CARTA DE UBATUBA
Oscar Sachs



      Meu caro Paulo de Tarso:
      Depois de quase quatro meses sem visitar minha querida Ubatuba e minha república do Itaguá, preso em Taubaté aos cuidados dos doutores Herculano e Ronaldo, que me cuidaram de uma vértebra quebrada e outros quebrantos e me mitigaram as dores, pude voltar a ver minha praia preferida.
As novidades são poucas: talvez pela presença do primeiro transatlântico que ancorou no Itaguá, no píer da Marina dos Tamoios, as calçadas foram cimentadas, num serviço sem o capricho com que fizeram na Iperoig, mas agora se pode fazer a caminhada matinal tão saudável para pessoas da minha idade sem trupicar e dar com a cara no chão, como muitas vezes ocorria.
      Outra coisa boa é que não tenho visto mais os cães vadios, abandonados, que viviam estourando os sacos de lixo e brigando a dentadas por pedaços de comida. Acho que houve alguma ação e, para tristeza de minha amiga Regina Morgado, eles foram transformados em sabão.
      Não entendi porque tiraram os bancos: ajudavam as pessoas cansadas embora vez ou outra servissem de cama e sala de jantar para os desabonados da vida. Já era errado que os bancos ficassem voltados para a avenida, como se o bom fosse ver os carros passando, e não o mar, o grande e maravilhoso mar, onde certa vez contei mais de 20 barcos de pesca lá no horizonte... mas sem os bancos não está bom. Por que tiraram os bancos?
      O grande defeito de nossa beira-mar, para caminhadas, continua sendo a infeliz idéia de plantar alienígenas chapéus-de-sol, que soltam sementes escorregadias, que atraem morcegos e amarelam folhas que entopem tudo e exigem um cuidado nem sempre possível dos garis da prefeitura. Ah, sim, uma dia o cronista-poeta Rubem Braga fez uma crônica sobre as amendoeiras (outro nome da árvore) de Copacabana e elas viraram ícones. Sujam tudo, as raízes estouram as calçadas, nada vale a pena nelas, a não ser a sombra, muito boa, que também poderia ser obtida com outras árvores.




      É isso aí, meu caro Paulo de Tarso. Vamos aqui levando a vida, num calor danado, aguardando a chegada do ar-condicionado que já comprei. Instalá-lo vai ser outra briga, mas já tenho amigos que podem fazer isso sem me arrancar os olhos da cara.
      Não sei quando poderei estar novamente te ajudando com as revisões do Jornal CONTATO.
Abração do Sachs.