Por: Luiz Gonzaga Pinheiro - espesspei@uol.com.br

Uma gaivota
Luiz Gonzaga Pinheiro retrata, com poesia, dois eventos que ocorreram na última semana. O Festival dos Mellos, realizado em três cidades da Serra da Mantiqueira, reuniu 183 personalidades intelectuais e artísticas brasileiras. O DNA Brasil, criado pelo empresário Ricardo Semler, agrupou especialistas que buscaram refletir sobre as perspectivas do Brasil.

Uma gaivota pousou em meu anfiteatro, mas o sonho recorrente com gaivotas e fragatas não impede que seja uma garça grande e branca. Tão grande e branca que era uma gaivota. Ficou lá no meio do palco, ao lado do piano, esperando que tocasse. Sem pressa, olhando para a platéia, muda.
Fernando Ito fazia voar seu novo pássaro de arribação, depois de vir de muito longe, ensaindo seu vôo de chegada, faz mais de vinte anos. Ele está no meu olhar, minha memória auditiva, minha memória de cores e do rufar de suas asas inqietas.
A sinfônica que trouxemos ataca de Leoncavalo. Depois, faz ouvir a voz nova do velho tema da Baixa do Sapateiro. Sai um pouco sem cintura, as pernas rígidas, produto da mão dura do maestro que não rebola, não constrói o som com a cintura que lhe fugiu, faz mais de quarenta quilos. Mas o coral do dia anterior gravou no ar “Gracias a la vida” e me dou graças pela vida que tenho.
No intervalo, uma “Stella Artois”, cervejinha belga que já me emocionou, muitos anos atrás. No fundo, um franguinho do brejo, vendido já sem direito a vôo, com sua forma de criatura estática, feita de pau e sonho. Petronilha continua pintando a Pedra do Baú, como faz desde que se casou e foi morar em São Bento.
Um grupo de teatro encena bobagens para poder dizer palavrões, sua única forma de expressão. Chove dilúvios, algumas vezes cristalizados em pedrinhas de gelo. Um contador de histórias recita sem moral e ética, sem mitos, duendes, habitantes dos mares, matas. Sem graça.
Helena se esculpe no corpo de Ana (Maria), a madona oriental. Segue o Festival, onde tudo acontece e, por mais que chova, nada termina mal.
A sinfônica ataca de Bizet e, logo depois, o toureador entra na arena triunfante, mas um pouco capenga da ausência de uma cadência sevilhana de verdade. Carmem olha de longe, com saudade de toureiros mais reais. É um festival: devemos vender a Amazônia?, pergunta o seminário, ali por perto.
Fico emocionado com o quadro surrealista que se criou. É um antigo estábulo o ambiente para tanta música, teatro, contação de história, mães agarradas aos filhos e filhos que gritam sua expressão sem censura de alegria. Um festival, o Festival dos Mellos, nome para guardar, porque vai ser nome de coisa importante em nosso país tão desimportante.
A meu lado, roda um pião caipira, assobiando sua música tangida pelo artesão que o vende. Uma feira de cores, formas, comida e conversa descontraída. Dois dias alienados, os cidadãos desligam-se de si próprios, também voam, acompanham a gaivota, já de volta para seu mar.
Fico na solidão do silêncio, guardo imagens de moças bonitas e mal educadas que se riem da música, falam alto, namoram ao celular. Um festival, descontração geral. E se não pagarmos a dívida externa?, pergunta o seminário, mudando de estação. Outra sala propõe que não devemos permitir que a escola prejudique nossa educação.

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