A
nuvem cinza de poluição e o odor forte e indecifrável
da metrópole indicam que chegamos a São Paulo. São
10 horas da manhã do ensolarado sábado, 16. Estudantes
da Universidade de Taubaté descem do ônibus no campus
da USP com um objetivo: participar da Plenária Nacional
em Defesa das Universidades Públicas, em frente ao prédio
da Reitoria, ocupada há mais de 45 dias. É a maior
mobilização realizada por estudantes depois que
o PT chegou ao poder. Desde então, a esquerda perdeu o
rumo: não sabe mais o que significa “ser de esquerda”.
A UNE (União Nacional dos Estudantes) tornou-se chapa-branca,
governista e confunde a cabeça dos estudantes menos politizados.
Tudo indica que depois de quase 5 anos, os universitários
começam a se reorganizar para defender a educação
pública e de qualidade. Essa Plenária é a
primeira manifestação nacional nessa direção
e, segundo suas diretrizes, novas ondas de ocupação
deverão ocorrer na primeira quinzena de agosto e também
uma marcha nacional em direção à Brasília
que já está sendo planejada.
Prédio
Ocupado
Dentro
da Reitoria, o ambiente é livre. Pode-se fazer quase tudo
ali dentro. Somente para fotografias e entrevistas há restrições:
tem que possuir autorização da Comissão de
Imprensa. Outra regra: não pode aparecer o rosto de ninguém
nas fotos. Uma liderança da greve justifica: “é
para evitar sabotagens ou represálias”. E avisa:
“vamos querer ver suas fotos depois.”
Nas paredes internas do prédio,
diversos cartazes estão colados: são idéias,
manifestos, charges, textos, poesias... Manifestar é permitido
e a criatividade é vulcânica.
Na ante-sala da Reitora da USP,
Suely Vilela, quatro estudantes assistem televisão deitados
em colchonetes. Um outro dorme em posição fetal
no sofá que obstrui a passagem em direção
à sala da Reitora.
Ao lado da ante-sala da Reitora, localiza-se a “central
de inteligência” da greve que, antes da ocupação,
funcionava como sala de comunicação da Reitoria.
No local, vários computadores de tela de cristal líquido
ficam ligados. Qualquer estudante pode navegar pela internet,
enviar e-mails e outras formas de comunicação pela
rede. O ambiente ali é iluminado, limpo e organizado, bem
diferente de outros espaços ocupados.

Estudante
comanda Plenária Nacional em Defesa das Universidades Públicas
em frente o prédio ocupado da Reitoria. Clique
para ver mais
Um dos líderes da greve,
aluno de História, conta que os estudantes da USP recebem
diversas manifestações de apoio. “Tem gente
que passa no supermercado, enche uma sacola de comida e traz pra
gente aqui.” Além da comida, ele relata que recebe
dinheiro de simpatizantes da causa e manifestações
de apoio de diversas partes do Brasil. Enquanto conversa com nossa
reportagem, o estudante não tira os olhos da tela de um
dos computadores que reproduz vídeos sobre a ocupação
pelo youtube. A internet é o meio mais usado para a comunicação
e divulgação das idéias. A navegação
pelo site www.youtube.com tornou-se obrigatória para quem
está de uma maneira ou de outra envolvida com o movimento.
Quem se interessar, pode acessar o site e digitar “ocupação
usp”, que terá acesso aos vídeos da ocupação.
Ao lado da “central de inteligência”,
o cheiro de café fresco invade o nariz de quem transita
por um longo corredor que leva à cozinha onde garrafas
de café e copos descartáveis descansam sobre uma
mesinha. Não existe hora, nem limite de consumo. Sobre
o fogão, panelas fervem a água para mais uma rodada.
A produção de café é, praticamente,
o dia todo.
Plenária
Nacional
Na porta do prédio ocupado,
cerca de 600 estudantes de 13 estados do país trocam experiências
sobre movimento estudantil e relatam a situação
das Universidades públicas do país. Alegria e ansiedade
estão estampadas no rosto de cada um. Afinal, trata-se
de um encontro nacional em um clima que há muitos anos
não se via.
