| Diploma
frio
Escritório fantasma
aplica prova de supletivo em Taubaté
Aparentemente,
é um panfleto inofensivo. Só mais um dos muitos distribuídos
pela cidade. Mas para quem deixa a correria dos dias modernos de
lado e presta um pouco de atenção percebe algo estranho,
irregularidades que aparecem logo no título do folheto. O
pedaço de papel oferece sem nenhum pudor “1º e
2º graus em tempo reduzido”. Desde 1996, as nomenclaturas
“1º” e “2º” não são
mais usadas. Tornaram-se ensinos fundamental e médio, respectivamente.
CONTATO foi atrás do milagre anunciado e descobriu que as
irregularidades não param por aí. Além disso,
nosso repórter foi ameaçado por um dos sócios
do escritório “Supletivo MegaCursos”
Por
Marcos Limão
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Teoricamente,
o “Supletivo MegaCursos” é um escritório
de captação de alunos: ela atrai as pessoas de Taubaté
e envia para o estado do Rio de Janeiro, onde são realizadas
as provas. Um dos sócios da empresa, Maurício Cardoso,
declara que ele mesmo leva o aluno para fazer a prova no estado
do Rio de Janeiro e o Centro Educacional Futura emite os diplomas.
Há aproximadamente dois meses
na cidade, o “Supletivo” está instalado
na sala 206, no edifício Central Office, localizado na
praça Dom Epaminondas, no Centro. Mas o escritório
não possui registro no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica
(CNPJ). Além disso, CONTATO colheu o depoimento de um aluno
que afirmou ter feito a prova no escritório em Taubaté,
numa das quatro mesas escolares que ficam ao lado da mesa da secretária.
E mais: a própria secretária confirma que as provas
são realizadas no escritório de Taubaté.
Para tentar convencer a reportagem
sobre a legalidade da sua atividade, Maurício Cardoso afirma:
“Eu trabalho com a Futura, eu trabalho com o Colégio
Portinari, eu trabalho com o Cobra Brasil. São escolas
à distância, e todas elas têm publicação
em Diário Oficial.”
Quando o proprietário pronuncia o nome da Escola Cobra
Brasil, a reportagem pergunta se seria a mesma escola que foi
fechada no ano passado por causa de irregularidades encontradas.
“Não foi encontrada irregularidade. O que foi
encontrado foi que o aluno de São Paulo tinha feito a prova
em São Paulo. A única irregularidade é esta”,
responde Cardoso.
Experiência
CONTATO
pergunta qual é a personalidade jurídica da “MegaCursos”.
“Eu trabalho com o Colégio Futura, do Rio de Janeiro”,
responde Cardoso.
A reportagem insiste pela segunda
vez. E Cardoso responde: “Isso daí não
te interessa! Eu não sou obrigado a te falar o CNPJ. Não
tem nada a ver. Você é aluno meu, alguma coisa?”
CONTATO pergunta pela terceira vez.
E a resposta é: “a gente está em caráter
de experiência [em Taubaté]. Se der certo isso, daí
eu vou abrir para trabalhar como autônomo. Se você
achar que a cidade não agüenta, você não
vai gastar dinheiro abrindo uma empresa. Você sabe que para
abrir empresa é barato, mas para fechar é caro.
Ela [Mega Cursos] está em caráter de experiência.
Se melhorar [o número de alunos], aí você
vai ter o CNPJ, que é o que você está querendo,
não é? A gente por enquanto não tem ainda
[CNPJ], porque a gente está fazendo um teste na cidade.
Não tem.”
O diálogo continua:
- As portas estão abertas,
teoricamente está funcionando, mas você não
tem nenhum tipo de documentação do escritório.
É isso? questiona o repórter.
-Exatamente - responde
Cardoso.
Ameaça
Alterado
desde o começo da entrevista, Cardoso ameaça a reportagem:
“Você é jornalista, né? Eu acho bom
você esperar a gente sentar pra conversar, antes de fazer
alguma besteira, porque você vai mexer com cachorro grande.
Eu não sou cachorro grande, mas tem cachorro grande por
trás. E o negócio não vai ficar muito bom
para o seu lado não. Às vezes, a corda arrebenta
para o lado mais fraco. Você é o lado mais fraco.
O lado mais forte é sempre a escola.”
Diálogo
com a secretária
Com o escritório do Supletivo
MegaCursos, em Taubaté, ocorre o seguinte diálogo,
devidamente gravado, com a secretária Simone e o repórter
que se faz passar por uma pessoa interessada:
-Qual é o tempo mínimo
pra tirar o diploma?
-Não tem tempo mínimo,
você faz quando achar melhor.
-Se eu quiser, eu tenho condição
de tirar o diploma em 20 dias?
-Se você fizer a prova o diploma
a sai em 30 ou 60 dias.
-Eu posso estudar uns 20 dias e
ir fazer a prova?
-Pode.
-Não tem problema?
-Não tem problema
-E onde eu faço a prova?
-Aqui mesmo
-Aí no local?
-Isso
-Se eu precisar de uma ajuda?
