{"id":11484,"date":"2016-04-26T12:35:57","date_gmt":"2016-04-26T15:35:57","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/?p=11484"},"modified":"2016-04-26T15:09:45","modified_gmt":"2016-04-26T18:09:45","slug":"acontece-os-sonhos-nao-cabem-nas-urnas-por-daniel-a-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/acontece-os-sonhos-nao-cabem-nas-urnas-por-daniel-a-reis\/","title":{"rendered":"Acontece: Os sonhos n\u00e3o cabem nas urnas por Daniel A Reis"},"content":{"rendered":"<p>De noite, em p\u00e9.<\/p>\n<p>Desde 31 de mar\u00e7o passado, centenas de franceses, \u00e0s vezes, milhares,\u00a0 re\u00fanem-se diariamente na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, no norte de Paris, para conversar e discutir a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pa\u00eds, seus problemas, o que e como fazer para \u00a0resolv\u00ea-los e rumos para o futuro. <!--more-->\u00a0Como dizem os participantes, trata-se de ocupar o espa\u00e7o p\u00fablico, transform\u00e1-lo num f\u00f3rum, como se fora uma \u00e1gora moderna, onde todos s\u00e3o bem-vindos. A pol\u00edcia os proibiu de sentar. Pois seja, ficaram em p\u00e9.<\/p>\n<p>E em p\u00e9 v\u00e3o atravessando as noites.<\/p>\n<p>As pessoas come\u00e7am a chegar de tarde, organizam-se em grupos, alguns formam comiss\u00f5es volunt\u00e1rias. \u00a0Jovens e velhos, mulheres e homens, militantes e curiosos.\u00a0 \u00c0s 18hs, a aflu\u00eancia aumenta e come\u00e7a a assembleia.\u00a0 A palavra, de quem quiser, \u00e9 exercida com gosto e desenvoltura. Algu\u00e9m observa que este \u201claborat\u00f3rio da palavra livre\u201d \u00e9 muito mais estimulante do que as passeatas tradicionais, onde as pessoas avan\u00e7am juntas, com palavras de ordem e cantos, mas raramente conversam entre si. Outro prop\u00f5e a met\u00e1fora do gr\u00e3o de areia: quando se juntam, os gr\u00e3os podem emperrar a m\u00e1quina. O momento mais emocionante neste m\u00eas de abril foi alcan\u00e7ado pela execu\u00e7\u00e3o da Sinfonia n\u00b0 9, dita \u201cDo Novo Mundo\u201d, de Dvorak, tocada por cerca de 350 m\u00fasicos volunt\u00e1rios mobilizados pelas redes sociais, ovacionada pelo p\u00fablico presente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11488\" title=\"Sinfonia  de Dvorak\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Sinfonia-de-Dvorak.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p>A fa\u00edsca que acendeu esta fogueira de cidadania foram as manifesta\u00e7\u00f5es de mar\u00e7o contra a lei proposta pela ministra do trabalho do governo socialista, Myriam El Khomri. Trata-se de uma ampla reforma da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, envolvendo, entre outros aspectos, tempo de trabalho, negocia\u00e7\u00f5es salariais, assist\u00eancia social. O objetivo logo se tornou evidente: limitar ou guilhotinar direitos sociais em nome da competitividade. \u00c9 assim que os governos, socialistas ou n\u00e3o, t\u00eam enfrentado os efeitos da grande crise iniciada em 2008 e que, at\u00e9 hoje, atormenta as sociedades europeias. \u00a0Os sindicatos e associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores protestaram. Os estudantes secundaristas disseminaram o #<em>OnVautMieuxque\u00c7a<\/em> (a gente vale mais do que isto) e foram \u00e0s ruas. A pol\u00edcia desceu o cacete. Bateu em jovens em pra\u00e7a p\u00fablica, prendendo dezenas. Nas delegacias, segundo den\u00fancias consistentes, houve cenas de intimida\u00e7\u00e3o, agress\u00e3o e tortura moral e f\u00edsica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11486\" title=\"01 Nuit