IMPRESSÕES SOBRE A DEPRESSÃO

A depressão, quarta maior responsável pela incapacitação pessoal no mundo e poderá ser a segunda até 2020, segundo a Organização Mundial de Saúde, é abordada por mestre JC Sebe que faz, ao mesmo tempo, um contraponto com as novelas que abordam temas considerados tabus, apesar de fazerem parte do cotidiano de muita gente

 

 


      Além de entretenimento, as novelas, muitas vezes, têm prestado bom serviço à opinião pública. Por certo, há também malefícios, mas não cabe aponta-los agora. Ao abordar temas que, apesar de presentes, no cotidiano são pouco debatidos, estrelas são jogadas nas noites escuras das vidas privadas. Favorecendo o amadurecimento de aspectos abafados pela vergonha social de ter problemas, forçando a perspectiva dos que padecem tais circunstâncias, autores conseguem driblar os riscos de pedagogismos baratos, ou vãs lições de moral. No lugar abre-se o fértil campo de debates que expõem ângulos pouco prezados na seleção de assuntos que caracterizam nossas atitudes coletivas, conversas corriqueiras e preocupações sociais.
      Assim, abordagens sobre: aborto ou eutanásia são tratados de maneira natural e na maioria das vezes com delicadeza. Em termos sócio-históricos assuntos como imigração, cuidados com os velhos, violência doméstica, são discutidos de forma a compor um dia-a-dia que, paradoxalmente, nos parece familiar ainda que, quase sempre, silenciado. Isso chega mesmo a parecer um mistério de contradições fatais: sabemos que existe, testemunhamos casos, mas nunca os colocamos publicamente.
Entre tantos temas, a anorexia, bulimia, drogas em geral (principalmente o alcoolismo) são evidenciados com forte apelo para o tratamento dessas desordens comportamentais como doenças tratáveis. Acho que aí, na possibilidade de cura, reside a virtude mor de tais propostas.
      Contudo, talvez por ser de difícil encenação, um dos maiores problemas da sociedade ocidental tem sido evitado: a depressão. E como ela nos ronda, ameaça, tortura, nos torna servos e mesmo algozes de nós mesmos! Pérfida, nos rouba a paz, cria um submundo e obriga a dependências maiores e á ela rendemos nossas alegrias, satisfações, sono, desejos. Quando não pessoalmente, atingindo os próximos, reconhecemos manifestações que são modernamente nomeadas como: “Síndrome de Déficit de Atenção” (DDA), “Síndrome de Pânico”, “Estresse”, Psicose Maníaco Depressiva (PMD), Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC) e tantas outras especificações que chegam a assustar. Se estas são formas “novas”, devemos lembrar que antes se ouvia pessoas dizendo que fulano “sofre dos nervos”, “é esquizofrênico” “não é bom da cabeça”, “é melancólico”, “pancada” ou mesmo “louco de vez”. Felizmente os avanços da medicina procederam a verticalização dos estudos que hoje insistem em mostrar a dor moral que afeta quantos sofrem desses males, e, quanta aflição há em cada história dessas! Sei que é difícil conviver com gente assim, em particular quando são males crônicos, mas tudo fica mais claro e lógico se assumirmos que se trata, fatalmente, de casos clínicos.

 

 

 

 

 

 

         Os especialistas nos assustam. Aliás, frente aos números podemos nos afligir com razões posto que atualmente, para a Organização Mundial da Saúde, há uma nítida evolução numérica que denuncia que na década de 1990 a depressão foi avaliada com a quarta maior causa de incapacitação pessoal, e para 2020 avalia-se que será a segunda.
      Sob todos os pontos de vista, a depressão é uma ameaça crescente. Sendo característica de grupos que ostentam baixa auto-estima suas principais manifestações são sombrias porque implicam reclusão voluntária, perda de prazeres, inibição psíquica, passividade, solidão mórbida e complexo de inferioridade. Com isso, fica aberto o caminho para os derivativos, principalmente para a freqüência a medicamentos de uso indiscriminado, drogas e até tendências suicidas. Há, contudo, uma situação ainda mais alarmante. Se a depressão cresce, um falso antídoto também assume proporções: os energéticos.
Muito se fala dos recursos que jovens adotam para se manterem eufóricos. Estas soluções que concentram cafeína e são misturadas a bebidas alcoólicas se apresentam como motivadoras de excitação, alegria e prazer, mas, é preciso dizer que, além de perigosas, elas passam e reconduzem à velha depressão. E assim a vida continua... ou melhor, continuaria se não fosse apontado um caminho de volta a si mesmo. Filtrando as lições das novelas, convém que abordemos o assunto, sempre, porém, lembrando que há saídas.