5a. FLIP

Festa literária se encerra
com um até breve

No domingo, 8, a última mesa de debates trouxe uma discussão enriquecedora, com os escritores latinos contemporâneos, Ignácio Padilla, do México, e o argentino Rodrigo Fresán. No ano em que se comemora 40 anos da obra Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, o tema foi "De Macondo a McCondo", os rumos da literatura ficcional. Mais tarde, a 5ª FLIP se encerrou com a já tradicional mesa "Literatura de estimação" em que escritores lêem trechos de suas obras prediletas. E assim se encerrou a Festa em que 40 escritores discutiram diversas vertentes literárias, num total de 21 mesas durante os cinco dias. Paraty deixa de ser, por curto período, a capital mundial da cultura e começa a contagem regressiva para a FLIP de 2008.

Por Paulo de Tarso Venceslau

    
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     Apesar de enviar dois repórteres para cobrir a 5ª FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, CONTATO não conseguiu todos os eventos. Os melhores momentos, porém, foram devidamente registrados.

Augusto Boal

     Na tarde de quinta-feira, 5, o polêmico Boal, juntamente com Eduardo Tolentino, co-fundador do Grupo Tapa, e mediada por Marco Antonio Braz, fez uma marcante homenagem a Nelson Rodrigues. Leu um longo depoimento e citou o principal conselho dado por Nelson Rodrigues, após a leitura das primeiras peças escritas por aquele que fundaria o Teatro do Oprimido: "deforma, Augusto". A platéia aplaudiu com entusiasmo.
     Durante a ditadura (1964-1985), quando Augusto Boal foi preso acusado de subversão, Nelson Rodrigues publicou um artigo defendendo fervorosamente o dramaturgo. "Sua vida é uma apaixonada meditação sobre o mistério teatral", concluía Rodrigues em seu artigo.

 

     Para a FLIP, Boal escreveu uma crônica sentimental da amizade que os uniu relembrando circunstâncias em que travaram conhecimento, numa conferência dada por Nelson na Faculdade de Química na Universidade do Brasil. Apesar das profundas e marcantes diferenças políticas, ali nascia uma amizade que duraria três décadas e culminaria com uma célebre crônica de Nelson contra a prisão do amigo, em 1971, em pleno regime militar.
     O Grupo Tapa montou várias peças de Nelson Rodrigues. Tolentino destacou Viúva, porém honesta, primeira peça apresentada pelo grupo nos anos 1980, passando por Vestido de noiva, encenada no começo dos anos 1990, até A Serpente, a mais recente. A universalidade da dramaturgia de Nelson Rodrigeus, segundo Tolentino, ele percebeu ao montar Vestido de noiva com atores poloneses: "eles foram ao cerne, aos arquétipos da obra de Nelson, mostrando a capacidade de ele ser compreendido em qualquer lugar".

Ponto alto

     "Narrativas de Conflito", com Lawrence Wright e Robert Fisk foi a mesa patrocinada pela revista Piauí. Fisk lembrou um pouco o Self com todo o british accent – sotaque britânico. A mediadora propôs que, a partir de certo ponto, um jornalista entrevistasse o outro. O problema foi que Fisk quis provocar o americano Lawrence quando colocou os Estados Unidos em posição difícil. Lawrence contra-atacou, foi um pouco ingênuo e acabou desistindo do embate. Perguntou a Fisk: "Você acha que os Estados Unidos mereciam ser atacados no 11 de Setembro?" Fisk é especialista em Oriente Médio. "Que pergunta mais idiota, Lawrence!? Você obviamente já sabe a resposta: ninguém nunca merece ser atacado! Você acha que o Iraque merecia ser atacado depois???", devolveu Fisk. A platéia quase veio abaixo.
     Robert Fisk é correspondente do jornal britânico The Independent no Oriente Médio e autor de A Grande Guerra pela Civilização e de Pobre Nação, trabalhos de fôlego lançados recentemente no Brasil. O jornalista Lawrence Wright, cujo livro O vulto das torres, ganhador do Prêmio Pulitzer deste ano, revela de modo brilhante as raízes dos trágicos eventos de 11 de Setembro.

