Espelhos (clique)

Por: José Carlos Sebe Bom Meihy

Porque detesto o Big Brother Brasil...

BBB 7, mais uma vez, divide opiniões entre os que amam e os que detestam o programa. Mestre JC Sebe explica as razões que o colocam no segundo grupo.

 


Sei que é lugar comum dizer que o programa BBB não é bom. Na mesma proporção cabe a perplexidade da repetição de algo que mesmo não sendo bom, subsiste com índices elevados de audiência. É possível que cada um tenha sua explicação e eu não vou deixar de me manifestar. A proposta, porém é fazer algo que supere o simplista “gosto” ou “não gosto”. Combino minhas razões trançando argumentos históricos e éticos. Não deixo fora, também, o enquadramento na cultura nacional que, afinal, explica a sétima edição.


Em termos históricos, é importante lembrar que a expressão “Big Brother” deriva do livro “1984” do fantástico militante e escritor britânico George Orwell, também autor do conhecido “A revolução dos bichos”. Lembrando que Orwell, como tantos utopistas da década de 1930, se rebelou contra os regimes autoritários emergentes e que foi lutar na Espanha contra Franco, cabe registrar que logo se decepcionou com o radicalismo soviético stalinista. Colocando-se na oposição aos comunistas e socialistas, sua atividade de escritor virava-se para outra direção, contra todos os sistemas de controle social, de esquerda ou direita.


Foi nesse sentido que criou a figura tétrica do Big Brother, ou seja do “Grande Irmão” totalitário que tudo vigia, tudo controla e tudo comanda. De certa forma, alguns recursos ficcionais lançados no “1984” acabaram por se mostrar premonitórios na medida em que se amiúdam na realidade deste século XXI que se abre como um alerta à impossibilidade da vida privada. O surgimento de uma língua correspondente ao mecanismo de controle, a novilingua, seria uma dimensão a mais do alargamento do sistema que se poderia reconhecer na globalização.


Além das razões históricas que dão vida ao termo, faz-se importante considerar os efeitos locais de um programa de televisão que se explica em nossa cultura. Antes de tudo, deixe-me explicar que assisto diariamente o tal programa, mas por fortes razões. Atento à minissérie “Amazônia, de Galvez a Chico Mendes”, sou obrigado a engolir o indesejado relato diário, mas faço-o com juízo crítico de alguém que pretende entender nosso comportamento cultural.


O fato do BBB anteceder a minissérie, aliás, perturba ainda mais esta edição. Vendo na “Amazônia”, de Glória Peres, um esforço integrativo da história de uma região notável no mapa nacional, temos um contraste perfeito com o Big Brother que trabalha principalmente com o princípio da exclusão. É aí que reside minha impertinência com o show comandado, inexplicavelmente, pelo paciente, cuidadoso, bom jornalista, Pedro Bial. Mas nem as virtudes do apresentador superam os limites dados por um bando de jovens bonitos, sarados, com inteligência capaz de fazer idiotas se sentirem gênios.


A transformação do público em juiz carrega o pior dos pecados culturais: tornamo-nos, como o “Grande Irmão”, os feitores que excluem os mais fracos, aqueles que carregam a frustração de não ser o melhor, o grande vencedor final. Confesso [que] há uma eugenia cultural que chega a deprimir. O uso da intriga como garantia do processo “natural” de seleção é detestável e a desavença programada em mistura com insinuações amorosas é de uma pobreza incomensurável.


É preciso reconhecer que a incessante repetição do programa, ano após ano, atesta a ideologia dominante. Se em edições anteriores participavam pessoas mais autenticamente enquadradas com a “cara do Brasil”, neste o que se vê é um desfile de candidatas e candidatos a posar em revistas masculinas/femininas com a única coisa que lhes restam: o corpo. E, logicamente, não é à toa que o programa usa e abusa da piscina e da pouca roupa. A quebra da proposta de não incluir pessoas “do povo” produz uma aberração insuportável, pois até os “pobres” desta edição são mais ricos e preparados para receber um milhão de reais. O detestável mesmo, contudo, não é o programa em si, mas como aceitamos participar dele com votos. Sou terminantemente contra o voto nulo, mas, neste caso, acho que seria a única maneira de protestar. O silêncio, como diria Sêneca, é de ouro. E que maravilha se não respondêssemos ao que o BBB quer.
(mais BBB em Ventilado, pág 13)


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