Uma
gaivota pousou em meu anfiteatro, mas o sonho recorrente
com gaivotas e fragatas não impede que seja uma
garça grande e branca. Tão grande e branca
que era uma gaivota. Ficou lá no meio do palco,
ao lado do piano, esperando que tocasse. Sem pressa,
olhando para a platéia, muda.
Fernando Ito fazia voar seu novo pássaro de arribação,
depois de vir de muito longe, ensaindo seu vôo
de chegada, faz mais de vinte anos. Ele está
no meu olhar, minha memória auditiva, minha memória
de cores e do rufar de suas asas inqietas.
A sinfônica que trouxemos ataca de Leoncavalo.
Depois, faz ouvir a voz nova do velho tema da Baixa
do Sapateiro. Sai um pouco sem cintura, as pernas rígidas,
produto da mão dura do maestro que não
rebola, não constrói o som com a cintura
que lhe fugiu, faz mais de quarenta quilos. Mas o coral
do dia anterior gravou no ar “Gracias a la vida”
e me dou graças pela vida que tenho.
No intervalo, uma “Stella Artois”, cervejinha
belga que já me emocionou, muitos anos atrás.
No fundo, um franguinho do brejo, vendido já
sem direito a vôo, com sua forma de criatura estática,
feita de pau e sonho. Petronilha continua pintando a
Pedra do Baú, como faz desde que se casou e foi
morar em São Bento.
Um grupo de teatro encena bobagens para poder dizer
palavrões, sua única forma de expressão.
Chove dilúvios, algumas vezes cristalizados em
pedrinhas de gelo. Um contador de histórias recita
sem moral e ética, sem mitos, duendes, habitantes
dos mares, matas. Sem graça.
Helena se esculpe no corpo de Ana (Maria), a madona
oriental. Segue o Festival, onde tudo acontece e, por
mais que chova, nada termina mal.
A sinfônica ataca de Bizet e, logo depois, o toureador
entra na arena triunfante, mas um pouco capenga da ausência
de uma cadência sevilhana de verdade. Carmem olha
de longe, com saudade de toureiros mais reais. É
um festival: devemos vender a Amazônia?, pergunta
o seminário, ali por perto.
Fico emocionado com o quadro surrealista que se criou.
É um antigo estábulo o ambiente para tanta
música, teatro, contação de história,
mães agarradas aos filhos e filhos que gritam
sua expressão sem censura de alegria. Um festival,
o Festival dos Mellos, nome para guardar, porque vai
ser nome de coisa importante em nosso país tão
desimportante.
A meu lado, roda um pião caipira, assobiando
sua música tangida pelo artesão que o
vende. Uma feira de cores, formas, comida e conversa
descontraída. Dois dias alienados, os cidadãos
desligam-se de si próprios, também voam,
acompanham a gaivota, já de volta para seu mar.
Fico na solidão do silêncio, guardo imagens
de moças bonitas e mal educadas que se riem da
música, falam alto, namoram ao celular. Um festival,
descontração geral. E se não pagarmos
a dívida externa?, pergunta o seminário,
mudando de estação. Outra sala propõe
que não devemos permitir que a escola prejudique
nossa educação.
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