O
mês de junho terminou com um alerta. Infelizmente, alerta
que chegou tarde. Na manhã de sábado 30, barulhentas
motosserras acordaram os moradores do Green Tower, edifício
de classe média alta, localizado na avenida Tiradentes,
quase em frente à Prefeitura Municipal. Alguns moradores
não resistiram e choraram diante da fúria devastadora
que, rapidamente, pôs abaixo as árvores de um terreno
tombado pela Prefeitura. “Nunca pensei que fosse tão
triste e comovente assistir ao corte de árvores tão
lindas. Chorei”, confessa emocionado um dos moradores do
prédio vizinho ao terreno atacado por verdadeiros cupins
humanos.
Era mais um lance, talvez
último, de uma luta inglória na defesa do meio ambiente
urbano, em Taubaté.
Contatada, a Polícia
Florestal informou que havia uma autorização por
parte do DEPRN – Departamento Estadual de Proteção
aos Recursos Naturais. Procurado por nossa reportagem, o supervisor
regional do DEPRN, Ricardo de Castro Rodrigues, informou que desconhecia
a existência do decreto de tombamento assim como a Certidão
fornecida pela diretora do departamento de Planejamento, Silvia
Ramiro que reitera a vigência do decreto de tombamento.
A Certidão reafirma que é necessário que
a Urbanizadora e Incorporadora Santa Rita, proprietária
do imóvel adquirido do Banco do Brasil em leilão
público, apresente “projeto com cronograma de execução
de obra que venha contribuir para a requalificação
da ambiência urbana do espaço” para que tanto
o Executivo como o Conselho de Preservação possam
se manifestar.
Rodrigues, do DEPRN, porém,
deixa uma pista sobre a sinceridade da prefeitura: no dia 23 de
abril a Santa Rita entregou 330 mudas de plantas nativas para
o sr. Ralf da prefeitura. Isso significa que o Palácio
Bom Conselho já estava decidido a aceitar as plantinhas
como compensação pelo estrago previsto e programado.
Com certeza, os munícipes preocupados com a meio ambiente
e comas condições de vida urbana em Taubaté
estariam dispostos a oferecer muita mais para evitar esse desastre.
O resultado disso tudo foi
a premeditada agressão patrocinada pela sede de lucro de
uma empresa. O Poder Público municipal foi literalmente
achincalhado, caso não tenha sido cúmplice desta
escusa manobra, como tudo indica. A população foi
agredida porque, diante de fato consumado, corre risco de perder
mais uma área verde devidamente assegurada por lei, desde
que o prefeito Roberto Peixoto não revogue o decreto 9.491,
de 7 de novembro de 2001.
O
começo
Em novembro de 2001, o então
prefeito José Bernardo Ortiz (PSDB) assinou dois decretos.
O de número 9.491 tombou o imóvel conhecido como
Casarão dos Guisard por causa do seu valor histórico,
cultural, artístico e meio ambiente. Localizado à
avenida Tiradentes, 357, o decreto especifica que, além
do casarão, o terreno com cerca de 6 mil m² com belas
árvores frutíferas. A base legal era a Lei Complementar
055 de 8 de junho de 1994 que dispõe sobre a preservação
e proteção do patrimônio histórico,
arqueológico, paleontológico, ecológico,
arquitetônico e paisagista do município.
Essa lei prevê, além da composição
do Conselho Municipal de Preservação, que um decreto
de tombamento só será declarado nulo diante de expressa
ilegalidade e sua revogação só poderá
ocorrer inconveniência ou inoportunidade, conforme artigo
8º da Lei Complementar 55.
Prefeitura
muda de opinião
Desde que Roberto Peixoto
assumiu a Prefeitura, em 2005, observa-se uma ofensiva por parte
da Urbanizadora Santa Rita, que recebe explícito apoio
do Executivo. No Processo Administrativo 16.183/05, por exemplo,
que tem a Santa Rita como maior interessada, existem informações
reveladoras a respeito do bom entendimento do Palácio Bom
Conselho com a empresa imobiliária. O resumo da ópera
é que a revogação parcial do decreto de tombamento
já estava no horizonte das duas partes, a privada e a pública.
Todavia, até a presente data o decreto não foi revogado.
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Diante
de todas as evidências sobre a ilegalidade que está
por trás da iniciativa que redundou na devastação
das árvores no terreno tombado, os moradores do edifício
Green Tower, em fevereiro de 2007, fizeram uma representação
junto ao Ministério Público do Estado (MPE) solicitando
a abertura de um inquérito civil apara apurar ilegalidades
apontadas pelos condôminos. No final desse processo, se
abriria uma Ação Civil Pública para se obter
uma liminar que suspenda os efeitos da sugestão informal
do Conselho de Preservação e a iniciativa do Executivo
em revogar total ou parcialmente o decreto de tombamento do terreno
onde se localiza o Casarão do Guisard.
Ministério
Público
Em 1º de março,
o MPE informa aos condôminos do Green Tower que abriu um
Inquérito Civil 015/2007-LU-MA-1º PJ para apurar os
fatos noticiados e toma as seguintes providências: registrar
a autuação; juntar a representação;
intimar a Prefeitura; notificar os representantes; enviar ofício
ao Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça
do Meio Ambiente comunicando a abertura de inquérito; e
estabelece o prazo de 180 dias para sua conclusão, “salvo
necessidade de prorrogação”.
Prefeitura
Por
email, o Executivo informa:
1.
O pedido de revogação parcial do tombamento do imóvel
de que trata o Decreto nº 9.491, de 07/11/2001 está
sendo analisado pelos órgãos competentes do Município
e do Estado. O Decreto nº 9.492, da mesma data, caducou.
2.
O referido trata-se de uma minuta de certidão que continha
incorreções na digitação. Depois de
constatada a correção a ser feita, a Sra. Diretora
do Departamento de Planejamento, determinou a expedição
da certidão,o que ocorreu em 19/09/2006, sendo retirada
pelo requerente em 22/09/2006, conforme comprova a assinatura
do interessado na segunda via dessa certidão, após
pagamento feito pela Guia nº 192/06/06.
3.
A PMT não foi informada da derrubada das árvores
no último dia 30; entretanto, é importante esclarecer
que os proprietários do imóvel possuem autorização
do DEPRN para realização dos serviços.
Jogo
rápido com José Carlos Simi, economista, comentarista
da Rádio Difusora e síndico da edifício Green
Tower, ao lado da área tombada
Foi
uma surpresa?
Foi. Existe um decreto de tombamento que envolve toda a área,
inclusive as árvores frutíferas. Além disso,
os condôminos, desde 2006, contrataram um advogado para
acompanhar o encaminhamento jurídico para saber se o decreto
seria respeitado ou não. O advogado entrou com uma representação
junto ao Ministério Público Estadual para apurar
eventuais irregularidades.
O
MPE acatou a representação?
Sim. O promotor Frederico Augusto Neves Araújo, no dia
1º de março não só acatou como instaurou
inquérito. E a Prefeitura informou ao MPE que o decreto
de tombamento está em vigor, embora tenha solicitado ao
CONDEPHAT uma análise sobre a situação do
tombamento.
Alguém
autorizou o corte das árvores?
Na hora os condôminos entraram em contato com a Polícia
Florestal que informou dispor de uma autorização
do DEPRN para o corte das árvores. Não tivemos acesso
a esse documento, da mesma forma que por ser sábado não
localizamos ninguém da Prefeitura.
E
agora?
Estamos confusos. Se existe um decreto de tombamento, quem poderia
ter autorizado o corte das árvores? Portanto, estamos aguardando
o desfecho do processo. 
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