Sei que é
lugar comum dizer que o programa BBB não é
bom. Na mesma proporção cabe a perplexidade
da repetição de algo que mesmo não
sendo bom, subsiste com índices elevados de audiência.
É possível que cada um tenha sua explicação
e eu não vou deixar de me manifestar. A proposta,
porém é fazer algo que supere o simplista
“gosto” ou “não gosto”. Combino
minhas razões trançando argumentos históricos
e éticos. Não deixo fora, também, o
enquadramento na cultura nacional que, afinal, explica a
sétima edição.
Em termos históricos, é importante lembrar
que a expressão “Big Brother” deriva
do livro “1984” do fantástico militante
e escritor britânico George Orwell, também
autor do conhecido “A revolução dos
bichos”. Lembrando que Orwell, como tantos utopistas
da década de 1930, se rebelou contra os regimes autoritários
emergentes e que foi lutar na Espanha contra Franco, cabe
registrar que logo se decepcionou com o radicalismo soviético
stalinista. Colocando-se na oposição aos comunistas
e socialistas, sua atividade de escritor virava-se para
outra direção, contra todos os sistemas de
controle social, de esquerda ou direita.
Foi nesse sentido que criou a figura tétrica do Big
Brother, ou seja do “Grande Irmão” totalitário
que tudo vigia, tudo controla e tudo comanda. De certa forma,
alguns recursos ficcionais lançados no “1984”
acabaram por se mostrar premonitórios na medida em
que se amiúdam na realidade deste século XXI
que se abre como um alerta à impossibilidade da vida
privada. O surgimento de uma língua correspondente
ao mecanismo de controle, a novilingua, seria uma dimensão
a mais do alargamento do sistema que se poderia reconhecer
na globalização.
Além das razões históricas que dão
vida ao termo, faz-se importante considerar os efeitos locais
de um programa de televisão que se explica em nossa
cultura. Antes de tudo, deixe-me explicar que assisto diariamente
o tal programa, mas por fortes razões. Atento à
minissérie “Amazônia, de Galvez a Chico
Mendes”, sou obrigado a engolir o indesejado relato
diário, mas faço-o com juízo crítico
de alguém que pretende entender nosso comportamento
cultural.
O fato do BBB anteceder a minissérie, aliás,
perturba ainda mais esta edição. Vendo na
“Amazônia”, de Glória Peres, um
esforço integrativo da história de uma região
notável no mapa nacional, temos um contraste perfeito
com o Big Brother que trabalha principalmente com o princípio
da exclusão. É aí que reside minha
impertinência com o show comandado, inexplicavelmente,
pelo paciente, cuidadoso, bom jornalista, Pedro Bial. Mas
nem as virtudes do apresentador superam os limites dados
por um bando de jovens bonitos, sarados, com inteligência
capaz de fazer idiotas se sentirem gênios.
A transformação do público em juiz
carrega o pior dos pecados culturais: tornamo-nos, como
o “Grande Irmão”, os feitores que excluem
os mais fracos, aqueles que carregam a frustração
de não ser o melhor, o grande vencedor final. Confesso
[que] há uma eugenia cultural que chega a deprimir.
O uso da intriga como garantia do processo “natural”
de seleção é detestável e a
desavença programada em mistura com insinuações
amorosas é de uma pobreza incomensurável.
É preciso reconhecer que a incessante repetição
do programa, ano após ano, atesta a ideologia dominante.
Se em edições anteriores participavam pessoas
mais autenticamente enquadradas com a “cara do Brasil”,
neste o que se vê é um desfile de candidatas
e candidatos a posar em revistas masculinas/femininas com
a única coisa que lhes restam: o corpo. E, logicamente,
não é à toa que o programa usa e abusa
da piscina e da pouca roupa. A quebra da proposta de não
incluir pessoas “do povo” produz uma aberração
insuportável, pois até os “pobres”
desta edição são mais ricos e preparados
para receber um milhão de reais. O detestável
mesmo, contudo, não é o programa em si, mas
como aceitamos participar dele com votos. Sou terminantemente
contra o voto nulo, mas, neste caso, acho que seria a única
maneira de protestar. O silêncio, como diria Sêneca,
é de ouro. E que maravilha se não respondêssemos
ao que o BBB quer.
(mais BBB em Ventilado, pág 13)