Juro
que aconteceu. Desculpem-me por começar tão drasticamente,
mas foi tudo surpreendente que eu mesmo custo a admitir. Por isto
a jura. Comecei a escrever uma crônica intitulada “Meu
livro decisivo” e estava em curso quando uma
amiga apareceu em casa determinada a me levar ao cinema. Não
resisti. Rapidamente me aprontei, deixei tudo como estava e sequer
desliguei o computador. Escrevia sobre “Cartas
Portuguesas”, livro que encantou meus dias
solitários no colégio interno. Aliás, foi
na solitude de uma biblioteca modesta, apenas pródiga em
vida de santos e textos religiosos, que o li a pequena coleção
das cinco cartas apaixonadas. Devorei.
Esclareço que o livro
entrara escondido no colégio em meio a roupas e objetos
pessoais. Creio que foi a primeira leitura de amor profundo que
fiz. Fiquei marcado. Depois, ao longo dos anos, fui aprendendo
que Sóror Marina do Alcoforado (1640-1723), freira caída
de apego por um oficial francês, fora vítima de uma
situação amorosa que, eternizada nas cartas, atravessaria
os séculos e viria compor algumas das mais importantes
missivas da história.
Na primeira leitura, tudo
foi fatal aos olhos de um adolescente de doze ou treze anos e
ainda me lembro do término da primeira: “Adeus.
Não posso separar-me deste papel que irá ter às
tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte! Ai, que loucura
a minha! Sei bem que isso não é possível!
Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer
mais ainda”.
No cinema, minha surpresa
foi enorme ao ver que o belo filme “A vida secreta
das palavras”, produção espanhola
de 2005, com Tim Robbins e Sarah Polley, e que girava exatamente
sobre este livro, sobre aquelas cartas magníficas. Fiquei
perplexo. Encantado também.
A história do filme
se passa em grande parte em uma plataforma de extração
de petróleo em alto mar na Inglaterra. Um desastre decorrente
da emersão de uma bolha de gás deixou um queimado
em estado grave. A necessidade de uma enfermeira aproximou-o de
Hanna, foragida croata que, embora operária, se propôs
ao trabalho temporário. Em sua solidão absoluta,
a moça escondia uma história pessoal terrível
que, aos poucos, ia se desvelando em paralelo à do paciente.
Ele havia se apaixonado pela esposa do melhor amigo que, fatidicamente,
se suicidara em meio àquela explosão. Ao tentar
salvá-lo, ele se feriu de maneira a quase perder a vista.
Ela, antes estuprada por soldados, revelava as cicatrizes presentes
em seu corpo torturado e mente ferida. No meio as “Cartas”
que haviam sido presente do ferido à mulher do amigo. Ambos
conversam sobre elas.
|

A
superposição das duas situações - da
crônica e do filme - me fez pensar na perenidade deste texto
publicado pela primeira vez em 1810 na França. O que teria
promovido aquelas dolorosas exclamações de amor à
aceitação universal? É verdade que a beleza
do texto justificaria a inclusão da “Cartas”
no âmbito das letras; por certo a força da história
também, mas me pergunto se não é a irrestrita
capacidade de amar que arrebata a todos? Ou seria inviabilidade
do amor correspondido?
De toda forma, para mim, este
foi um livro decisivo porque eu li antes de descobrir qualquer paixão
e, mais que isto, por ver a mágica das palavras combinadas
em torno da renúncia de si. Recordo-me do impacto irônico
do diálogo surdo da freira que escrevia sem se preocupar
com os limites. Duas passagens não me deixaram nunca: “Detesto
sua sinceridade! Acaso lhe tinha pedido que me dissesse sinceramente
a verdade? Por que não me deixou minha paixão? Tudo
o que tinha que fazer era não escrever: eu não procurava
ser esclarecida”. E mais outra “Não
será para mim o cúmulo da desgraça saber que
nem sequer fui capaz de o obrigar a ter cuidado de me enganar?”.
Algo mais me enreda na aceitação das “Cartas”:
o fato de, por muito tempo, duvidarem da autoria das mesmas. Felizmente,
hoje temos esclarecido que Sóror Mariana realmente existiu,
mas o que se indaga é se caberia no mundo de hoje amor igual
aquele.
O filme retoma o tema, mas de
um jeito meigo, pois o amor nasce da superação. Por
todos os motivos vejo hoje que “Cartas portuguesas”
foi mesmo um livro decisivo em minha história de leitor.
|