Chacal e Lobão

Por Paulo de Tarso Venceslau

    
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      Poucos antes do debate, nossa reportagem teve a oportunidade trocar rápido diálogo com Lobão.
      CONTATO: Parte da imprensa nacional tem criticado a FLIP por classifica-la como um evento patrocinado pela mercado editorial que não tem interesse em divulgar autores ainda desconhecidos. A sua participação na 5ª FLIP é um sinal de que Lobão mesmo?
      Um tanto incomodado com a pergunta, o artista olha pro alto, depois para o lado, como estivesse pensando a resposta que daria, e diz:
      LOBÃO: Essa história de mercado é bobagem. Todos nós dependemos do mercado. Aliás, o grande Shakespeare já comercializava sua arte. Ele vendia suas peças de teatro. Eu também vendo meu produto, minha música.
      A agitação que antecede o início de um debate impediu que a conversa progredisse.

      Na Tenda dos Autores os organizadores não permitiam que a imprensa permanecesse mais que vinte minutos, caso não dispusesse de ingresso adquiridos com mais de um mês de antecedência. Fotos, então, nem se fala. Poucos minutos depois de iniciado o debate, foi proibido o uso de flash.
      A concorridíssima mesa 2 com esses dois personagens antológicos da poesia, musicada ou não, foi coordenada por Marcos Augusto Gonçalves, editor da Folha Ilustrada. Gonçalves apresentou-os como representantes de diferentes gerações que enfrentaram, cada qual a seu modo, o autoritarismo da ditadura ou do sistema em si. Gonçalves lembrou que Lobão é o primeiro artista a apresentar música na FLIP. Chico Buarque e Caetano Veloso, por exemplo, participaram de debates mas a interpretação de suas músicas ficou restrita ao palco. Não foi o caso de Lobão.

     

  Duas feras caninas, cariocas da gema, que, apesar do tempo e dos diferentes campos de atuação, nunca deixaram de incomodar os poderosos de plantão. Ambos conseguem extrair poesia do cotidiano mais banal e transformá-la em coisa falada, cantada. E foi essa postura que fez Lobão apresentar “Balada do Inimigo” que ele fez “em um momento em estava impactado por alguns acontecimentos” que ele não quis revelar.
      Nessa mesma toada, Chacal fala que nos anos 60 “a gente vivia dividido entre Submarino Amarelo (sucesso do Beatles) e o camburão da ditadura. E conta que naquela época ele já costumava vir a Paraty. “A gente tomava um ônibus no Rio e descia em Mangaratiba. A viagem durava mais de seis horas. Depois a gente tomava uma barca maravilhosa que nos deixava em Paraty”.
      Toda essa introdução ele fez para introduzir o debate sobre poesia. “Não existe poesia só papel. Descobri que a poesia pode ser cantada, musicada. Ela não tem limite. Fico impressionado com Lobão cantando tchuriruba. Como é que vou fazer um poesia com esse som?”
      Lobão pega o gancho e estimulado pela pergunta de Gonçalves que queria saber como ele desenvolveu seu lado poético e revela:
      “Sou músico desde os três anos de idade. Sou auto-ditada e comecei como baterista. Minha mãe detestava poesia. E descobri a poesia com obras de autores como Chacal. Não consigo fazer música ou letra em 15 minutos. Eu demoro para produzi-las porque gosto de amadurecer cada detalhe. Geralmente, a música vem através de algum instrumento e através de sua sonoridade eu busco as palavras mais adequadas”, confessa o músico.
      Outro detalhe curioso que ele revelou. “No colégio eu fiz uma poesia denominada Vachianas, uma gozação com a maravilhosa obra de Vila Lobos. Eis que surge um carinha da esquerda festiva e elogia meu trabalho que interpretou como uma apologia às vacas, que representaria um animal explorado. Parodiando Nelson Rodrigues, respondi que ‘vaca é apenas uma vaca’.”
      Em outro momento, Lobão confessa: “Nunca consegui fazer letra em músicas dos outros e vice-versa”.

E assim prossegue a 5ª FLIP que atende as mais diferentes expectativas.

