Ocupação na USP

Reportagem de CONTATO esteve na reitoria da Universidade de São Paulo ocupada há quase dois meses por estudante; acompanhou os debates e a rotina dos jovens que desafiam autoridades, o bom senso e a lógica, segundo a grande imprensa, e registrou que essa agitação pode ser o primeiro sinal do renascimento de um movimento estudantil que parecia sufocado pela governista União Nacional dos Estudantes, atrelada ao Partido dos Trabalhadores

Por Marcos Limão


Universitários da Unitau ocuparam a Câmara no final do ano passado
para que as suas reivindicações fossem atendidas - Julio Moraes/Netinforma                                                                                                                                   

     A nuvem cinza de poluição e o odor forte e indecifrável da metrópole indicam que chegamos a São Paulo. São 10 horas da manhã do ensolarado sábado, 16. Estudantes da Universidade de Taubaté descem do ônibus no campus da USP com um objetivo: participar da Plenária Nacional em Defesa das Universidades Públicas, em frente ao prédio da Reitoria, ocupada há mais de 45 dias. É a maior mobilização realizada por estudantes depois que o PT chegou ao poder. Desde então, a esquerda perdeu o rumo: não sabe mais o que significa “ser de esquerda”.
A UNE (União Nacional dos Estudantes) tornou-se chapa-branca, governista e confunde a cabeça dos estudantes menos politizados. Tudo indica que depois de quase 5 anos, os universitários começam a se reorganizar para defender a educação pública e de qualidade. Essa Plenária é a primeira manifestação nacional nessa direção e, segundo suas diretrizes, novas ondas de ocupação deverão ocorrer na primeira quinzena de agosto e também uma marcha nacional em direção à Brasília que já está sendo planejada.

Prédio Ocupado
     Dentro da Reitoria, o ambiente é livre. Pode-se fazer quase tudo ali dentro. Somente para fotografias e entrevistas há restrições: tem que possuir autorização da Comissão de Imprensa. Outra regra: não pode aparecer o rosto de ninguém nas fotos. Uma liderança da greve justifica: “é para evitar sabotagens ou represálias”. E avisa: “vamos querer ver suas fotos depois.”
     Nas paredes internas do prédio, diversos cartazes estão colados: são idéias, manifestos, charges, textos, poesias... Manifestar é permitido e a criatividade é vulcânica.
     Na ante-sala da Reitora da USP, Suely Vilela, quatro estudantes assistem televisão deitados em colchonetes. Um outro dorme em posição fetal no sofá que obstrui a passagem em direção à sala da Reitora.
Ao lado da ante-sala da Reitora, localiza-se a “central de inteligência” da greve que, antes da ocupação, funcionava como sala de comunicação da Reitoria. No local, vários computadores de tela de cristal líquido ficam ligados. Qualquer estudante pode navegar pela internet, enviar e-mails e outras formas de comunicação pela rede. O ambiente ali é iluminado, limpo e organizado, bem diferente de outros espaços ocupados.

Estudante comanda Plenária Nacional em Defesa das Universidades Públicas em frente o prédio ocupado da Reitoria. Clique para ver mais


     Um dos líderes da greve, aluno de História, conta que os estudantes da USP recebem diversas manifestações de apoio. “Tem gente que passa no supermercado, enche uma sacola de comida e traz pra gente aqui.” Além da comida, ele relata que recebe dinheiro de simpatizantes da causa e manifestações de apoio de diversas partes do Brasil. Enquanto conversa com nossa reportagem, o estudante não tira os olhos da tela de um dos computadores que reproduz vídeos sobre a ocupação pelo youtube. A internet é o meio mais usado para a comunicação e divulgação das idéias. A navegação pelo site www.youtube.com tornou-se obrigatória para quem está de uma maneira ou de outra envolvida com o movimento. Quem se interessar, pode acessar o site e digitar “ocupação usp”, que terá acesso aos vídeos da ocupação.
     Ao lado da “central de inteligência”, o cheiro de café fresco invade o nariz de quem transita por um longo corredor que leva à cozinha onde garrafas de café e copos descartáveis descansam sobre uma mesinha. Não existe hora, nem limite de consumo. Sobre o fogão, panelas fervem a água para mais uma rodada. A produção de café é, praticamente, o dia todo.