debout\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/01-Nuit-debout.jpg\" alt=\"\" width=\"281\" height=\"180\" \/><\/p>\n<p>Formou-se um caldo grosso de den\u00fancias e cr\u00edticas. Foi nesta atmosfera que surgiu o movimento da Pra\u00e7a da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O que querem estas gentes que se disp\u00f5em a ficar em p\u00e9 de noite? A maioria, por enquanto, quer apenas conversar. Ouvir e ser ouvido. Falar e escutar. O \u00e2nimo geral \u00e9 cr\u00edtico ao sistema pol\u00edtico existente e ao tipo de sociedade que se estrutura na Fran\u00e7a e na Europa, baseado no vale-tudo do cada um por si e Deus por ningu\u00e9m. E que se pise no pesco\u00e7o da pr\u00f3pria m\u00e3e, desde que se possa alcan\u00e7ar o sucesso pessoal e o consumo ostentat\u00f3rio. Como observa Frederic Lordon, n\u00e3o \u00e9 apenas a Lei El Khomri que est\u00e1 em jogo, \u00e9 a vis\u00e3o de mundo que fundamenta a Lei.<\/p>\n<p>Um mundo dominado pelos dinheiros, pela atividade fren\u00e9tica, pelo doping dos rem\u00e9dios estimulantes ou calmantes que \u00e9 preciso tomar, cada vez mais, para segurar o tranco de uma vida \u00a0angustiante e hostil. H\u00e1 tamb\u00e9m uma desconfian\u00e7a visceral em rela\u00e7\u00e3o aos partidos e \u00e0 sua capacidade de representar vontades e anseios reformistas. Como se os processos eleitorais regulares n\u00e3o fossem mais capazes de viabilizar os sonhos de mudan\u00e7a, maiores que as urnas onde se depositam os votos.<\/p>\n<p>De noite, em p\u00e9, \u00e9 um broto a mais numa flora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cessa: os eg\u00edpcios da Pra\u00e7a Tarhir; os indignados espanh\u00f3is da Puerta del Sol; os turcos em Taksim; os atenienses da pra\u00e7a Sintagma; Occupy Wall Street nos Estados Unidos e na Austr\u00e1lia. Na tradi\u00e7\u00e3o remota, e na pr\u00f3pria Fran\u00e7a, os manifestantes invocam a gesta da grande revolu\u00e7\u00e3o e os <em>cahiers de dol\u00e9ances<\/em> (cadernos de queixas e demandas), de onde surgiu o conceito de cidadania;\u00a0 a Comuna de Paris e o autogoverno popular, em 1871;\u00a0 a greve geral, de 1936, que gerou a Frente Popular e a conquista das f\u00e9rias remuneradas; o movimento de 1968 &#8211; embora\u00a0 derrotado, prolongou-se no tempo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11490\" title=\"02 Nuit debout\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/02-Nuit-debout1.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"202\" \/><\/p>\n<p>Almamy Kanout\u00e9, educador popular, nascido franc\u00eas de pais africanos, apontou dois problemas que precisam ser encarados: ultrapassar os limites parisienses, integrando os sub\u00farbios e outras cidades e superar o fasc\u00ednio pela pura palavra em proveito da a\u00e7\u00e3o coletiva em torno de uma plataforma de reivindica\u00e7\u00f5es concretas. Desafios que, n\u00e3o enfrentados, podem conduzir o movimento ao decl\u00ednio.<\/p>\n<p>Tudo ainda \u00e9 muito fr\u00e1gil, sem d\u00favida, mas a experi\u00eancia j\u00e1 marcou os esp\u00edritos dos que t\u00eam participado. Foi como se houvera uma repolitiza\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias. Al\u00e9m disso, como bem observou Renaud Lambert, \u201cnossos advers\u00e1rios sabem que n\u00e3o ganham quando n\u00f3s perdemos, mas quando desistimos\u201d. Os que ficam de p\u00e9 nas noites mostram que nem todos desistiram.<\/p>\n<p>Daniel Aar\u00e3o Reis, Professor de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da UFF, Email: daniel.aaraoreis@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De noite, em p\u00e9. 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