 

 

 

 

Ruy Castro e Fernando Morais lançam movimento em defesa da biografia de Roberto Carlos

Pedro Venceslau, de Paraty

       Na manhã de sexta-feira, 6, o debate sobre a censura bateu o recorde de público da 5a. FLIP. Na “Tenda dos Autores”, o público estimado foi de 800 pessoas. Na “Tenda da Matriz”, que reúne os com e os sem ingresso para acompanhar as mesas por um telão, recebeu 1,2 mil pessoas, segundo a organização do evento.
      Pela primeira vez ao longo desses cinco anos, um movimento com caráter político foi lançado pelos autores. Por sugestão da platéia, Ruy Castro e Fernando Morais conclamaram os participantes da FLIP a assinar um abaixo assinado, dirigido ao Congresso Nacional, para rever o artigo da Constituição que garante a liberdade de informação. Ver entrevista exclusiva com Ruy Castro na página 7.
A iniciativa foi um desagravo à biografia “Roberto Carlos em detalhes”, do jornalista Paulo César Araújo, que foi confiscada das livrarias depois uma batalha judicial do biografado contra o autor. “Estamos vivendo a era da censura togada, que não atinge apenas os livros, mas também os jornais de fora das grandes cidades. Os senhores de capa preta estão proibindo a sociedade de se informar. Quando um jornal do interior é censurado, isso não rende nem notinhas nos grandes jornais”, afirmou Fernando Morais, autor do livro “Na toca dos Leões”, sobre a agência W/Brasil, que foi vítima da ação de um juiz goiano.
      Ruy Castro, que enfrentou uma batalha judicial de 11 anos contra a família de Garrincha em função do livro “Estrela Solitária”, também saiu em defesa de Araújo: “Já que Roberto Carlos exigiu o seqüestro de todos os exemplares do livro, que pelo menos pegasse um para ler”. Paulo César Araújo garantiu que a luta não acabou. “Passei 15 anos fazendo o livro. Se for preciso, fico mais 15 anos lutando para evolve-lo às livrarias. Esse caso abre um precedente perigoso. Se alguém, um dia, escrever uma biografia sobre Maluf ou Fernandinho Beira Mar, os biografados poderão alegar a mesma coisa que Roberto Carlos para impedir o livro de circular”.
      Ruy Castro não perdeu a chance de fazer uma provocação. “A Companhia das Letras (que lançou a biografia de Garrincha) lutou durante 11 anos em defesa da liberdade de expressão. Você (Araújo) foi abandonado por sua editora, a Planeta, que é espanhola. Se a editora fosse brasileira, você acredita que eles não teriam desistido tão fácil?”. Araújo preferiu não bater de frente. “Prefiro acreditar que eles foram coagidos no calor da história e pelas ameaças dos juízes”.

PERDOA-ME POR ME TRAIRES,
com Alan Pauls e Maria Rita Kehl


      O badalado escritor argentino Alan Pauls autor do romance O Passado, usa o desencantamento de um casal para fazer um inventário das doenças contemporâneas do amor, com todos seus egocentrismos e consumismos sentimentais. "Existe alguma diferença entre o amor e a doença?" pergunta Pauls.
      Para a psicanalista e escritora Maria Rita Kehl o narrador no livro de Pauls é memorioso. Para ela, a pior traição é o esquecimento. Não existe o presente para o narrador porque o presente não se esgota. E termina com duas provocações: 1) São só as mulheres que tratam do amor? 2) Porque você (Pauls) você descreve as cenas eróticas sem maiores sutilezas?
      Pauls não se intimidou: “Não sou expert em amor. Aliás, sou uma vítima do amor. Num romance, quando o sexo aparece como fruto de uma relação amorosa ele tem de ser explícito, sem tergiversação”. O mediador quase prejudica um debate que despertou muito interesse, principalmente entre os mais jovens.
O autor argentino fez grande sucesso entre as mulheres. Loiro, com olhos azuis profundos, ele arrancou suspiros. Porém, o sucesso não foi o mesmo entre os representantes da velha guarda que assistiram o debate.

Folclore
Cabra Vadia foge e quase se afoga

      Nelson Rodrigues, um homem de TV, em1968, aparecia diante das câmeras ao lado de uma parceira inusitada: uma cabra alva e desobediente. Era a "cabra vadia", como a chamava para pontuar seus comentários aparentemente mal humorados. Resultado: Cabra Vadia foi o nome que deu para uma coleção de crônicas políticas publicada em O Globo entre os meses de janeiro e outubro daquele ano, período semelhante ao da coletânea Óbvio Ululante.
      Por isso mesmo, uma das estrelas da festa literária foi uma cabra trazida a Paraty para participar das homenagens a Nelson Rodrigues. Porém, o animal fugiu da árvore à qual estava amarrada, em frente à Igreja de Santa Rita, e jogou-se nas águas do mar sonolento que banha a cidade. Imediatamente, uma pequena multidão ficou torcendo para que a cabra se salvasse. Felizmente, Delcinei Mariano, funcionário de uma pousada, entrou na água e resgatou o animal que tanto inspirou o autor homenageado da 5ª FLIP.


