Sou
daqueles que acham que algumas orientações são
de exclusiva deliberação dos pais. Educação
de filhos, por exemplo, é algo que deve derivar de determinações
materno-paternais. E só. Escolas, igrejas, entidades de
serviços podem até externar diretivas, mas as atitudes
educacionais ganham sentido se inscritas em processos mais completos,
capazes de dimensionar o projeto familiar.
Devo, contudo, dizer que algumas
preocupações sobre o jeito de anular a infância
têm me preocupado faz tempo. É lógico que
a tecnologia avançada, a globalização e neutralização
das práticas e conceitos sobre o que é ser criança
hoje em dia atuam nesta direção. Mas há algo
a mais, creio que há um abuso consumista sugerindo que
seja abreviada a criancice.
Confesso que sai chocado do magnífico filme “Pequena
miss Sunshine”. Do cinema, fui direto para casa e descobri
o site oficial da produção de 2006, detentora de
dois Oscar (www2.foxsearchlight.com/littlemiss-sunshine).
A história do filme relata
a trajetória de uma família de classe média
americana. Tudo é narrado como uma paródia onde
o pai, a fim de fazer algum dinheiro, inventa um método
fracassado de auto-ajuda. A intimidade do lar é deflagrada
pela presença de um filho que faz voto de silêncio,
da mãe exausta com a rotina da vida, do avô um ex-consumidor
de heroína e do cunhado um suicida em potencial. A filha,
nessa trama, menina ainda, é indicada para representar
a cidade em um concurso de miss destinado a pré-adolescentes
e isto vira um projeto para toda a família que então
passa a viver uma situação caricata da sociedade
norte-americana como um todo.
O resultado é assustador
e as últimas cenas do filme não me saem da cabeça.
As meninas, embonecadas como se fossem adultas lutando pela fama
deixam a nu todo cinismo que apaga os pressupostos do que seria
a infância.
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Desde
então, comecei a prestar mais atenção nos critérios
ditados pela moda chamada infanto-juvenil. Para os meninos, o uso
da calça comprida, por exemplo, foi antecipado e quando não
restam bermudas, os garotos logo se fantasiam de pais e se compõe
com óculos, bonés, tênis como se não
fossem crianças. Mas para as meninas é pior, pois
as bonecas são trocadas logo pelas bolsas, sapatos de plataformas,
colares e brincos. Aliás, em vista das meninas a impressão
que se tem é que as mães – fisicamente adultas,
mas imaturas psicologicamente – brincam com os próprios
rebentos como as filhas fariam com as bonecas. Creio que o pior
é o uso de maquiagem. Que coisa assustadora: batons, perfumes,
lápis para sobrancelhas, tudo feito especialmente para que
deixem de ser o que mais tarde vão reivindicar como a melhor
fase da vida. Horror puro.
Fico pensando nos efeitos nocivos
que os jogos eletrônicos trazem e me assusto quando percebo
que o garoto que mora ao lado de meu apartamento nunca viu uma galinha
viva, jamais teve uma bola de gude ou tocou em uma vaca. Tudo lhe
é percebido pela televisão, cinema, fotografia, livro.
Mesmo assim, a eles é ensinado que devemos amar os bichos
e preservar a natureza. Há uma hipocrisia incrível
em tudo isso.
Ao dizer que as crianças estão
amadurecendo mais cedo, negamos o direito de reconhecer a lógica
do crescimento e delegamos aos jovens a plenitude de outras fases
da vida para a qual eles não estão preparados. Isto
é lastimável. Lembro-me, finalmente, da citação
de Barry Stevens em um livro que muito me marcou “Não
apresse o rio( ele corre sozinho)”. A poética
usada por Barry vale como chave: “É uma citação
Zen. Para mim, significa deixar-se ir junto com a vida, sem tentar
fazê-la ir para algum lugar, sem tentar fazer com que algo
aconteça, mas simplesmente ir, como o rio; e, sabe, o rio,
quando chega nas pedras, simplesmente se desvia, dá a volta;
quando chega à um lugar plano, ele se espalha e fica tranqüilo,
simplesmente vai”.
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