Além de entretenimento,
as novelas, muitas vezes, têm prestado bom serviço
à opinião pública. Por certo, há também
malefícios, mas não cabe aponta-los agora. Ao abordar
temas que, apesar de presentes, no cotidiano são pouco
debatidos, estrelas são jogadas nas noites escuras das
vidas privadas. Favorecendo o amadurecimento de aspectos abafados
pela vergonha social de ter problemas, forçando a perspectiva
dos que padecem tais circunstâncias, autores conseguem driblar
os riscos de pedagogismos baratos, ou vãs lições
de moral. No lugar abre-se o fértil campo de debates que
expõem ângulos pouco prezados na seleção
de assuntos que caracterizam nossas atitudes coletivas, conversas
corriqueiras e preocupações sociais.
Assim, abordagens sobre: aborto
ou eutanásia são tratados de maneira natural e na
maioria das vezes com delicadeza. Em termos sócio-históricos
assuntos como imigração, cuidados com os velhos,
violência doméstica, são discutidos de forma
a compor um dia-a-dia que, paradoxalmente, nos parece familiar
ainda que, quase sempre, silenciado. Isso chega mesmo a parecer
um mistério de contradições fatais: sabemos
que existe, testemunhamos casos, mas nunca os colocamos publicamente.
Entre tantos temas, a anorexia, bulimia, drogas em geral (principalmente
o alcoolismo) são evidenciados com forte apelo para o tratamento
dessas desordens comportamentais como doenças tratáveis.
Acho que aí, na possibilidade de cura, reside a virtude
mor de tais propostas.
Contudo, talvez por ser de
difícil encenação, um dos maiores problemas
da sociedade ocidental tem sido evitado: a depressão. E
como ela nos ronda, ameaça, tortura, nos torna servos e
mesmo algozes de nós mesmos! Pérfida, nos rouba
a paz, cria um submundo e obriga a dependências maiores
e á ela rendemos nossas alegrias, satisfações,
sono, desejos. Quando não pessoalmente, atingindo os próximos,
reconhecemos manifestações que são modernamente
nomeadas como: “Síndrome de Déficit de Atenção”
(DDA), “Síndrome de Pânico”, “Estresse”,
Psicose Maníaco Depressiva (PMD), Transtorno Obsessivo-compulsivo
(TOC) e tantas outras especificações que chegam
a assustar. Se estas são formas “novas”, devemos
lembrar que antes se ouvia pessoas dizendo que fulano “sofre
dos nervos”, “é esquizofrênico”
“não é bom da cabeça”, “é
melancólico”, “pancada” ou mesmo “louco
de vez”. Felizmente os avanços da medicina procederam
a verticalização dos estudos que hoje insistem em
mostrar a dor moral que afeta quantos sofrem desses males, e,
quanta aflição há em cada história
dessas! Sei que é difícil conviver com gente assim,
em particular quando são males crônicos, mas tudo
fica mais claro e lógico se assumirmos que se trata, fatalmente,
de casos clínicos.
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Os
especialistas nos assustam. Aliás, frente aos números
podemos nos afligir com razões posto que atualmente, para
a Organização Mundial da Saúde, há uma
nítida evolução numérica que denuncia
que na década de 1990 a depressão foi avaliada com
a quarta maior causa de incapacitação pessoal, e para
2020 avalia-se que será a segunda.
Sob todos os pontos de vista,
a depressão é uma ameaça crescente. Sendo característica
de grupos que ostentam baixa auto-estima suas principais manifestações
são sombrias porque implicam reclusão voluntária,
perda de prazeres, inibição psíquica, passividade,
solidão mórbida e complexo de inferioridade. Com isso,
fica aberto o caminho para os derivativos, principalmente para a
freqüência a medicamentos de uso indiscriminado, drogas
e até tendências suicidas. Há, contudo, uma
situação ainda mais alarmante. Se a depressão
cresce, um falso antídoto também assume proporções:
os energéticos.
Muito se fala dos recursos que jovens adotam para se manterem eufóricos.
Estas soluções que concentram cafeína e são
misturadas a bebidas alcoólicas se apresentam como motivadoras
de excitação, alegria e prazer, mas, é preciso
dizer que, além de perigosas, elas passam e reconduzem à
velha depressão. E assim a vida continua... ou melhor, continuaria
se não fosse apontado um caminho de volta a si mesmo. Filtrando
as lições das novelas, convém que abordemos
o assunto, sempre, porém, lembrando que há saídas.
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