 

 

 

 

Amado reacionário

5ª FLIP homenageia Nelson Rodrigues, o genial reacionário que entrou para a história como o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos

Pedro Venceslau, de Paraty

 

    
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     Tarado? Herói? Canalha? Reacionário? Gênio? Moralista? Nelson Rodrigues foi tudo isso. Apesar de controverso, morreu como consenso em 21 de dezembro de 1981. O grande homenageado na 5ª FLIP escreveu 17 peças de teatro, sendo seis delas censuradas. Tinha fixação por temas espinhosos como incesto e adultério.
     Era anticomunista numa época onde seus colegas de redação eram todos de esquerda. Nunca saiu do Brasil e entrou para a história como o maior dramaturgo da história do país.
     Mas seu palco mesmo era a redação de um jornal. “Nelson aproveitava a lauda de ponta a ponta. Quase não deixava espaço entre as linhas”, costumava dizer o amigo Oto Lara Resende.
     
Trabalhou nas grandes redações brasileiras da sua época. Nos pujantes anos 60, esteve em O Globo, Ùltima Hora e Manchete. A primeira grande consagração pós morte aconteceu em 1992, quando Ruy Castro lançou “Anjo Pornográfico”, uma biografia definitiva, que pode ser comprado na Livraria NOBEL. Na FLIP deste ano Nelson Rodrigues está em toda parte.
Na quinta-feira, 5, foi homenageado por Augusto Boal, o poeta dos excluídos, na 3º mesa do evento. No sábado, é a vez de Arnaldo Jabor, que foi amigo de Nelson e quem melhor transpôs para o cinema o clássico “Toda nudez será castigada”.

24 atos

     Nelson Rodrigues costumava dizer que sua vida era “Uma tragédia em 24 atos”. A vida do dramaturgo oscilou entre o sucesso e o fracasso, o amor e a morte. Os dramas de seus personagens várias vezes esbarram em episódios passionais da vida do autor. A vida do “gênio” ou “tarado” – como diziam os críticos – foi exposta em Paraty em uma exposição fotográfica com 24 painéis fotográficos, distribuídos na Tenda dos Autores

Bastidores da Festa Literária
Uma multidão de jornalistas invade as estreitas ruas de pedra de Paraty

 

     Ficou mais complicada a vida dos jornalistas nesta quinta edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Na sala de imprensa, a informação é de que a credencial cinza já não dá mais o mesmo acesso de antes: só entra na “Tenda dos Autores” quem conseguiu comprar os (poucos) ingressos disponíveis.
     Lú Fernandes, a nova chefe da assessoria de imprensa, informa que o número de credenciados explodiu em 2007. Seiscentos jornalistas estão circulando pelas ruas de pedra da pequena Paraty. No ano passado, foram cerca de 400. O press kit entregue junto com as credenciais informa: “A previsão de público esse ano é de 12.000 turistas e cerca de 10.000 paratienses. A movimentação do comércio e de pousadas durante a FLIP será de 98%. Vinte e uma mesas, 5 filmes, 2 mostras e 2 oficinas estão marcadas. Estão na cidade 50 autores e mediadores nacionais e estrangeiros. Duzentos voluntários e 300 funcionários fazem parte da equipe de realização”.
     Ivani Cardoso, com crachá de coordenadora, pode ser o exemplo de um processo de burocratização que parece tomar conta da FLIP. Dizendo cumprir regras, ela ameaçou nossa reportagem caso não se limitasse rigorosamente aos vinte minutos destinados à cobertura fotográfica de cada mesa.
     Para baratear a operação da sala de imprensa, a organização não colocou telefones à disposição dos jornalistas, mas disponibilizou 14 computadores, que podem ser usados por, no máximo, 40 minutos. A assessoria de imprensa do evento terá um número reduzido de ingressos que serão distribuídos em sistema de rodízio e de acordo com o interesse, mídia, periodicidade e espaço dedicado à cobertura de cada veículo antes e durante a festa.
     Textos e fotos do evento estão disponíveis no site da FLIP. Entre os 18 escritores estrangeiros convidados estão dois ganhadores do Prêmio Nobel, os sul africanos Nadine Gordiner (1991) e J.M Corteze (2003). O grande homenageado desse ano será Nelson Rodrigues, que será tema de três mesas redondas. O evento, que começou oficialmente na tarde desta quarta feira, conta, mais uma vez, com um grande número de autores jornalistas.