Certamente a leitura que faço do “Contato”
é diferente de muitas. Sempre que encontro em minha caixa
postal, aqui no Rio, o envelope pardo mandado pelo editor inaugura-se
uma festa no meu coração de taubateano cativo. Faço
cerimônias, complico o ato, exijo música ao fundo
e se possível, água mineral gelada e com gás.
Isto talvez explique a devoção que dedico ao “Jornal
do Paulo”. Sabe, é como refazer um cordão
umbilical cortado toda semana, mas, como Fênix sagrada,
refeito nos intervalos.
Precisei deste intróito para explicar
a escolha do tema desta semana. A leitura do número 326,
desde a capa me impactou: “Verde devastado”.
A continuidade do caput veio-me como uma sentença fatal:
“Contato acompanhou e registrou a destruição
de uma árvore com cerca de 20 metros de altura e um diâmetro
que seis homens de mãos dadas não conseguiriam abraça-la”.
Doeu. Doeu muito. A seqüência de mais cinco fotos foi
como se o corte fosse dado em minha carne e cinco chagas me machucassem.
A última, do grosso tronco serrado
e exibido sobre a carroceria de um caminhão, me arrebatou.
“Tenho que fazer alguma coisa”, pensei, mas
o que? Logo me veio a frase fatal de Drummond “tenho
apenas meu canto, e que vale um canto?” Vale sim respondeu
o poeta mineiro motivando minha atitude: “quisera fazer
do poema/ não uma flor: uma bomba”. Pois é,
quisera fazer desta crônica não uma folha arrancada
do imponente fícus, mas uma arma para estourar emoções
em cabeças tão criminosas.
Mas, por falar em poesia, além do
destaque de capa – que por si só valeria reverências
de leitores sensíveis – a redação do
texto assinado pelos dois Venceslau é digna de atenção
da Academia Taubateana de Letras que deveria inscrevê-lo
em uma antologia desejável. Vejamos: “própria
para parques e praças, a árvore agredida é
popularmente conhecida como seringueira. Sua principal característica
é a presença abundante de látex, usado na
fabricação da borracha. Originária da Ásia
Tropical, ela é uma árvore de tronco volumoso, revestida
de casca lisa da cor pardo escura, com possibilidades de formarem
troncos secundários. As folhas são verdes brilhantes.
Os frutos são cilíndricos, com cerca de 2 cm”.
Sabe, pensei: se os “derrubadores” de árvores
lessem este texto antes, talvez tivessem mais pudor. Não
foi assim, no entanto.
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Na verdade, sempre gostei dessa
espécie que – aprendi agora com o agrônomo João
Carlos Nordi – que seu nome e sobrenome é Ficus Elástica
Roxb. Eu carinhosamente a chamava, em nossa intimidade, de “Ficus”.
É preciso dizer que sou daqueles seres estranhos que conversam
com plantas. E muito. Aqui em casa, morando em apartamento, tenho
33 vasos diferentes. Em minha solitude reparto prazeres com eles.
Mas os “Ficus” me atraem pela lição que
dialogamos.
O que os articulistas chamaram de “troncos
secundários”, para mim sempre foram tentáculos,
apoios que o crescimento pedia para poder a árvore poder
se realizar em sua plenitude. E sempre pensava nelas quando via
dificuldades que me convidavam a buscar apoios. E como a árvore
ia criando, de mim mesmo, situações que pudessem dar
sustentação aos projetos.
Então, resta chorar este corte. Aliás,
a palavra corte é apropriada para dizer às “autoridades
competentes” que o prédio de seis andares servirão
como jazigo dessa “maravilha da natureza”. Tomara que
cada vez que passarem por ele se lembrem que ali um dia existiu
uma criatura divina. 
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