Meu
caro Paulo de Tarso:
Depois de quase quatro meses
sem visitar minha querida Ubatuba e minha república do
Itaguá, preso em Taubaté aos cuidados dos doutores
Herculano e Ronaldo, que me cuidaram de uma vértebra quebrada
e outros quebrantos e me mitigaram as dores, pude voltar a ver
minha praia preferida.
As novidades são poucas: talvez pela presença do
primeiro transatlântico que ancorou no Itaguá, no
píer da Marina dos Tamoios, as calçadas foram cimentadas,
num serviço sem o capricho com que fizeram na Iperoig,
mas agora se pode fazer a caminhada matinal tão saudável
para pessoas da minha idade sem trupicar e dar com a cara no chão,
como muitas vezes ocorria.
Outra coisa boa é que
não tenho visto mais os cães vadios, abandonados,
que viviam estourando os sacos de lixo e brigando a dentadas por
pedaços de comida. Acho que houve alguma ação
e, para tristeza de minha amiga Regina Morgado, eles foram transformados
em sabão.
Não entendi porque
tiraram os bancos: ajudavam as pessoas cansadas embora vez ou
outra servissem de cama e sala de jantar para os desabonados da
vida. Já era errado que os bancos ficassem voltados para
a avenida, como se o bom fosse ver os carros passando, e não
o mar, o grande e maravilhoso mar, onde certa vez contei mais
de 20 barcos de pesca lá no horizonte... mas sem os bancos
não está bom. Por que tiraram os bancos?
O grande defeito de nossa
beira-mar, para caminhadas, continua sendo a infeliz idéia
de plantar alienígenas chapéus-de-sol, que soltam
sementes escorregadias, que atraem morcegos e amarelam folhas
que entopem tudo e exigem um cuidado nem sempre possível
dos garis da prefeitura. Ah, sim, uma dia o cronista-poeta Rubem
Braga fez uma crônica sobre as amendoeiras (outro nome da
árvore) de Copacabana e elas viraram ícones. Sujam
tudo, as raízes estouram as calçadas, nada vale
a pena nelas, a não ser a sombra, muito boa, que também
poderia ser obtida com outras árvores.
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É
isso aí, meu caro Paulo de Tarso. Vamos aqui levando a
vida, num calor danado, aguardando a chegada do ar-condicionado
que já comprei. Instalá-lo vai ser outra briga,
mas já tenho amigos que podem fazer isso sem me arrancar
os olhos da cara.
Não sei quando poderei
estar novamente te ajudando com as revisões do Jornal CONTATO.
Abração do Sachs.
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