Sob todos os pontos de vista,
o celebrado verso de Fernando Pessoa, que em 1969 Caetano Veloso
assumiu em canção intitulada “os argonautas”,
serve de pretexto para meditar sobre viagens e imigração,
dois itens importantes na modernidade.
A sonda do passado, contudo,
convida à busca da origem dessa expressão que nasceu
na Roma Antiga. “Navigare necesse; vivere non est necesse”
dizia em latim o general Pompeu (106-48 aC.). Em pleno campo de
batalha, bradava o valente comandante o lema depois imortalizado
no brasão de Hamburgo, sede da Liga Hanseática.
Não deixa de ser oportuno recobrar a trajetória
desse verso e aplicá-lo ao caso dos imigrantes, em particular
dos brasileiros que buscam os Estados Unidos como porto para esperanças.
“Navegar é preciso,
viver não é preciso” repete-se. O verbo “precisar”
usado como qualificativo de outro, “navegar”, sugere
finas sutilezas. “Precisar” pode significar “necessidade”,
mas vale também como “exatidão” ou “rigor”.
Tanto faz tal variação de significados no caso das
levas de brasileiros que deixam o país em direção
às terras de Tio Sam. Pode-se justificar a aventura da
luta como “necessidade” ou “imperativo”,
como “exatidão”, “justeza” ou “concisão”.
Mas como o mote, o ato de viajar tem suas razões.
Tem também que ser
explicado, pois um dos grandes problemas da mudança de
um país para outro está na justificação
dos porquês. Isto é sério visto que um dos
pontos mais problemáticos dessas viagens é sua explicação.
Afinal, por que trocar de país ou países?
Deixar um lugar em busca de
outro diferente é das práticas mais remotas que
se pode imaginar. É bom começar por este impulso
geral porque, sem uma razão histórica, o que reponta
é culpa, julgamento, má compreensão. E não
há como negar que a atitude imigratória é
tão velha como a humanidade. Não são poucos
os que reconhecem nos processos migratórios uma atividade
central da condição social. Sem ela, como falar
da gênese e evolução das culturas? É
a mudança e a interação de povos que fecundam
sociedades que ao longo da história perderam a condição
autóctone.
As mudanças sempre
existiram e em levas, mas cada época tem suas motivações.
As mudanças de grupos de imigrantes do século XIX
são distintas das de hoje onde, a evolução
dos transportes, o barateamento dos custos de viagens, o turismo
e as possibilidades de trabalho e estudos se modificaram. Muitas
vezes, contudo, estas razões não são explicitadas
e isto provoca erros na avaliação. É comum
supor que quem muda de país atualmente, tenha as mesmas
justificativas de nossos antepassados próximos ou distantes.
De todo jeito, não há como negar que vivemos uma
nova era de deslocamento. A globalização motiva
mudanças, mas ela tem uma história sem a qual tudo
fica inexplicável.
|

.
Os
textos religiosos são abertos sempre com a presença
de um casal original e seus descendentes. O “lugar”
da criação dos filhos, logo, torna-se ponto de discussão
sobre a adequação do espaço físico e
a sobrevida. E começam a mudar. Adão e Eva, por exemplo,
foram expulsos do Paraíso segundo a Bíblia e assim
inauguraram uma saga de viagens onde a busca pelo próprio
sustento tornou-se sinônimo do trabalho, e, o trabalho metáfora
do sacrifício. Assumindo o mito dessa expulsão como
uma primeira grande viagem, a partir dela pode-se pensar que a história
jamais dispensou a atividade viajante.
A busca do sítio ideal
para viver, aos poucos, foi forçando mudanças que
motivaram o aperfeiçoamento dos veículos. Primeiro,
a domesticação dos animais, depois o uso de bichos
para puxar, empurrar, carregar e por fim as máquinas que,
de duas rodas aos vôos supersônicos, deslumbram e encantam.
Uma das mais fortes expressões, presentes em muitas culturas
repete que “o mundo é uma roda”. Aliás,
a consideração de Da Vinci de que a roda é
a mais perfeita invenção assegura a rotatividade como
prática. Assim, não há como negar que todas
as nações do mundo abrigam, desde sua origem, ondas
migratórias.
|