Ciência, Popper e Kuhn (Coluna Lição de Mestre)


Karl Popper

Quando, no início da década de 1930, o ainda jovem Popper começou a frequentar o famoso “Círculo de Viena”, nem ele próprio poderia imaginar o papel central que desempenharia posteriormente no campo de filosofia da ciência.

Muito pouca gente esperava um futuro promissor daquele obscuro professor secundário, nascido em Himmelhof, distrito de Viena, há mais de cem anos, no dia 28 de julho de 1902. A única coisa que o distinguia dos demais integrantes do círculo, constituído por filósofos como Moritz Schlick (1882-1936), Otto Neurath (1882-1945), Rudolph Carnap (1891-1970), Hans Reichenbach (1891-1953), Herbert Feigl (1902-1988) e outros afamados “positivistas lógicos” da época, era a sua rejeição da indução como lógica da ciência, em flagrante oposição aos seus companheiros.

De fato, estes defendiam que o método científico era o indutivo. Em outras palavras, partindo-se de enunciados singulares, resultantes de descrições de observações ou experimentos, chega-se a (induz-se) enunciados universais -hipóteses ou teorias. Mas, como argumentava Popper, não existe nenhuma garantia lógica capaz de assegurar a inferência dos enunciados universais a partir de enunciados singulares, por mais numerosos que fossem estes. Mesmo observando milhares e milhares de cisnes brancos, não se pode afirmar que todos os cisnes são brancos, pois, a despeito de serem raros, também existem cisnes negros. Essa questão sobre a validade e as condições de inferência indutiva é conhecida como “problema da indução”.

Ela remete à indagação acerca da validade e veracidade dos enunciados universais baseados na experiência. Contudo, a descrição desta é sempre um enunciado singular, não um universal. Portanto, o problema da indução só pode ser resolvido se existir um “princípio de indução”, capaz de garantir a inferência indutiva. Porém, do ponto de vista lógico, não existe tal princípio. Logo, diz Popper, o método indutivo não é o método da ciência. E não adianta deslocar a questão, afirmando que a inferência indutiva pode não ser válida estritamente, mas que tem algum grau de confiabilidade e de probabilidade, como fizeram os positivistas lógicos, utilizando o cálculo de probabilidades.

Na sua essência, o problema fica inalterado e o impasse continua. Então, não tem sentido falar em lógica da pesquisa científica? Claro que sim, responde Popper. O que estava errado era a forma da pergunta. Ela queria saber se existe uma fonte privilegiada, cujos dados garantissem por si o conhecimento científico, demarcando a fronteira da ciência e da não-ciência (metafísica) e qual a lógica da demarcação. Tal fonte não existe. Os dados sensórios, base da indução, tão caros aos pensadores do Círculo de Viena, não têm esse “pedigree” capaz de assegurar, pela origem, o caráter científico do conhecimento. Todavia, eles podem perfeitamente mostrar a falsidade das hipóteses e teorias que constituem a ciência, fundamentada em uma assimetria da lógica clássica conhecida como “modus tollens”.

Se o enunciado B é deduzido do enunciado A, a sua veracidade não implica necessariamente na verdade de A, mas da sua falsidade decorre necessariamente a falsidade de A. De modo semelhante, não é possível afirmar a validade de um enunciado universal, porém é perfeitamente possível refutá-lo, ou falseá-lo, segundo a nomenclatura de Popper. Assim, o trabalho do cientista seria fazer conjeturas sobre uma realidade e depois tentar refutá-las.

Na primeira parte do processo, não há lógica. Esta aparece na segunda parte, no esforço de refutação, baseado no “modus tollens”. A teoria ou hipótese conjeturada deve, portanto, ter um formato adequado para ser testado, caracterizado pelo seu conteúdo empírico. Entretanto, sempre existe a possibilidade de salvar uma teoria, acrescentando uma hipótese ad hoc. Para que a lógica da pesquisa tenha validade, Popper solicita aos pesquisadores que não recorram a tal expediente, uma espécie de convenção. Essa era a sua engenhosa proposta, posteriormente, publicada com o título de “Logik der Forschung” (Lógica da Pesquisa, em alemão). Estava aí o cerne do pensamento popperiano.

Thomas Kuhn

Thomas Kuhn

O triunfo de um filósofo

Quando “Logik der Forschung” foi publicado pela primeira vez em 1935, pouca gente deu-lhe importância. Principalmente entre os filósofos o silêncio foi quase total. O reconhecimento viria de outras áreas. O economista Friedrich von Hayek levou-o para a Escola de Economia de Londres em 1946, onde Popper permaneceu pelo resto de sua vida acadêmica. Ao mesmo tempo, começaram a aparecer adeptos influentes no campo científico, sobretudo, no campo de biologia. A característica de ser uma filosofia de ação, valorizando a criatividade, além do caráter evolucionário à Darwin, seduziu um grupo seleto de talentosos biólogos. Pelo menos, três deles ganharam o Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia: Peter Medawar (1960), John Eccles (1963) e Jacques Monod (1965). Nenhum deles poupou elogios ao grande filósofo, enfatizando como as idéias popperianas fomentaram as suas investigações.

Assim, na década de 60, ele começou a firmar-se como um dos nomes mais conhecidos, mesmo entre filósofos. Todavia, a polêmica não poderia estar ausente na sua vida. Exatamente nessa época, do auge da sua fama, apareceu a obra de Thomas S. Kuhn “A Estrutura das Revoluções Científicas” (1962), colocando em xeque a sua tese principal.

Segundo Kuhn, os cientistas, em geral, não estão interessados em refutar as teorias, mas em salvá-las, contrariando a convenção proposta por Popper. Isso, entretanto, não abalou o austríaco naturalizado britânico. Muito ao contrário. Popper reconheceu a existência de uma “ciência normal”, no sentido kuhniano, na qual o falseamento é evitado, considerando-a objeto de pesquisa importante para o historiador de ciência. Contudo, de acordo com o seu ponto de vista, para o lógico de ciência isso pouco tem a acrescentar. De qualquer modo, até sua morte, em 1994, aos 92 anos, continuou com suas idéias e debates, instigando não só o campo filosófico, mas talvez muito mais o científico.

T.S. Kuhn usou o termo ‘paradigma’ para se referir a estruturas e/ou compreensões do mundo de várias comunidades científicas. Para Kuhn, um paradigma científico inclui modelos como o modelo planetário dos átomos, e teorias conceitos, pressupostos e valores. Para Kuhn, uma noção como a do paradigma científico foi essencial para compor seu argumento alusivo a um aspecto particular da história da ciência, a saber, quando uma estrutura conceitual cede lugar a outra, durante o que ele chamou de revolução científica.

Kuhn acreditava que, durante períodos de “ciência normal”, os cientistas trabalham dentro do mesmo paradigma. A comunicação e trabalho científico prosseguem de forma relativamente sem percalços até que ocorram anomalias, ou que uma nova teoria ou modelo seja proposta, exigindo que se entenda conceitos científicos tradicionais de novas maneiras, e que se rejeite velhos pressupostos e substitua-os por novos.

 por Antônio Marmo de Oliveira, antonio_m@uol.com.br

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