BETH CARVALHO, A MANGUEIRA E A VIRADOURO
Mangueirense de sete costados, mestre JC Sebe faz um desagravo à sambista da escola de samba mais cantada em versos por cariocas de todas origens, mas ingrata com seus símbolos como o foi com Cartola, em 2007





      A letra de “Vou festejar”, composição: João Bosco, Dida e Neoci, cantada por Beth Carvalho, é no mínimo intrigante e oportuna. Eu a vi cantar no ano passado, logo depois do vexame promovido pela antiga diretoria da Mangueira que na Marques de Sapucaí a fez descer do carro alegórico a que estava destinada. O entusiasmo e a picardia da interpretação fazia todo sentido, como revanche fazia todo sentido. O público, ao fim do show, em pé, repetia “Chora, não vou ligar/Chegou a hora/Vai me pagar/Pode chorar pode chorar (mais chora)/É, o teu castigo/Brigou comigo/Sem ter porque/Eu vou festejar, vou festejar/O teu sofrer, o teu penar”, mas de verdade mesmo todos deliravam ao assumir o refrão “Você pagou com traição/A quem sempre lhe deu a mão”. Era impressionante, parecia que a música não terminaria nunca. Era acabar o refrão e se recomeçava. Todos incorporavam o repúdio à mais popular de todas as entidades de samba carioca. E Beth chorava cantando...
      Não bastasse o carinho da torcida solidária, agora, para o próximo carnaval, vem a forra e de um jeito surpreendente, algo completo. E tudo se faz desagravo na própria avenida. Mangueira está se tornando tradicional também como agremiação ingrata, por não saudar o mais importante de seus defensores, Cartola – em troca do patrocínio do estado de Pernambuco que celebra cem anos do frevo.

      Outra escola, porém, acolheu a homenagem e propôs mais que um enredo uma afronta nada sutil. Com o título “É de arrepiar” os compositores Paulo César Portugal, Evaldo, Tamiro e Lima Andrade assinaram a letra que diz assim “amor, olha só quem vem lá/é de arrepiar, com tanto frio/vem cá me abraçar/vem aquecer o meu frio/mexa remexa sacode a madeixa me faz delirar/tô no fricote, dou um beijo no cangote/eu quero ver, a semente germinar/o show da bateria alucina/traz, como a corrente a emoção/arte, literatura me fascina/outra realização/porém nem tudo são flores/há dissabores e felicidade/vidas perdidas no jogo de poder e maldade/eu sou sincero .../de vassoura ou de chinelo, chama alguém pra ajudar/na tela uma cena de terror/de arrepio e calafrio você vai se assustar/peguei um ita no norte, gostei tive sorte, e kizombei/mesmo proibido, desfilei/em versos e poesias menestrel/vou cumprindo meu papel/’bate outra vez’ o meu coração/pois já vai terminando o verão/as rosas não falam/na viradouro exalam/o perfume de uma canção”.
      Não é necessário alertar para a provocação. Mas a história não pára aí, não. O que fez a Viradouro para ainda mais promover a vingança? Convidou Beth Carvalho para sair no carro alegórico mais importante, exatamente aquele em que homenageia Cartola com a canção “as rosas não falam”. Para completar esta história, homenageada por cinqüenta sambistas, a grande dama do samba brasileiro declarou: “Sou manguerirense até morrer, mas só desfilo pela escola se houver uma retratação, se me fizerem uma homenagem na quadra para mim”.
      Ah! garanto, se isto acontecer eu vou. Vou e lá encontrarei os meus amigos taubateanos, Duda e o Flávio “Sapatão”. Mas caso não haja o tal pedido de desculpas, por enquanto se eles quiserem me ver que compareçam à quadra da Viradouro. Sou mangueirense, mas este ano não tem como deixar de torcer pela escola da Juliana Paes e repetir’bate outra vez’ o meu coração/pois já vai terminando o verão/as rosas não falam/na viradouro exalam/o perfume de uma canção”.