondos e pneus cantados na programa\u00e7\u00e3o nossa de cada dia, cada vez mais est\u00fapida, cada vez menos Faro, que era s\u00f3 sabedoria e sensibilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><strong><em>Jos\u00e9 N\u00eaumanne Pinto, jornalista, poeta e escritor<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"right\">Acesse o <a title=\"Blog do Neumanne\" href=\"http:\/\/neumanne.com\/novosite\/categoria\/blog\/\" target=\"_blank\">Blog do N\u00eaumanne<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem me apresentou o Baixo foi a Baixinha. 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