
A letra de “Vou festejar”, composição:
João Bosco, Dida e Neoci, cantada por Beth Carvalho, é
no mínimo intrigante e oportuna. Eu a vi cantar no ano
passado, logo depois do vexame promovido pela antiga diretoria
da Mangueira que na Marques de Sapucaí a fez descer do
carro alegórico a que estava destinada. O entusiasmo e
a picardia da interpretação fazia todo sentido,
como revanche fazia todo sentido. O público, ao fim do
show, em pé, repetia “Chora, não vou ligar/Chegou
a hora/Vai me pagar/Pode chorar pode chorar (mais chora)/É,
o teu castigo/Brigou comigo/Sem ter porque/Eu vou festejar, vou
festejar/O teu sofrer, o teu penar”, mas de verdade mesmo
todos deliravam ao assumir o refrão “Você pagou
com traição/A quem sempre lhe deu a mão”.
Era impressionante, parecia que a música não terminaria
nunca. Era acabar o refrão e se recomeçava. Todos
incorporavam o repúdio à mais popular de todas as
entidades de samba carioca. E Beth chorava cantando...
Não bastasse o carinho da torcida
solidária, agora, para o próximo carnaval, vem a
forra e de um jeito surpreendente, algo completo. E tudo se faz
desagravo na própria avenida. Mangueira está se
tornando tradicional também como agremiação
ingrata, por não saudar o mais importante de seus defensores,
Cartola – em troca do patrocínio do estado de Pernambuco
que celebra cem anos do frevo.
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Outra escola, porém, acolheu a homenagem
e propôs mais que um enredo uma afronta nada sutil. Com
o título “É de arrepiar” os
compositores Paulo César Portugal, Evaldo, Tamiro e Lima
Andrade assinaram a letra que diz assim “amor, olha
só quem vem lá/é de arrepiar, com tanto frio/vem
cá me abraçar/vem aquecer o meu frio/mexa remexa
sacode a madeixa me faz delirar/tô no fricote, dou um beijo
no cangote/eu quero ver, a semente germinar/o show da bateria
alucina/traz, como a corrente a emoção/arte, literatura
me fascina/outra realização/porém nem tudo
são flores/há dissabores e felicidade/vidas perdidas
no jogo de poder e maldade/eu sou sincero .../de vassoura ou de
chinelo, chama alguém pra ajudar/na tela uma cena de terror/de
arrepio e calafrio você vai se assustar/peguei um ita no
norte, gostei tive sorte, e kizombei/mesmo proibido, desfilei/em
versos e poesias menestrel/vou cumprindo meu papel/’bate
outra vez’ o meu coração/pois já vai
terminando o verão/as rosas não falam/na viradouro
exalam/o perfume de uma canção”.
Não é necessário alertar
para a provocação. Mas a história não
pára aí, não. O que fez a Viradouro para
ainda mais promover a vingança? Convidou Beth Carvalho
para sair no carro alegórico mais importante, exatamente
aquele em que homenageia Cartola com a canção “as
rosas não falam”. Para completar esta história,
homenageada por cinqüenta sambistas, a grande dama do samba
brasileiro declarou: “Sou manguerirense até morrer,
mas só desfilo pela escola se houver uma retratação,
se me fizerem uma homenagem na quadra para mim”.
Ah! garanto, se isto acontecer eu vou. Vou
e lá encontrarei os meus amigos taubateanos, Duda e o Flávio
“Sapatão”. Mas caso não haja
o tal pedido de desculpas, por enquanto se eles quiserem me ver
que compareçam à quadra da Viradouro. Sou mangueirense,
mas este ano não tem como deixar de torcer pela escola
da Juliana Paes e repetir’bate outra vez’ o meu
coração/pois já vai terminando o verão/as
rosas não falam/na viradouro exalam/o perfume de uma canção”.
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