Logo na abertura da Plenária,
ofensas partidárias são disparadas no microfone
para decidir os nomes de quem ocuparia a mesa. O mal estar é
rapidamente superado e a mesa é composta por 6 estudantes:
2 independentes, 2 do PSTU, 1 do PSOL e 1 do PCO. Em seguida,
os informes: um estudante representante de cada Universidade presente
faz seu depoimento no microfone sobre a realidade de cada região.
Uma liderança de UFSC (Universidade
Federal de Santa Catarina), por exemplo, fala das mobilizações
na cidade a favor do Passe Livre, da perseguição
na Universidade e da repressão policial. O estudante da
UFC (Universidade Federal do Ceará) fala da ocupação
que durou três dias da Reitoria e da empolgação
que a mobilização na USP causa nos estudantes cearenses.
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Já
o representante da UNESP (Universidade Estadual Paulista) fala
da mobilização em 23 campus da universidade no Estado,
das ocupações das Reitorias e da repressão
policial - (por volta das 2h30, do dia 20, quatro dias após
a realização da Plenária Nacional, a Tropa
de Choque da Polícia Militar invadiu o campus de Araraquara.
Segundo a Agência Estado, a entrada do Campus Júlio
de Mesquita Filho foi tomada pelos policiais, que impediram o
acesso dos repórteres ao local onde a reintegração
estava ocorrendo. Logo em seguida, os policiais algemaram alguns
estudantes e os encaminharam ao 4º Distrito Policial da cidade.
Até o fechamento desta reportagem não havia mais
informações sobre feridos).
As caixas de som, na ensolarada
tarde do dia 16, denunciam também a falta de bandejão
e moradias estudantis, o sucateamento da infra-estrutura, a falta
de verba para a educação e a criminalização
do movimento estudantil.
Além das reivindicações
e denúncias, há uma explícita luta política.
Pelo menos naquele dia, havia consenso a respeito do papel da
União Nacional dos Estudantes, dominada pelo PC do B, um
satélite petista no universo dos partidos políticos.
O alto-falante, por exemplo, não parava de transmitir discursos
inflamados denunciando que a UNE “é uma entidade
governista”, segundo um aluno da UFMG (Universidade Federal
de Minas Gerais), que fazia uso do microfone para repetir uma
expressão muito usada e que não foi contestada em
momento algum.
Futuro
São
muitas as críticas disparadas contra esse movimento. As
que mais incomodam, porém, são aquelas que partem
de estudantes que não concordam com a ocupação
e denunciam o seu uso por partidos políticos mais a esquerda
do PT. Dentro do próprio movimento há também
críticas a respeito de erros e equívocos cometidos
até agora e que temem um desgaste já anunciado.
Porém, diante do imobilismo
que tomou conta da sociedade bombardeada por denúncias
que vão de corrupção explícita, passando
por verdadeiros assaltos aos cofres públicos e uso ostensivo
da máquina pública em todos os níveis da
República, há sempre os otimistas que acreditam
na possibilidade de reviver manifestações antológicas
como a luta por eleições diretas em 1984.
O sonho e a esperança dos
jovens ainda são as melhores armas para se enfrentar uma
incômoda realidade. São eles que usufruirão
ou sofrerão amanhã as conseqüências dos
(des) governos de hoje.
Taubaté
Em
2006, os estudantes criaram o Movimento Estudantil da Unitau.
Desde então, eles organizaram manifestações
e saíram duas vezes às ruas para defender a re-matrícula
dos alunos inadimplentes, transparência na concessão
de bolsa de estudos, criação de bandejão
e moradias estudantis, a realização de um Congresso
para discutir a situação do ensino e estatização
da Unitau. Para a estatização tornar-se uma realidade,
o Movimento declarou estar aberto a qualquer tipo de apoio, seja
de sindicatos, entidades, partidos, políticos e cidadãos
comuns.
Segundo uma liderança do
Departamento de Comunicação Social, o DCE não
apoiou as duas manifestações realizadas no ano passado,
e ainda passou nos Departamentos da Universidade para “queimar
o filme” do Movimento. A liderança, que pede para
não ser identificado, também deixa transparecer
sua indignação com atitudes como essa tomada pelo
DCE: “até quando a gente vai agüentar ver os
nossos amigos indo embora da região para conseguirem estudar.”


Formas
de atuação dos DCEs da Unicamp e da Unitau não
são meras coincidências.
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