A
Globo não cedeu espaço publicitário. A Band
também não. No SBT, apenas Hebe Camargo se entusiasmou
com a idéia e mostrou o comercial durante seu programa
de segunda-feira, 30. Entre as revistas semanais, IstoÉ
e Veja toparam liberar, como cortesia, espaços para o anúncio
produzido por Nizan Guanaes para o "Cansei". As emissoras
preferiram ficar de fora porque sentiram um certo teor político-partidário
nas bandeiras e slogans do movimento liderado pelo empresário
e jornalista João Dória Jr.
Sábia decisão. Com aporte
e assinatura institucional da OAB de São Paulo e da Associação
Comercial, Dória decidiu dar um basta contra tudo que está
aí. Vestiu-se de luto e foi à luta. No último
domingo, às 11 da manhã, usou a comoção
como combustível e conseguiu colocar duas mil pessoas na
avenida Rubem Berta, para protestar solidariedade às famílias
das vítimas do vôo 3054 do Airbus 320 da TAM.
Como era de se esperar, o "contra
tudo que está aí" foi substituído pelo
surrado "Fora Lula". Estava na cara. Nizan Guanaes,
dono da agência África, é o marqueteiro preferido
dos tucanos. Para quem não se lembra, foi ele quem dirigiu
as campanhas de FHC e Serra. Dória Jr, por sua vez, é
o anfitrião preferido do tucanato empresarial. Amigo de
FHC, premiou o ex -presidente, no ano passado, com um escultura
da artista Anita Kaufman.
A tentativa de politizar o desastre da
TAM, entretanto, não tinha nada para dar certo. Sem massa
crítica, propostas concretas ou mesmo bandeiras, o movimento
caminhava para o esquecimento quando entrou na mira de tiro da
esquerda engajada e festiva.
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A
senha foi dada pelo ex-governador Cláudio Lembo, aquele
que adora criticar a elite branca da qual faz parte. Para o site
Terra, Lembo cravou: "Cansei é termo de dondocas enfadadas.
É um movimento nascido em Campos de Jordão. O empresário
João Dória Jr. há pouco dedicava-se a um
desfile de cãezinhos de madames em Campos de Jordão".
Na blogosfera, Dória Jr. foi alvo
de uma avalanche de críticas. Mino Carta o chamou de "rapazola
de cabelo engomado" e lembrou o episódio em que ele
substituiu uma escultura de Lívio Abramo por outra de sua
esposa, a socialite Bia Barros.
A reação que jogou mais
luz sobre o "Cansei" veio da CUT. Em vez de esperar
a poeira baixar, o presidente da entidade, Arthur Henrique, lançou
a contra-campanha "Cansamos". Mais espuma foi feita
pelo PT, que colocou o assunto em pauta na reunião da executiva
do partido, realizada na segunda-feira, 30. Enquanto o "Cansei"
reclama das balas perdidas, o "Cansamos" reclama da
mídia "que não aborda e criminaliza os movimentos
sociais".
Sem bases na sociedade e com um discurso
vago, o "Cansei" ganhou sobrevida graças ao fígado
dos petistas. Virou até luta de classes. Pelo menos até
a próxima reunião de pauta.
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