-Olha, a gente não tem professor
aqui. Caso você não entenda alguma pergunta, a gente
pode te explicar.
-Na hora da prova?
-Na hora da prova não. Se
você quiser fazer um simulado antes.
-Eu faço o simulado, vocês
me explicam, depois eu sento para fazer a prova?
-Isso
-Eu preciso urgente deste diploma.
Se eu quiser, eu tenho condição de tirar em 20 dias?
-Isso.
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Advogado
O
advogado do sócio-proprietário da MegaCursos, Flávio
Bittencourt, ligou para a redação para dar explicações,
mas não respondeu nenhuma das perguntas feitas pela reportagem.
Confira os principais trechos da
conversa:
- O Maurício me afirmou
que não existe nenhuma personalidade jurídica por
trás do Supletivo MegaCursos e a empresa está aberta.
Como o senhor encara esta situação?
- Hoje, no Brasil, você sabe
como está a situação das empresas... Ele
[Maurício] veio pra cá [Taubaté], alugou
o ponto, montou [o escritório] e está tomando providências
da sua documentação como representante. E representante
comercial, pelo Código Comercial, você pode ser até
na sua casa.
- Isso é uma irregularidade
ou não é uma irregularidade. Sim ou não?
- Eu não vou te responder
isso por telefone, porque de repente eu tenho uma ótica
e você tem outra. O ponto está alugado e o máximo
que ele pode incorrer é uma multa do município.
- Qual é a escola que está
emitindo os diplomas?
- Isso só vou te passar mediante
uma reunião.
- O Maurício disse que é
a Escola Futura do Rio de Janeiro?
- Essa informação
eu não tenho porque eu só peguei alguns detalhes.
- Além de Taubaté,
quais são as outras cidades que o Supletivo MegaCurso atua?
- Não sei. Isso você
tem que perguntar pra ele[Maurício].
- Quais são as outras pessoas
que fazem parte da sociedade [do escritório Mega]?
- Não sei.
- Onde são realizadas as
provas?
- No Rio de Janeiro.
- Por que são feitas lá?
- Porque tem que ser.
- Por que a escola que emite o diploma
é de lá [RJ]?
- Isso eu não sei.
- O Maurício é de
Taubaté mesmo?
- Olha... ele é uma pessoa
que tem moradia fixa parece que em São Paulo e outros detalhes
eu não sei.
- Qual é o ramo de atividade
dele [Maurício]?
- Representante, já te falei.
- Representante de...?
- Representante comercial, esta
é a palavra.
- Representante comercial de quem?
- Eu gostaria que você marcasse
um horário pra gente sentar pra conversar.
- Deixa um telefone pra contato?
- Não, eu te ligo.
- Eu não vejo nenhum problema
em um telefone para contato?
- Eu conheço bem a sua atividade.
Eu estou esclarecendo aquilo que é possível ser
esclarecido.
Conselho Nacional de Educação
Mesmo
se o escritório de captação de alunos de
Taubaté trabalhasse no limite da legalidade, sua metodologia
estaria reprovada, segundo o parecer do Conselho Nacional de Educação.
Aprovado em 4 de novembro de 1997, ele estabelece regras para
o ensino fundamental e médio (supletivo) com utilização
e metodologia de ensino a distância: “Torna-se
necessário registrar que são inteiramente reprováveis,
do ponto de vista político e administrativo, certas práticas
deliberadas de “captura de clientes” em Estado em
que a instituição e o projeto de educação
a distância não se encontram devidamente autorizados.
Práticas condenáveis, ainda que em regiões
fronteiriças. Práticas competitivas e predatórias
típicas da globalização comercial mas pouco
ou nada compatíveis com o compromisso de qualidade devido
aos clientes, com as especificidades de cada sistema de ensino
e com as tradições culturais de cada Estado. Afinal,
se um projeto é tecnicamente bom e a instituição
é idônea, estão preenchidos os requisitos
essenciais para a devida regularização junto aos
sistemas de ensino estaduais, evitando-se situações
complicadas, e às vezes humilhantes, aos eventuais usuários
dos “serviços de turismo travestidos em educação
a distância”.
Outro
lado
O Conselho Estadual de Educação
do Rio de Janeiro disse que autoriza o funcionamento do Centro
Educacional Futura. Porém, deixa claro que “o
funcionamento de um curso autorizado pelo estado do Rio, fora
da sua área não tem valor legal nenhum. A lei não
prevê a captação de aluno.”
O Centro Educacional Futura, através
do seu proprietário Washington Barbosa, afirma que: “o
nosso colégio não mantém nenhum tipo de representação
nem de pessoa física nem de pessoa jurídica fora
do estado do Rio de Janeiro. Eu desafio qualquer um a apresentar
documentos. Fora do estado [RJ] ninguém tem autorização
pra representar o colégio Futura. Isso não é
a primeira vez que acontece. Toda hora acontece, principalmente
no estado de São Paulo, gente telefonando pra cá,
pra saber se existe alguém representando o nosso colégio.
Não existe ninguém.” 
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