 

 

 

Encerramento
      Na noite de domingo, 8, teve a tradicional leitura dos "livros de estimação" dos convidados, que marca o encerramento da FLIP. Gordimer elegeu trechos de um livro do nigeriano Chinua Achebe, enquanto Rodrigo Fresán leu "Matadouro 5", de Kurt Vonnegut. Também estavam na mesa Nuno Ramos, Ahdaf Soueif, Verônica Stigger, Jim Dodge, Amós Oz e J.M. Coetzee.
A organização da festa também anunciou que Cassiano Elek Machado deve permanecer no cargo de diretor de programação do evento em 2008.
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Sacadas

Antonio Gonçalves Filho – repórter especial do Caderno 2, do Estadão.

“A fronteira entre linguagem literária e linguagem jornalística está cada vez mais tênue. Tem muito jornalista virando escritor e muito escritor fazendo reportagem”

“Não dá para identificar uma linha ideológica numa festa literária”.

“Estão aqui várias pessoas que levantam questões sérias sobre o mundo contemporâneo e que não estão alinhados com o pensamento ideológico que a Carta Capital pode achar que é direita. Eles têm os motivos deles, de achar que é uma festa alinhada à direita. Eu particularmente não acho”

“O jornalismo é um gênero literário”.

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Chacal

“A FLIP está se abrindo. Teve uma característica mais acadêmica e teórica. Eu mesmo não me acredito na FLIP. Eu achava que ia demorar uns vinte anos para ser convidado. Achava que não cabia a fala dos poemas, música. Foi incrível ver o Lobão tocando na Tenda dos Autores”

“É uma festa variada. Essa edição entrou o Cassiano – ex-Trip e atual Piauí, música do Lobão... Qualquer posicionamento dogmático... Qualquer crítica preconceituosa, feita a priori é dogmática”

“Não é saudável ficar de fora reclamando. A mídia é o braço armado do sistema. Minha visão é pesada. Mas não existe uma só mídia”.

FLIP em números

      Durante os cinco dias da Festa, Paraty abrigou 76 escritores de 11 países (dois vencedores do Prêmio Nobel), 20 mil turistas e 10 mil crianças nos 21 debates sobre literatura, cinema e teatro, nas mais de 100 atividades infantis e eventos paralelos. Os números finais foram apresentados na tarde de domingo, 8, em coletiva à imprensa.
Entre os escritores convidados, os dois maiores destaques vieram da África do Sul e conquistaram o Prêmio Nobel: Nadine Gordimer, laureada em 1991, e J.M. Coetzee, em 2003. Além deles, 16 escritores estrangeiros se revezaram nos disputados debates e mesas: Ahdaf Soueif, Amós Oz, Mia Couto, Ishmael Beah, Robert Fisk, Lawrence Wright, Dennis Lehane, Jim Dodge, Kiran Desai, Guillermo Arriaga, Cesar Aira, Rodrigo Fresán, Alan Pauls, Will Self, Ignácio Padilla. No time dos escritores brasileiros, Silviano Santiago, Antônio Torres, Ruy Castro, Fernando Morais, Paulo César Araújo, Chacal, Paulo Lins, Veronica Stigger, Mário Bortolotto entre outros.
A Festa também contou com atrações paralelas, como a estréia do documentário "Português, a língua do Brasil", de Nelson Pereira dos Santos; a exposição fotográfica "O lugar do escritor", de Eder Chiodetto; a mostra de cinema com filmes baseados em obras de Nelson Rodrigues; duas oficinas literárias coordenadas por Arthur Dapieve e Joaquim Ferreira dos Santos e por Sonia Rodrigues, a exposição "Uma tragédia em 24 atos", com curadoria de Marco Antônio Braz, e muito mais.

FLIP deu prejuízo

      A Festa Literária deste ano custou, segundo os organizadores, R$ 3,85 milhões, rateado entre patrocínio e parceiros. Apesar do sucesso de público e mídia, o evento deu prejuízo. Um dos diretores da Flip, Mauro Munhoz, anunciou que o evento acabou devendo entre R$ 60 mil e R$ 70 mil. O público aumentou em relação ao ano passado. Na Tenda dos Autores, onde se assiste às palestras ao vivo, o número de espectadores foi de 11.895 para 15.583. Na Tenda da Matriz, onde os debates são transmitidos por telão, de 10.002 para 15.874.