Vaidade, amor?

      A noite cumpria seu roteiro de rotinas e nem me perco em dizer do que era feita a rotina noturna do lugar em que pretendo hospedar minha pequena história noturna. Trata-se de um vitrô simples, de vidros brancos,deixando livre todo o espaço interior, cujas bananas e laranjasfalavam dos mesmos desejos dos donos da casa, raramentevistos por ali.
      Quero, desde já, não sonegar informações. O sabiá sentia fome e curiosidade. A fome corrompia sua dignidade de sabiá, e o levava a bicar o vidro, emitindo sinais só vistos e ouvidos por ele próprio. Sua dança era repetida do outro lado do vidro, com uma inquietante simetria. Isso lavava o dono a por pedaços de mamão do outro lado do vitrô, só interrompendo sua exibição quando não houvesse mais luz.
      Desse momento em diante comia alguns poucos pedaços e se ia para o galho de uma árvore próxima esperar pelas luzesdo dia, que logo se abriria, para que o sabiá continuasse sua lida contra a janela e a favor de seus horizontes.
      O tempo em que durou a dança e as observações não saberia dizer, mas foi longo, se tiver meus olhos voltados para os rejeitos que se formavam no patamar, pelo lado de fora..

      Um dia acordou com graves rumores (rumores surdos) toques descontrolados, seguidos de vôos breves, com retorno ao mesmo lugar de antes. Essa movimentação ia subindo em agitação na mesma medida em que o pássaro perdia peso e graça.
      Faço um parêntesis para explicar que o canto do sabiá é um discurso longo de amor, triste, ao final, e, de qualquer forma um convite para viver juntos uma aventura de amor. Os ornitólogos têm o canto do sabiá como das páginas mais belas da musica natural de nossas matas.
Um dia, ele não apareceu, mas no outro veio, sumindo três dias seguidos, voltando tempos depois, sem o canto, suas bicadas no vidro, que também sinalizavam sua alegria com alegria com seu porte altivo. Sim, ele próprio se considerava um Narciso, vindo daí a explicação para a fidelidade à janela e a devoção à figura de uma dançarina vinda da Colômbia e posta diante do vitrô, como enfeite da sala.
      Caso fosse uma fábula, poria um toque exemplar em seu fecho, mas é só uma história de sabiá que perdeu sua emulação e deixou, tempos depois, de viver por não conseguir levar adiante sua deliciosa passagem apaixonada de sabiá que encontrou o amor e, como em todas as histórias, fica sem ele.