Plenária Nacional
      Na porta do prédio ocupado, cerca de 600 estudantes de 13 estados do país trocam experiências sobre movimento estudantil e relatam a situação das Universidades públicas do país. Alegria e ansiedade estão estampadas no rosto de cada um. Afinal, trata-se de um encontro nacional em um clima que há muitos anos não se via.
     Logo na abertura da Plenária, ofensas partidárias são disparadas no microfone para decidir os nomes de quem ocuparia a mesa. O mal estar é rapidamente superado e a mesa é composta por 6 estudantes: 2 independentes, 2 do PSTU, 1 do PSOL e 1 do PCO. Em seguida, os informes: um estudante representante de cada Universidade presente faz seu depoimento no microfone sobre a realidade de cada região.
     Uma liderança de UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), por exemplo, fala das mobilizações na cidade a favor do Passe Livre, da perseguição na Universidade e da repressão policial. O estudante da UFC (Universidade Federal do Ceará) fala da ocupação que durou três dias da Reitoria e da empolgação que a mobilização na USP causa nos estudantes cearenses.

     Já o representante da UNESP (Universidade Estadual Paulista) fala da mobilização em 23 campus da universidade no Estado, das ocupações das Reitorias e da repressão policial - (por volta das 2h30, do dia 20, quatro dias após a realização da Plenária Nacional, a Tropa de Choque da Polícia Militar invadiu o campus de Araraquara. Segundo a Agência Estado, a entrada do Campus Júlio de Mesquita Filho foi tomada pelos policiais, que impediram o acesso dos repórteres ao local onde a reintegração estava ocorrendo. Logo em seguida, os policiais algemaram alguns estudantes e os encaminharam ao 4º Distrito Policial da cidade. Até o fechamento desta reportagem não havia mais informações sobre feridos).
     As caixas de som, na ensolarada tarde do dia 16, denunciam também a falta de bandejão e moradias estudantis, o sucateamento da infra-estrutura, a falta de verba para a educação e a criminalização do movimento estudantil.
     Além das reivindicações e denúncias, há uma explícita luta política. Pelo menos naquele dia, havia consenso a respeito do papel da União Nacional dos Estudantes, dominada pelo PC do B, um satélite petista no universo dos partidos políticos. O alto-falante, por exemplo, não parava de transmitir discursos inflamados denunciando que a UNE “é uma entidade governista”, segundo um aluno da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que fazia uso do microfone para repetir uma expressão muito usada e que não foi contestada em momento algum.

Futuro
     
São muitas as críticas disparadas contra esse movimento. As que mais incomodam, porém, são aquelas que partem de estudantes que não concordam com a ocupação e denunciam o seu uso por partidos políticos mais a esquerda do PT. Dentro do próprio movimento há também críticas a respeito de erros e equívocos cometidos até agora e que temem um desgaste já anunciado.
     Porém, diante do imobilismo que tomou conta da sociedade bombardeada por denúncias que vão de corrupção explícita, passando por verdadeiros assaltos aos cofres públicos e uso ostensivo da máquina pública em todos os níveis da República, há sempre os otimistas que acreditam na possibilidade de reviver manifestações antológicas como a luta por eleições diretas em 1984.
     O sonho e a esperança dos jovens ainda são as melhores armas para se enfrentar uma incômoda realidade. São eles que usufruirão ou sofrerão amanhã as conseqüências dos (des) governos de hoje.

Taubaté
      Em 2006, os estudantes criaram o Movimento Estudantil da Unitau. Desde então, eles organizaram manifestações e saíram duas vezes às ruas para defender a re-matrícula dos alunos inadimplentes, transparência na concessão de bolsa de estudos, criação de bandejão e moradias estudantis, a realização de um Congresso para discutir a situação do ensino e estatização da Unitau. Para a estatização tornar-se uma realidade, o Movimento declarou estar aberto a qualquer tipo de apoio, seja de sindicatos, entidades, partidos, políticos e cidadãos comuns.
     Segundo uma liderança do Departamento de Comunicação Social, o DCE não apoiou as duas manifestações realizadas no ano passado, e ainda passou nos Departamentos da Universidade para “queimar o filme” do Movimento. A liderança, que pede para não ser identificado, também deixa transparecer sua indignação com atitudes como essa tomada pelo DCE: “até quando a gente vai agüentar ver os nossos amigos indo embora da região para conseguirem estudar.”

Formas de atuação dos DCEs da Unicamp e da Unitau não são meras coincidências.